“O ódio que Mário Botas tinha contra a burguesia era de uma imensidão inaudita”


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O pintor Mário Botas nasceu a 23 de Dezembro de 1952 na Nazaré. Em Lisboa, a seguir ao 25 de Abril de 1974, foi uma presença constante nos meios libertários, nomeadamente como frequentador da sede de “A Batalha”, na rua Angelina Vidal.  A poucos dias de mais um aniversário do nascimento de Mário Botas recuperamos este artigo de José Maria Carvalho Ferreira, que com ele manteve estreitas relações de amizade até à sua morte, a 29 de Setembro de 1983, em Lisboa, publicado na revista “A Ideia”, de Novembro de 2013.

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EM MEMÓRIA DE MÁRIO BOTAS

JOSÉ MARIA CARVALHO FERREIRA

Tive oportunidade de conhecer um querido amigo denominado Mário Ferreira da Silva Botas (1952-1983) logo após os acontecimentos históricos de 25 de Abril de 1974. Desde essa data até à sua morte, estabeleci com ele um diálogo único e singular perpassado por uma profundeza, amizade e cumplicidade existencial. Neste sentido, e nem esse é o meu interesse, procurarei não me imiscuir sobre o valor heurístico e analítico do autor consubstanciada em cerca de 600 obras pictóricas. Em função do exposto, interessa-me sobremaneira articular o pulsar da vida quotidiana com expressões artísticas, ideológicas e literárias que atravessaram a vida e a obra de Mário Botas.

Pautado por um individualismo difuso, articulado com uma espécie de atitude narcisista e o niilista, toda a vida e obra de Mário Botas é marcada indelevelmente pela lucidez e a revolta, cujos contornos decorrem dos parâmetros da civilização judaico-cristã. Os dilemas existenciais sobre o sentido da vida e da morte, do bem e do mal, do sagrado e do profano são disso prova, uma prova suficiente. Todas estas realidades dicotómicas são interdependentes e complementares, não sendo possível separá-las no espaço e no tempo. Esta disjunção mecanicista da civilização judaico-cristã levou a que Mário Botas vivesse num permanente ódio e angústia em relação à problemática da morte, assim como da negação do Estado, da religião e da burguesia. As suas primeiras pinturas são atravessadas por uma leitura muito singular do surrealismo, acompanhado por uma aproximação à obra de Mário Cesariny e de Cruzeiro Seixas. Todavia, com base nas mudanças políticas, culturais, económicas e sociais provocadas pelo Maio de 1968 em França e, por outro lado, a leitura diversificada de poetas e escritores tão diversificados como Eugénio de Andrade, António Osório, Raul de Carvalho, Herberto Hélder, Mário de Sá-Carneiro, Rimbaud, Lautréamont, Borges, Kafka, Pessoa, Camões, Tristan Corbière, Rilke, Baudelaire, etc…, levaram-no a descobrir um tipo de dadaísmo bastante singular. Este dadaísmo, identificavam-no sobremaneira com o anarquismo individualista. Este, por sua vez, era mesclado por uma moral e uma ética existencial de vida profundamente narcísica e niilista.

Nas nossas conversas e vivências quotidianas existia uma preocupação que passava sempre pelo prazer de viver o máximo possível, criticando-se, para o efeito, os costumes, a moral burguesa, nomeadamente no que respeitava os pressupostos do matrimónio e das relações sexuais normativas. Neste aspecto, o ódio que Mário Botas tinha contra a burguesia era de uma imensidão inaudita. Para Mário Botas, a hipocrisia e o cinismo das relações sociais fomentadas pela burguesia não estavam focalizadas basicamente nas relações entre o capital e o trabalho, mas sobretudo nos interstícios dos valores, da moral, da estética e da ética que preenchiam a vida quotidiana da família, nomeadamente nas relações entre patrões e criadas, entre homem e mulher e entre pais e filhos.

Nas relações sociais que atravessavam as nossas vidas quotidianas persistia um ideal anarquista difuso enformado pela teoria e prática da amizade e dos afetos. Neste âmbito, a crítica radical dos partidos e sindicatos tornava-se um lugar-comum, tal como dos modelos de sociedade contrastantes vigentes que procuravam controlar, opinar e decidir sobre o comportamento da espécie humana: capitalismo, fascismo, comunismo e socialismo. Para o efeito, as polémicas entre esquerda e direita revelavam-se inúteis e ultrapassadas. Antes de mais, importava cultivar a liberdade, a amizade, a criatividade e a solidariedade entre indivíduos. Durante anos senti que para Mário Botas, esse era um espaço-tempo nuclear da afirmação da vida através da revolta e da lucidez. Não admira assim que a criação artística de Mário Botas, nesse período histórico, fosse sempre pautada por um anarquismo individualista de tipo dadaísta, perpassado por um narcisismo e um niilismo absorvidos na luta pela vida contra a morte. A descoberta da doença da leucemia quando frequentava o curso de medicina em Lisboa, em 1974/1975, absorveu-o de tal forma, que toda a sua energia, informação e conhecimento que possuía foram veiculados, numa pequena parte, para as relações de amizade com os amigos e, a parte substancial, foi circunscrita na produção dos seus quadros de pintura. Até à sua morte em 1983, foram realizadas várias exposições com base na sua obra. Hoje, grande parte dessa criação artística está sediada na Fundação Mário Botas, na Nazaré, e no Centro Cultural de Belém, em Lisboa.

No que posso referir às posições ideológicas e políticas de Mário Botas sobre a evolução da sociedade portuguesa após o 25 de Abril de 1974, na minha opinião, ele era um crítico radical do fascismo português, protagonizado por António de Oliveira Salazar e Marcelo Caetano. Esse facto não obstante não o impediu de estar equidistante de todas as ideologias de esquerda e de direita que emergiram após esse acontecimento histórico. É sobretudo este facto que criou uma empatia imensa entre mim e Mário Botas e se transformou numa grande amizade e cumplicidade existencial. O sentido da luta pela vida e pela emancipação social e a profusão da liberdade e da criatividade a ela associada levaram-nos, cada um a seu modo, a caminharmos no sentido da anarquia.

Nos limites existenciais da nossa relação conheci o pai de Mário Botas: Mário da Silva Botas. Era um homem de um carácter excepcional. Tudo o que tinha e o que não tinha foi doado para salvar a vida do filho que tanto amava. Depois da morte de Mário Botas ainda teve forças para frequentar a licenciatura na Faculdade de Letras de Lisboa. Tentou tudo para construir um edifício na Nazaré que pudesse albergar o espólio da obra de Mário Botas. Lutou até ao fim da sua vida para que esse edifício albergasse a grandiosidade artística do seu filho, ao ponto de imaginar um espaço quase semelhante ao da Fundação Calouste Gulbenkian, permitindo assim que Mário Botas tivesse a visibilidade histórica e social que a sua obra exigia. Para os devidos efeitos, tentou que o arquitecto Raul Veríssimo elaborasse um projecto consequente. Após a conclusão deste projecto, várias foram as tentativas junto do presidente da Câmara da Nazaré no sentido da concretização prática de objectivo. A exiguidade de meios financeiros e a falta de terrenos apropriados para a construção do referido edifício levaram a que o pai de Mário Botas e Raul Veríssimo vissem todas as suas tentativas goradas. Entretanto, o pai de Mário Botas morreu. Após vários anos de avanços e recuos, a câmara da Nazaré, com base num novo projecto arquitectónico, acabou, recentemente, de construir um edifício que pertence à Fundação Mário Botas.

aqui: A IDEIA revista de cultura libertária, nºs 71-72, pgs. 110-11, novembro de 2013 

relacionado: http://cvc.instituto-camoes.pt/seculo-xx/mario-botas.html#.WFAsiPmLSUk

http://www.rtp.pt/arquivo/index.php?article=1401&tm=23&visual=4

https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2013/01/11/mario-botas-a-mais-extrema-consciencia-da-liberdade-individual/

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