(1918) A greve geral em Vale de Santiago e o assassinato de Sidónio Pais


 

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Bilhete-Postal de 1919, retratando o assassinato do Presidente Sidónio Pais na Estação Ferroviária de Lisboa-Rossio, no dia 14 de Dezembro de 1918

Passam hoje 98 anos sobre o assassinato de Sidónio Pais, presidente da 1ª República e um dos precursores do fascismo europeu. A sua morte está ligada à greve geral de Novembro de 1918, que teve um eco particular no concelho de Odemira, no Vale de Santiago, e que foi violentamente reprimida. Num e noutro caso, aparece como figura destacada José Júlio da Costa, o alentejano que matou Sidónio Pais, na Estação do Rossio, em Lisboa, com 25 anos de idade.

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“José Júlio da Costa nasceu em Garvão, no dia 14 de Outubro de 1893, no seio de uma família de proprietários, considerada abastada para a época. Os pais, também de Garvão, eram Eduardo Brito Júlio e Maria Gertrudes da Costa Júlio, e era casado com Maria do Rosário Pereira Costa de quem não houve filhos.

José Júlio da Costa, assentou praça no exército, como voluntário, aos 16 anos em 21 de Maio de 1910. Combateu na Rotunda, pela implantação da República, nos dias 4 e 5 de Outubro desse ano. Ofereceu-se como voluntário para Timor, Moçambique e Angola, onde recebeu um louvor em 27 de Dezembro de 1914.Deixou o exército a 11 de Abril de 1916 com o posto de Segundo Sargento.

José Júlio da Costa, nas entrevistas que deu, antes da sua morte, mostra claramente o seu descontentamento generalizado com a política seguida por Sidónio Pais, a quem acusa de traição aos ideais da revolução Republicana de 1910, por ser adepto da Alemanha e de alinhar ao lado dos Monárquicos e do Clero, inimigos da República.

De facto, Sidónio Pais governou em ditadura, pela política que implementou. Pode-se afirmar que foi o percursor de regime fascista nascido a 28 de Maio de 1926, que levou Salazar ao poder.

Sidónio Pais, sublevou as instituições democráticas nascidas com a revolução republicana e fez-se “coroar” presidente à revelia do Congresso e da Constituição Portuguesa.

No seu breve ano de governação foi suficientemente demonstrativo do cariz fascisante da sua política ditatorial. Liquidou o sistema parlamentar democrático, impôs a censura à Imprensa, centralizou os poderes, criou a polícia preventiva, rearmou a polícia pública, empregou uma enorme demagogia nos seus discursos políticos, transferiu para Lisboa as unidades militares da sua confiança, atulhou as prisões com milhares de adversários republicanos; num ano de governação passaram pelas prisões de África e do país cerca de 20 mil pessoas.

José Júlio da Costa acusa também Sidónio Pais de ter abandonado, à sua sorte, o Corpo Expedicionário Português que combatia nas Flandres em França, na Grande Guerra de 1914-18, provocando a morte a cerca de 3000 soldados, sargentos e oficiais.”, escreve  José P. Malveiro. (1)

A GREVE GERAL DE 1918 E A COMUNA DA LUZ

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António Gonçalves Correia

Mas as razões de José Júlio da Costa parecem estar também relacionadas com o impacto da greve geral decretada a 18 de Novembro de 1918 pela União Operária Nacional, que foi um fracasso em termos gerais, mas que no Vale de Santiago, uma vila próxima a Garvão, no concelho de Odemira, resultou em ocupações de terras e em assalto a celeiros por parte dos trabalhadores. Na altura, José Júlio da Costa foi o intermediário entre as autoridades e os grevistas, que conseguiu fazer desmobilizar com a promessa de penas leves, o que não aconteceu, uma vez que muitos dos trabalhadores de Vale de Santiago foram presos e deportados para África, o que o terá levado a sentir-se traído.

O historiador Constantino Piçarra refere a este propósito,  que “aqui [no Vale de Santiago], de 18 a 22 de novembro, os assalariados rurais, dando vivas aos sovietes e à revolução social, ocupam algumas herdades e assaltam os celeiros, dividindo entre si o trigo. A esta revolta sucede-se uma brutal repressão desenvolvida pelo exército e Guarda Nacional Republicana, em estreita articulação com os proprietários agrícolas. Dezenas de grevistas são presos e, posteriormente, deportados para África.

No mesmo território em que ocorre este movimento revolucionário está instalada uma comuna, a “Comuna da Luz”, mais concretamente na herdade das Fornalhas Velhas. Esta comuna tinha sido fundada em 1917 por António Gonçalves Correia, caixeiro viajante, natural de São Marcos da Ataboeira, concelho de Castro Verde. Guiado pelo seu ideal anarquista de raiz tolstoiana, Gonçalves Correia, acompanhado por15 companheiros, incluindo mulheres e crianças, funda esta comuna onde a subsistência é assegurada pela actividade agrícola e pelo fabrico de calçado.

Acusado de ser um dos instigadores da sublevação em Vale de Santiago, Gonçalves Correia é preso dia 29 de novembro, em Beja, e enviado para a prisão do Limoeiro, em Lisboa, e a “Comuna da Luz” é dissolvida pelas forças militares que ocupam o território”.(2)

A MORTE DE SIDÓNIO PAIS

É neste contexto que “José Júlio da Costa serviu como intermediário na contenda, a pedido das autoridades, e convenceu os trabalhadores a renderem-se, com a promessa de que não seriam presos. As autoridades políticas e policiais faltaram à palavra dada a José Júlio da Costa, de que, se os revoltosos se rendessem, não seriam castigados, prendendo-os logo a seguir e deportando-os para África.

sidonioJosé Júlio da Costa, sentindo-se traído, jurou vingar os seus conterrâneos do Vale de Santiago, matando o ditador Sidónio Pais. Ainda o barco que levava os revoltosos para África, para onde tinham sido desterrados, pelos tribunais do regime, não tinha chegado ao destino e já Sidónio Pais jazia com dois tiros de pistola na estação do Rossio (Lisboa), disparados por José Júlio da Costa, que, assim, jurara vingar os seus conterrâneos do Vale de Santiago, que confiaram na sua palavra de que não seriam molestados caso se rendessem às autoridades.” (3)

Sentindo-se traído e enganado “Costa deslocou-se de Garvão, no  Baixo-Alentejo, até Lisboa, com o objectivo de acabar com o regime sidonista, ou seja pôr termo à República Nova, assassinando o seu líder. A acção foi cuidadosamente preparada, como indica uma carta escrita por ele mesmo em 12 de Dezembro. (ver mais abaixo)

No dia 14 de Dezembro, após jantar no restaurante Silva, localizado no Chiado, dirigiu-se à Estação do Rossio, onde aguardou a chegada do chefe de Estado que deveria partir rumo à cidade do Porto. Quando Sidónio Pais se preparava para o embarque, no primeiro andar da estação, Costa furou o duplo e compacto cordão policial ao mesmo tempo em que disparava uma pistola, escondida pelo seu capote alentejano. O primeiro projéctil alojou-se junto do braço direito do presidente, e o segundo, fatalmente, no ventre, fazendo com que a vítima caísse de imediato por terra.

Apesar da enorme confusão que se instalou, e de que resultaram quatro mortos, José Júlio Costa, não tentou fugir, deixando-se capturar.”(4)

“Depois de ter morto Sidónio Pais, José Júlio da Costa, foi preso e brutalmente agredido, logo ali no local, e levado posteriormente para a Escola de Guerra onde sofreu novos suplícios no seu corpo já ensanguentado. Preso, José Júlio da Costa sofreu todo o tipo de agressões, incluindo disparos, a meio da noite, para dentro da cela.

Os seus próprios familiares,sem terem nada a ver com o caso, foram molestados pelas autoridades, inclusivamente a sua mãe e a sua esposa, Rosária Pereira Neves Costa, foram presas nos calabouços do governo civil, onde ficaram incomunicáveis (Jornal “O SÉCULO”página 3 de 18 de Dezembro de 1918).

Ainda hoje, algumas pessoas da vila falam de tal, e ainda se lembram do estado que a D. Maria Gestrudes chegava à vila depois de ir ver o filho a Lisboa.

A mãe, antes de morrer, só pediu uma coisa: que levasse consigo o retrato do filho quando fosse enterrada. José Júlio da Costa morreu a 16 de Março de 1946, no Hospital psiquiátrico Miguel Bombarda, em Lisboa, com 52 anos de idade, com a razão toldada por 28 anos de prisão sem nunca ter sido julgado, completamente esquecido nas prisões do regime.” (5)

*

Carta de JOSÉ JÚLIO DA COSTA, escrita dois dias antes do atentado, confessando o acto que se propunha fazer ao seu amigo Francisco Ernesto Goes, proprietário na Barquinha:

(1ª folha) Lisboa, 12 de Dezembro de 1918

Meu caro amigo Ernesto

Não avistei a pessoa que me preocupa, espero que o encontro será no dia 14, e oxalá possa eu prestar com o meu sacrifício o fim que tantas almas anceiam. Hoje falei com o Dr. Magalhães Lima, elle está muito doente receio muito pela sua vida que tão preciosa é a esta nossa tão amada terra. Não me foi possível falar-lhe no magno assunto, nem talvez tenha já tempo de o fazer. Deixá-lo depois que façam o que o seu sentimento patriótico lhes designar

(2ª folha) Não é tão fácil como me pareceu a minha Missão, mas com um pouco de arrojo posso consegui-lo. Levo do lado do meu coração o envolto na nossa bandeira a estrofe que te faço cópia. Mandei tirar fotografias grandes no Grandella, não tenho tempo de te enviar uma por isso te recomendo que requisites depois alguma para ofereceres aos nossos camaradas de ideias. Não tenho ninguém comprometido no meu gesto, só eu! Abraça-te o teu amigo

José Júlio da Costa (6)

Notas

1) Malveiro, Jose P. GARVÃO Herança Histórica. Beja, 2003,  Gráfica amdbeja –    http://garvao.blogs.sapo.pt/jose-julio-da-costa-6884

2) Francisco Piçarra, em artigo escrito no Diário do Alentejo, de 18 de Novembro de 2011 –  http://www.cincotons.com/2011/11/greve-geral-de-18111918-em-vale-de.html

3) Malveiro, Jose P. GARVÃO Herança Histórica. Beja, 2003,  Gráfica amdbeja –    http://garvao.blogs.sapo.pt/jose-julio-da-costa-6884

4) http://estoriasdahistoria12.blogspot.pt/2016/12/14-de-dezembro-de-1918-sidonio-pais.html

5) Malveiro, Jose P. GARVÃO Herança Histórica. Beja, 2003,  Gráfica amdbeja –    http://garvao.blogs.sapo.pt/jose-julio-da-costa-6884

6) Malveiro, Jose P. GARVÃO Herança Histórica. Beja, 2003,  Gráfica amdbeja –    http://garvao.blogs.sapo.pt/jose-julio-da-costa-6884

 

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