(Equador) Apelo à solidariedade com o Povo Shuar na luta contra a indústria extractivista 


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A carta que publicamos em seguida foi enviada ao meios libertários e alternativos de todo o mundo por uma companheira que vive numa comunidade indígena na selva amazónica equatoriana e em que apela à solidariedade urgente contra o extractivismo que continua a ser a actividade dominante de vários regimes da América Latina, ocupando as terras das comunidades indígenas e reduzindo-as à aculturação e à miséria.  Esta nossa companheira – que prefere não ser identificada devido à possibilidade de represálias – é socióloga, antropóloga e libertária. Em várias ocasiões já serviu de negociadora entre os povos Shuar e Huaurani e o governo equatoriano de Rafael Correa.  Hoje, como sempre, o anarquismo é o grande aliado dos povos indígenas e o movimento libertário internacional a quase única garantia de que a sua voz é ouvida. Partilhamos esta carta, solidarizando-nos com o Povo Shuar e exigindo que a sua identidade e as suas terras sejam integralmente respeitadas e convidamos todos os libertários a somarem a sua voz à nossa na denúncia dos novos (?) regimes latino-americanos cujo programa parece não ser mais do que o extermínio dos povos indígenas que se oponham ao modelo extractivista.

Versão em Castelhano (aqui)

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Queridos amigos e companheiros:

Esta carta não é uma análise política ou técnica, é para lhes contar o terrível e doloroso momento que estão a viver as famílias Shuar da Cordilheira de El Condór, na Província de Morona Santiago, que foram desalojadas à força por militares e policias da comunidade de Nankims, uma pequena comunidade que se encontra às portas do projecto Mineiro San Carlos de Panantza, o maior dos projectos mineiros de ouro e cobre a céu aberto do nosso país e talvez da América Latina.

Os Shuar da Cordilheira de El Condór organizaram o seu território de 220,000 hectares a partir do ano 2000, ou seja, já levam 17 anos de luta pela organização das suas famílias, para proteger amorosamente o seu território e cuidar da sua “Casa Comum”, cuidar dos seus recursos e do seu bosque, das suas crianças… há anos tomaram uma decisão, reflectida em reuniões, expectativas e assembleias, de deixar mais de 40 por cento do seu território em reserva estrita para que as suas fontes de alimentos, água, oxigénio e recursos biológicos não se extingam, riqueza que faz parte do nosso Equador.

Como é possível que um governo democrático como o actual não respeite o direito à autodeterminação, à decisão frontal e consistente de um povo indígena, decidida em centenas de reuniões e assembleias ao longo de 17 anos??

Este não é o caso de muitas comunidades que iniciam as negociações dizendo não à exploração, mas no fundo é uma forma de negociação, que deve ser respeitada.

O que se passa com o Povo Shuar Arutam é que durante anos debateram internamente e com diferentes actores delegados das empresas mineiras o tema da exploração mineira no seu território, e em várias ocasiões se lhes foi apresentadas as vantagens de emprego, indemnizações, ou outros benefícios que a actividade mineira poderia trazer, mas as famílias, homens e mulheres, jovens e velhos, optaram por não permitir a exploração mineira, num processo de tomada de decisões ponderada até ao cansaço e durante anos e anos.

Há poucas semanas foram desalojados pelo exército e pela polícia, após o que as famílias se organizaram e ocuparam de novo a comunidade de Nankims, sendo em seguida desalojados ainda com mais violência, e hoje existem presos, perseguidos e ameaçados. Vocês podem ver o que se passou em reportagens que foram realizadas pelos meios alternativos, já que os meios do sistema nunca as vão difundir.

Os nossos amigos Shuar da Cordilheira de  El Condór viveram em anos anteriores a inútil guerra com o Perú, as suas famílias ficaram divididas e afectadas por estas agressões directas.

Sofreram e a sua força como Povo Shuar ressurgiu uma e mil vezes ante as dificuldades com que se deparam com estas pressões externas.

Foi dito por este governo que a exploração de recursos não renováveis como o petróleo e a actividade mineira ia ajudar a mudar a vida dos povos indígenas directamente afectados, mas eu tenho estado todos estes anos na Amazónia e posso dizer que melhoraram as estradas, os centros de saúde, e mais nada, pois inclusivamente a educação das grandes escolas  do milénio é totalmente agressiva e inadequada.

Estou a escrever-lhes, amigos e companheiros, independentemente do lugar que ocupem na sociedade civil, escrevo-lhes apelando à vossa sensibilidade e carinho pelo nosso País e pelos territórios amazónicos e indígenas, escrevo-lhes para ver se podemos fazer algo, para que esta notícia seja conhecida e que se difunda para nos somarmos à resistência e à luta que possa parar esta ofensiva decoradora de recursos, tão inúteis nos tempos que correm.

Se um povo se quiser aventurar em novos projectos estratégicos, e se toma decisões com base em todos os factores, a sua decisão devc ser respeitada, mas se um povo durante 17 anos mantêm firme a sua decisão de não permitir a actividade mineira no seu território há que respeitá-lo da mesma forma.

Dou-lhes conhecimento e alerto-os, esperando que os amigos que ainda continuam a colaborar com o governo nos ajudem a promover um diálogo que seja capaz de parar a violência que desabou sobre eles, porque eles estão decididos a morrer em defesa do seu território e que, portanto, pode haver mortos de um e de outro lado, e o presidente Correa deve saber que isto seria lamentável exactamente quando está a acabar o seu mandato no governo.

Não fiquemos de braços cruzados, este é um apelo à sensibilidade de todos e de todas.

Um abraço

(companheira identificada)

Relacionado:

http://racismoambiental.net.br/2015/03/25/ecuador-megadistrito-minero-en-cordillera-del-condor-significaria-etnocidio-para-pueblo-shuar/

http://www.conflictosmineros.net/noticias/12-ecuador/17519-situacion-del-pueblo-shuar-del-ecuador-expuesta-ante-el-alto-comisionado-de-naciones-unidas

http://latinta.com.ar/2016/12/ecuador-pueblo-shuar-expulsa-a-minera-china-y-recupera-territorio-en-nankints/

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