(solidariedade) Uma carta da escritora Aslı Erdoğan presa na Turquia


n_103227_1

Aslı Erdoğan é uma escritora e jornalista turca que está presa desde o passado mês de Agosto sob a acusação de apoiar “organizações terroristas”, nomeadamente pelo seu apoio ao povo curdo. Em 2014, para denunciar a tomada de Kobane pelo Estado Islâmico, Aslı Erdoğan organizou uma marcha de escritores à fronteira entre a Turquia e a Síria. A sua prisão tem tido eco em vários países, nomeadamente em França, onde estudou há alguns anos atrás. Esta solidariedade ganha maior expressão agora, quando se aproxima a data para o seu julgamento, marcado para 29 de Dezembro. A carta que agora publicamos foi enviada há alguns dias ao jornal libertário franco-turco Kedistan, que tem sido um dos grandes veículos na denúncia das arbitrariedades levadas a cabo pelas autoridades turcas, violando todos os direitos humanos, sejam eles individuais ou colectivos, desde a alegada tentativa de golpe de estado falhado, em Julho deste ano.

*

asli-lettre-journalistes-5-decembre-2016-kedistan

5/12/2016

Caros amigos, colegas

Esta carta é escrita a partir da prisão para mulheres de Bakırköy,  que é qualquer coisa entre um asilo de loucos e uma velha leprosaria. Neste momento, um grupo de “jornalistas”, que se calcula entre 150 e 200, está preso na Turquia, e eu sou um(a) entre eles.

Sou uma escritora, unicamente uma escritora, autora de oito livros traduzidos em várias línguas, incluindo o francês. Desde 1998, trabalho como cronista e tento combinar a literatura e o jornalismo nas minhas crónicas. Os últimos Prémios Nobel são um sinal de que os “limites rígidos” da literatura estão a ser, com justiça, postos em causa.

Fui presa pelo facto, ou sobretudo com o pretexto, de ser um(a) dos conselheiros de Özgür Gündem, o alegado “jornal curdo”. Ainda que as leis que regem o jornalismo não atribuem qualquer responsabilidade aos conselheiros dum jornal, e que nenhum, entre as centenas de processos levantados contra jornais, tenha incluído estes simbólicos “conselheiros”. Seis destes conselheiros foram acusados de terrorismo: Necmiye Alpay, linguista e activista pela paz, Bilge Cantepe, fundadora do Partido Verde, Ragıp Zarakolu, editor e candidato ao Pémio Nobel da Paz, Ayhan Bilgen, parlamentar, Filiz Koçali, jornalista feminista.

Na verdade, entre estes 150 “jornalistas” há vários escritores, universitários, críticos literários, mas estão presos pela sua actividade jornalística.

A situação da imprensa é alarmante. Em apenas 4 meses cerca de 200 jornais, agências de notícias, rádios e cadeias de televisão foram fechadas por ordem do governo. Uma “punição colectiva” foi também aplicada ao jornal Cumhuriyet, o mais antigo jornal da Turquia. Bastião da social-democracia. Como aconteceu com Özgür Gündem, todos os nomes apresentados como conselheiros e editores foram presos por serem próximos de organizações terroristas, entre eles o editor de cultura e um caricaturista!

O jornal Cumhuriyet publicou, sem precisar de grande coragem, notícias sobre as relações entre a Turquia e o ISIS (Daesh) e protestou energicamente contra os ataques de fanáticos contra o Charlie Hebdo. Numerosos jornalistas, incluindo-me a mim, foram perseguidos pela sua solidariedade com o Charlie Hebdo, sendo mesmo alguns condenados a penas de prisão.

Nós necessitamos do vosso apoio, da vossa sensibilidade e da vossa solidariedade. PEN, que está na base de uma organização para a defesa dos escritores, bate-se activamente pela liberdade dos jornalistas.

Quando a liberdade de pensamento e de expressão está em perigo, não pode haver discriminação (ndlt:entre escritores e jornalistas).

 “Liberdade, Igualdade, Fraternidade” são conceitos que devemos à Revolução Francesa! Os mais de dois séculos que já passaram deram sentido e uma realidade a estes conceitos, moldados por séculos de reflexão, de pensamentos e de criação literária, e enquanto resultado de séculos de trabalho, luta, guerra e sangue…Estes conceitos devem ser universais, quer na teoria como na prática, para todos, sem excepção.

O meu sentimento é que a recente crise na Europa, desencadeada pelos refugiados e pelos ataques terroristas, não é apenas política e económica. É uma crise existencial que a Europa não poderá resolver se abandonar à sua sorte as nações que a compõem.

Numerosos sinais revelam que as democracias liberais europeias já não se podem sentir em segurança dado o incêndio alastrar tão perto de si. A “crise democrática” turca, que durante muito tempo foi subestimada ou ignorada, por razões pragmáticas, este risco crescente de uma ditadura islamista e militar, terá graves consequências. Ninguém pode dar-se ao luxo de ignorar a situação, e sobretudo nós, jornalistas, escritores, académicos, que devemos a nossa própria existência à liberdade de pensamento e de expressão.

Muito obrigado

Sinceramente

Aslı Erdoğan

Prisão de Bakırköy C-9

(tradução Portal Anarquista)

Aqui: http://www.kedistan.net/category/eclairages/dossier-special-asli-erdogan/

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s