(José Estevão) “O anarquismo terá que ter futuro”


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José Estevão é um anarquista português, a viver há mais de quatro décadas na Holanda, país onde se refugiou como refractário à guerra colonial. Alentejano, natural da vila mineira de Aljustrel, tem uma actividade militante quotidiana em Amesterdão – actualmente tem estado muito activo no apoio aos refugiados –, mas visita regularmente Portugal, tendo participado no Encontro Libertário de Évora, realizado em Maio passado. Recentemente foi entrevistado por companheiros chilenos (da Federação Anarquista Local de Valdivia) , uma entrevista que traduzimos agora para português.

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Aquando do Congresso da Internacional de Federações Anarquistas tive a oportunidade de viajar a Amesterdão e ser afectuosamente recebido pelos companheiros da Okupa BinnenPret (que em holandês significa “lindo por dentro”), lugar onde fiz uma entrevista ao destacado e veterano lutador acrata José Estevão, actualmente membro do Grupo Anarco-sindicalista de Amesterdão (ASB)

Como é que chegaste às ideias anarquistas?

Bom, há muitos, muitos anos. Nos meus tempos de estudante entrei em contacto, na cidade em que estudava, Évora (Portugal), com companheiros que estavam ligados um pouco ao surrealismo, à arte, e tinham alguma influência de um surrealista português com quem mantinham contactos e tradições libertárias. E, por outra parte, devido à influência também dos franceses, dos anarquistas franceses, que tinham muita ligação com o movimento surrealista, e essa foi uma das bases do meu anarquismo. Por outro lado, outra base vem da minha terra, no sul de Portugal, uma vila mineira que tem uma tradição muito grande de sindicalismo revolucionário, de anarco-sindicalismo. Essa tradição perdeu-se um pouco com o fascismo, mas sempre ouvi as pessoas falarem sobre isso e sempre soube que tinha tido influência na minha terra, e essa é a fonte do meu anarquismo. Depois, tudo se ampliou quando vim para a Holanda como refugiado político, tive muitos contactos com refugiados espanhóis que aqui estavam desde 1939, e com essas pessoas formei-me ainda mais como anarquista e, naturalmente, com o movimento anarquista na Holanda que é muito pequeno, mas que sempre existiu como aqui em Amesterdão com um grupo específico anarquista e anarco-sindicalista.

Em que ano tiveste que emigrar e porquê?

Já te expliquei um pouco, vim como refugiado político, porque havia, na altura, uma ditadura fascista em Portugal, vim em princípios dos anos 70 por razões políticas porque lá as coisas estavam muito más, mas também por razões culturais já que estava ligado ao movimento surrealista que é, basicamente, um movimento libertário. E outra razão muito importante e muito concreta, que também me fez sentir muito mal, eram as guerras que os portugueses tinham nas colónias portuguesas de Angola, Moçambique e Guiné, bom, estava a fazer guerra contra todos e a dizer que defendia o que era seu. Eu tinha-me recusado a ir à guerra e, como objector de consciência, tive que sair do país, e como eu muitos companheiros foram, sobretudo, para França, Holanda e Suécia  e essa é a razão porque vim para cá. Depois de ter vindo, deu-se em 1974 a revolução dos cravos, eu ainda regressei a Portugal, e não fiquei lá porque nessa altura já tinha nascido o meu primeiro filho pelo que fiquei aqui, mas viajo sempre para lá por largos períodos, embora voltando sempre.

E, como alguém que sempre esteve ligado aos anarquismo na Holanda desde os anos 70, quais são as tuas referências?

Repara, na Holanda há um movimento libertário grande. Não é um movimento organizado, mas na Holanda e em Amesterdão a cultura dos jovens sempre foi muito aberta e obviamente há nela uma tendência que olha com simpatia para as nossas ideias. Amesterdão é um sítio onde acontecem muitas coisas e, como te disse. não é um local muito organizado, existia uma tendência sindicalista, em que os companheiros anarquistas estavam num sindicato que não era especificamente anarquista, mas estavam ali e havia anarco-sindicalistas. E sempre houve um movimento antimilitarista muito grande e forte, parte duma tradição do anarquismo aqui na Holanda lado a lado com vivências alternativas e, naturalmente, havia um movimento sindical bastante forte.  Nos anos 70 havia um movimento grande e aberto, ocupou-se muito nesses anos, a lei permitia-o e as pessoas ocupavam e havia ocupações enormes, porque a cidade tinha uma zona velha em decadência e os jovens ocupavam, muitos estudantes. Isso também foi bom para as ideias libertárias e, logo ali, muitas pessoas consciencializaram-se e formaram grupos anarquistas e libertários. Eu sempre pertenci a um grupo específico em Amesterdão, nunca existiram muitos grupos, são um pouco raros, mas sempre pensei que é necessário descentralizar e federar, embora as pessoas queiram permanecer muito juntas. Também no movimento estudantil, com movimentos de repercussão internacional muito importantes, como os Provo, os cabbaters, que são meio situacionistas, são movimentos muito interessantes, muito bem documentados, existem filmes sobre eles, e isso foi muito o clima que se viveu por cá. Agora as coisas mudaram.

Relativamente a isso, como vês o futuro do anarquismo na Holanda e na Europa em geral?

É impossível responder. Mas eu sou optimista, nós como libertários temos uma visão do futuro, temos que ser optimistas e creio que aqui existem possibilidades. Aqui, neste momento, existem duas organizações: a Crije Bond, com 150 pessoas e o AAA, com 30 pessoas e que actualmente é muito pequena. Estamos a fazer um trabalho muito difícil, mas creio que há a possibilidade de poder surgir, no movimento okupa, por exemplo, e pela influência das nossas ideias, embora não se possa dizer que vá ser um movimento controlado por nós, pode surgir um movimento mais próximo de nós, e temos que continuar a lutar por isso. Tal como o apoio aos refugiados, que é uma luta que se está travando também e que passa por manter espaços como este, que é o mais importante de Amesterdão, e para nós o anarquismo tem que ter uma base anticapitalista e antiestatal, de maneira que temos que dar um conteúdo concreto a isso, e é nisto que trabalhamos, nos organizamos e estudamos e onde vivemos, tudo isso é um espaço comum (tu poderás explicar melhor aos companheiros onde é que estamos). Este é um lugar que serve muito para isso, serve de exemplo, mas fecha-nos muito dentro dele. Mas, na verdade, o anarquismo ainda tem muito que fazer para se implantar nos bairros e tudo isso, há um trabalho que é preciso ser feito, mas que não se está a fazer, as pessoas continuam muito nos seus espaços, nas ocupações e nos espaços politico-culturais como este. Creio muitas vezes que existe uma possibilidade porque o capitalismo nos asfixia, pelo que é preciso fazer avançar as coisas, e eu estou consciente disso e tento fazer o possível, e acho que o anarquismo terá que ter futuro.

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