(1917-2017) Nos 100 anos da Revolução Russa


20

Os anarquistas e anarcosindicalistas russos estiveram entre os militantes mais activos em todo o processo revolucionário russo, mas também foram aqueles que mais depressa denunciaram e combateram o controlo exercido pelo partido bolchevique sobre os sovietes, a militarização da economia e o despotismo de um pequeno núcleo de dirigentes sobre a imensa maioria do povo, gerando, logo desde o início, práticas ditatoriais e não democráticas que transformaram a União Soviética na tumba do socialismo autoritário. As críticas a estes métodos autoritários, próprios do marxismo e acentuados pelo leninismo e pelo partido único, já tinham sido feitas por vários anarquistas, entre os quais Bakunine, e foram retomados no terreno por muitos outros. Entre estes, desde logo, Emma Goldman, de origem lituana, mas que tendo emigrado muito jovem para os Estados Unidos voltou à Rússia depois da revolução. Serviu de intermediária entre o governo do Partido Bolchevique e os marinheiros insurrectos de Kronstadt e foram dela as primeiras críticas e denúncias face ao terror bolchevique sobre os trabalhadores e à deriva da Revolução que tantos sonhos tinha gerado. Nas próximas semanas iremos publicando – aqui no Portal Anarquista – textos sobre a Revolução Russa e a sua degenerescência, de forma a provocar o debate em torno deste acontecimento que, 100 anos depois, permanece ainda submerso na mitologia e na mentira construída por aqueles que em nome da “ditadura do proletariado” ergueram sobre os trabalhadores russos e dos países limítrofes uma das mais ferozes ditaduras do século XX.

revolucao-russa

As causas do fracasso da revolução russa

Emma Goldman

Ficam agora bem claros os motivos que fizeram com que a Revolução Russa, tal como foi conduzida pelo Partido Comunista, fosse um fracasso. O poder político do partido, organizado e centralizado no Estado, procurou manter-se utilizando todos os meios de que dispunha. As autoridades centrais tentaram fazer com que o povo agisse de acordo com modelos que correspondiam aos propósitos do Partido, cujo único objetivo era fortalecer o Estado e monopolizar todas as atividades econômicas, políticas e sociais e até mesmo as manifestações culturais. A Revolução tinha objetivos totalmente diferentes pelas suas próprias características, era a negação do princípio da Autoridade e da centralização. Ela lutava para alargar ainda mais os meios de expressão do proletariado e multiplicar as fases do esforço individual e coletivo. Os objetivos e as tendências da Revolução eram diametralmente opostos àqueles do Partido Governante.

Igualmente opostos eram os métodos da Revolução e do Estado. Os da primeira eram inspirados pelo espírito da Revolução, ou seja, libertar-se de todas as forças de opressão e todos os limites – eram, em resumo, princípios de livre-arbítrio. Os métodos do Estado, pelo contrário – tanto do Estado Bolchevique quanto de todo o Governo baseavam-se na coação, que com o decorrer do tempo transformou-se, necessariamente, em violência sistemática, tirania e terrorismo. Desse modo, duas tendências opostas lutavam pela supremacia: o Estado Bolchevique contra a Revolução. Essa era uma luta de vida e morte: as duas tendências, contraditórias tanto nos seus objetivos quanto nos métodos que utilizavam, não conseguiam agir harmoniosamente: o triunfo do Estado significava a derrota da Revolução.

Seria um erro presumir que o fracasso da Revolução deveu-se inteiramente ao caráter dos bolcheviques. Basicamente, esse fracasso foi uma conseqüência dos princípios e métodos do bolchevismo. Eram os princípios e o espírito autoritários do Estado sufocando as aspirações libertárias e liberalizantes. Fosse qual fosse o partido que estivesse no controle do governo da Rússia, os resultados teriam sido essencialmente os mesmos.

Não foram tanto os bolcheviques que acabaram com a Revolução Russa quanto a idéia Bolchevique. Era uma idéia marxista, embora modificada. Era, em resumo, um governismo fanático. A Revolução Russa é um reflexo, em pequena escala, da luta de séculos entre o princípio do livre-arbítrio e o autoritarismo. Pois o que é o progresso senão uma aceitação mais ampla do princípio da liberdade contra aquele da coação? A Revolução Russa foi um passo em direção à liberdade, frustrado pelo Partido Bolchevique, pela vitória temporária de reacionários conceitos governistas…

O princípio do livre-arbítrio era forte nos primeiros dias da Revolução, a necessidade de expressar-se livremente absorvia tudo. Mas quando a primeira onda de entusiasmo recuou na maré baixa da vida cotidiana e prosaica, era preciso que houvesse uma convicção muito firme para que o fogo permanecesse aceso. Havia apenas um punhado de gente em toda a vastidão da Rússia capaz de manter aquela chama viva – os Anarquistas, uma minoria cujos esforços, totalmente suprimidos sob o governo do Czar, ainda não tinham tido tempo de dar frutos. O povo russo, até certo ponto anarquista por instinto, conhecia ainda muito pouco os verdadeiros princípios e métodos do livre-arbítrio para aplicá-los na vida diária. A maioria dos anarquistas russos ainda estava, infelizmente, enredada nas malhas de atividades de pequenos grupos e de tentativas individuais contra os esforços coletivos bem mais importantes e eficazes…

Mas o fracasso dos Anarquistas na Revolução Russa – no sentido a que acabamos de aludir – não prova a derrota do conceito de livre-arbítrio. Ao contrário, a Revolução Russa demonstrou, além de qualquer dúvida, que a idéia do Estado, de Estado Socialista em todas as suas manifestações (econômicas, políticas, sociais e educacionais) está inteira e completamente falida. Nunca antes, em toda a História, a Autoridade, o Governo e o Estado demonstraram ser tão inerentemente estáticos, reacionários e até mesmo contra-revolucionários em seus efeitos, em resumo: a própria antítese da Revolução.

Permanece uma verdade hoje, como ocorreu durante todo o processo, que somente o espírito e os métodos do livre-arbítrio podem fazer com que o homem dê mais um passo na sua eterna busca por uma vida melhor, mais bela e mais livre… Não obstante todas as doutrinas e partidos políticos, nenhuma revolução pode ser verdadeira e permanentemente bem sucedida se não rejeitar enfaticamente todas as formas de tirania e centralização e lutar com determinação para provocar uma verdadeira reavaliação de todos os valores econômicos, sociais e culturais. Não a simples substituição de um partido político por outro ao controle do Governo, não a autocracia mascarada por slogans proletários, não qualquer tipo de mudança no cenário político, mas a completa e total reversão de todos os princípios autoritários, No campo econômico, a transformação deve ficar nas mãos das massas industriais: estas podem escolher entre um Estado Industrial e o anarco-sindicalismo. Se a escolha recair sobre o primeiro, a ameaça ao desenvolvimento construtivo da nova estrutura social será tão grande quanto aquela representada pelo Estado Político. O Estado Industrial acabaria por se transformar num peso morto, impedindo o aparecimento de outras formas de vida. Por esta mesma razão, o sindicalismo (ou industrialismo) por si só não é, como alegam seus representantes, suficiente. Apenas quando o espírito do livre-arbítrio se integrar às organizações econômicas dos trabalhadores é que as ilimitadas energias criativas do povo conseguirão se manifestar e a revolução poderá ser salvaguardada e defendida. Só a livre iniciativa e a Participação popular nos assuntos da revolução poderão evitar que se repitam os terríveis erros cometidos na Rússia. As reservas de combustível de Petersburgo, por exemplo: como elas ficam a apenas cem verstas de Petrogrado, a cidade não teria porque passar frio desde que a organização econômica dos operários que lá vivem tivesse liberdade para exercer a livre iniciativa em prol do bem comum. Se tivessem acesso aos instrumentos agrícolas empilhados nos depósitos de Kraviá e outros centros industriais aguardando ordens de Moscou para que pudessem ser distribuídos, os camponeses da Ucrânia não teriam sido impedidos de cultivar a terra que lhes pertencia. Esses são exemplos característicos da centralização do governo bolchevique que deveriam servir de advertência aos trabalhadores da Europa e da América quanto aos efeitos destruidores do Poder do Estado.

O Poder industrial das massas, expresso através de suas associações libertárias e do socialismo anárquico – é o único capaz de organizar com sucesso a vida econômica e levar adiante a produção, por outro lado, as cooperativas, trabalhando em harmonia com as organizações industriais, servem como um meio de distribuição e troca entre a cidade e o campo e, ao mesmo tempo, ligam por laços fraternais as massas industriais e agrícolas. Cria-se um laço comum de serviço e auxílio que se constitui no mais forte sustentáculo da revolução – muito mais eficaz do que o trabalho obrigatório, o Exército Vermelho ou o terrorismo. Só assim a revolução poderá agir como um fermento, apressando o desenvolvimento de novas formas sociais e inspirar as massas para que busquem maiores realizações.

Mas as organizações industriais partidárias do livre-arbítrio e as cooperativas não são o único meio de ação recíproca das complexas fases da vida social. Há também as forças culturais que, embora mantenham estreitos vínculos com as atividades econômicas, têm ainda funções próprias a desempenhar. Na Rússia, isso se tornou quase impossível desde o início da Revolução de Outubro pela violenta separação entre a intelligentsia e as massas. É verdade que no caso da Rússia, quem primeiro errou foi a classe intelectual que – tal como acontece em outros países – agarrou-se tenazmente aos fraques da burguesia. Esses elementos, incapazes de compreender o significado dos atos revolucionários, tentavam deter a maré com a sabotagem em grande escala. Mas havia na Rússia um outro tipo de intelligentsia que tinha atrás de si cem anos de glorioso passado revolucionário e que, embora não pudesse aceitar sem reservas a nova ditadura, mantinha a fé no povo. O erro fatal dos bolcheviques foi que não fizeram distinção entre esses dois tipos de intelligentsia: enfrentaram a sabotagem com o terror indiscriminado contra a classe intelectual como um todo, inaugurando uma campanha de ódio mais intensa do que a perseguição movida à burguesia. Isso fez com que se abrisse um abismo entre os intelectuais e o proletariado e criou uma barreira ao trabalho produtivo.

Lênin foi o primeiro a perceber esse erro criminoso. Ele observou que era um grave erro fazer com que os operários acreditassem que poderiam criar indústrias e ocupar-se com atividades culturais sem a cooperação da classe intelectual. O Proletariado não tinha nem conhecimento nem o preparo necessários para a tarefa e, assim, foi preciso reintegrar os intelectuais à direção da vida industrial. Mas o reconhecimento de um erro não impediu que Lênin e seu partido imediatamente cometessem outro. Os técnicos de nível superior foram chamados de volta em termos que acrescentaram a desintegração ao antagonismo contra o regime. Enquanto os operários continuavam morrendo de fome, os engenheiros e técnicos recebiam altos salários, privilégios especiais e as melhores rações. Eles logo se tornaram os funcionários mimados do Estado e os novos feitores das massas. Estes, alimentados durante anos pelos falaciosos ensinamentos de que para fazer uma revolução bem sucedida são necessários apenas músculos e que só o trabalho físico é Produtivo e influenciados pela campanha de ódio que classificava cada intelectual como um contra-revolucionário e um especulador, não podiam aceitar aqueles aos quais tinham sido ensinados a odiar, desconfiar e escarnecer.

Infelizmente a Rússia, não é o único país onde essa atitude da classe proletária contra os intelectuais predomina. Em toda a parte, os políticos demagogos jogam com a ignorância das massas, ensinando-lhes que educação e cultura são preconceitos burgueses, que os trabalhadores podem passar sem eles e que só os operários são capazes de reconstruir a sociedade.

A Revolução Russa tornou muito claro que tanto músculos quanto cérebros são indispensáveis para a tarefa de reconstrução social. Há uma interdependência tão grande entre o trabalho intelectual e físico no organismo social quanto entre o cérebro e a mão no organismo humano. Um não pode funcionar sem-o outro…

Nas páginas anteriores, tentei demonstrar porque os princípios, métodos e táticas bolcheviques fracassaram e porque princípios e métodos semelhantes, aplicados em outros países, mesmo em países altamente desenvolvidos, também devem fracassar. Mostrei ainda que não foi apenas o bolchevismo que fracassou, mas o próprio Marxismo. A experiência da Revolução Russa provou que o CONCEITO DE ESTADO e o princípio da Autoridade estavam falidos. Se tivesse de resumir meu ponto de vista numa só frase, eu diria que a tendência do Estado é concentrar, limitar e monopolizar todas as atividades sociais; a natureza da Revolução é, ao contrário, crescer, alargar, espalhar-se em círculos cada vez maiores. Em outras palavras, o Estado é institucional e estático; a revolução é fluente, dinâmica. Essas duas tendências são incompatíveis e mutuamente destrutivas. O conceito de Estado acabou com a Revolução Russa e deve ter provocado os mesmos resultados em todas as outras revoluções, a menos que o espírito libertário prevaleça.

Entretanto, é preciso que eu vá além. Não apenas o Bolchevismo, o Marxismo e o Governamentalismo são fatais tanto à revolução quanto a todo o Progresso humano. A verdadeira causa do fracasso da Revolução Russa é bem mais profunda e pode ser encontrada na própria concepção socialista da revolução.

A idéia dominante e quase geral sobre a revolução, especialmente o conceito socialista, é a de que a revolução é uma mudança violenta das condições existentes, através da qual uma classe social – a classe operária – passa a dominar outra classe, a classe capitalista. Esse é um conceito de mudança puramente físico e como tal implica apenas transformações no cenário político e novas formas institucionais. A ditadura da burguesia é substituída pela ditadura do proletariado – ou pela ditadura de sua guarda avançada, o Partido Comunista; Lênin toma o lugar dos Romanov, o Gabinete Imperial é rebatizado, passando a ser chamado de Soviete dos Comissários do Povo, Trotski é nomeado Ministro da Guerra e um operário torna-se Governador Geral Militar de Moscou. Essa é, em resumo, a tradução na prática da teoria Bolchevique de revolução. E, com algumas pequenas alterações, é também o conceito de revolução de todos os outros partidos socialistas.

Essa concepção é inerente e fatalmente falsa. A revolução é, na verdade, um processo violento. Mas se a única conseqüência fosse uma mudança de ditadura, uma troca de nomes e personalidades políticas, nem valeria a pena fazê-la. Pois certamente esta mudança não mereceria tanta luta e sacrifício, a perda de milhares de vidas humanas e valores culturais, conseqüência inevitável de todas as revoluções. Se uma tal revolução chegasse algum dia a trazer o bem estar social (o que não aconteceu na Rússia), nem assim valeria o preço terrível que se deve pagar por ela: uma simples melhora nas condições existentes pode ser obtida sem que seja necessário fazer uma revolução sangrenta. Os verdadeiros objetivos e propósitos da revolução, tal como eu os vejo, não são meramente paliativos ou superficiais.

Na minha opinião – mil vezes reforçada pela experiência russa – a grande missão da revolução, da REVOLUÇÃO SOCIAL, é uma transposição fundamental de valores. Uma transposição não apenas dos valores sociais mas dos valores humanos, estes até mais importantes, já que são a base de todos os outros. Nossas instituições e as condições em que vivemos estão fundadas em idéias profundamente enraizadas. Mudar essas condições, deixando ao mesmo tempo intactas as idéias e valores subjacentes, significa que houve apenas transformações superficiais que não poderiam ser permanentes nem trariam qualquer melhora real. E que seriam apenas mudanças de forma, não de substância, como ficou tragicamente provado na Rússia.

E o grande fracasso e tragédia da Revolução Russa é que ela tentou mudar (sob a liderança do partido político do governo) não apenas as instituições e as condições de vida, enquanto que, ao mesmo tempo, ignorava totalmente os valores sociais e humanos envolvidos na Revolução. Pior ainda, na sua louca ambição pelo poder, o Estado Comunista procurou até reforçar e aprofundar as próprias formas que a Revolução tinha se proposto destruir. Apoiou e estimulou as piores características anti-sociais e destruiu de forma sistemática a idéia já despertada dos novos valores revolucionários. O sentido de justiça e igualdade, o amor pela liberdade e pela fraternidade humana – bases da verdadeira regeneração da sociedade -, tudo isso o Estado Comunista sufocou até acabar com eles. O senso instintivo de justiça foi chamado de sentimentalismo; A dignidade e a liberdade humanas transformaram-se numa superstição da burguesia; o sentido do valor sagrado da vida, que é a própria essência da reconstrução social, foi condenado como anti-revolucionário, quase contra-revolucionário. Essa atemorizante perversão de valores fundamentais trazia dentro de si a semente da destruição. Com a idéia de que a Revolução era apenas um meio de obter o poder político, era inevitável que os valores revolucionários ficassem subordinados às necessidades do Estado Socialista; que fossem, na verdade, explorados para aumentar a segurança do recém-adquirido poder governamental. ?Razões de Estado? mascarados de interesses da ?revolução e do povo? tornaram-se o único critério da ação e até mesmo do sentimento. A violência, a trágica inevitabilidade dos levantes revolucionários, tornou-se um costume estabelecido, um hábito que foi finalmente entronizado como a instituição mais poderosa e ideal. Pois não foi o próprio Zinoviev quem canonizou Dzerzhinsky, o líder da sangrenta Tcheca, como ?Santo da Revolução” ? O Estado não dedicou as maiores honrarias públicas a Uritsky, o fundador e sádico chefe da Tcheca de Petrogrado ?

Essa perversão dos valores éticos cedo se cristalizou no lema dominante do Partido Comunista: os fins justificam os meios. Da mesma forma, no passado, a inquisição e os Jesuítas adotaram esse lema e subordinaram a ele toda a moral. E ele se vingou dos jesuítas, da mesma forma como se vingou da Revolução Russa. No rastro deste lema vieram a mentira, a falsidade, a hipocrisia, a traição, o crime às claras ou em segredo. Deveria ser do maior interesse para os estudantes de psicologia social o fato de que dois movimentos tão distantes no tempo e nas idéias quanto o bolchevismo e o jesuitismo atingiram resultados exatamente semelhantes na evolução do princípio de que os fins justificam os meios. Este paralelismo histórico, quase totalmente ignorado até agora, contém uma lição importantíssima, não só para todas as revoluções futuras, como para o futuro da própria humanidade. Não há maior falácia, do que a crença de que objetivos e propósitos são uma coisa e métodos e táticas, outra. Essa concepção é uma poderosa ameaça à regeneração social. Toda a experiência humana ensina que métodos e meios não podem ser separados do objetivo principal. Os meios empregados acabaram por se tornar, através dos hábitos individuais e da prática social, parte e parcela do objetivo final; eles exercem sua influência sobre ele, modificam-no até que objetivos e meios se tornam uma coisa só. Desde o dia da minha chegada na Rússia eu senti isso, a princípio vagamente, depois com clareza cada vez maior. Os grandes e elevados objetivos da Revolução tomaram-se tão enevoados e obscurecidos pelos métodos utilizados pelo poder político para atingi-los, que é difícil distinguir entre os meios temporários e o propósito final.
Psicológica e socialmente, os meios irão necessariamente influenciar e alterar os fins. Toda a história do homem é uma prova contínua da máxima de que retirar os conceitos éticos dos métodos utilizados significa mergulhar nas profundezas da desmoralização total. É aí que reside a verdadeira tragédia da filosofia bolchevique tal como foi aplicada à Revolução Russa. Que essa lição não tenha sido em vão. Nenhuma revolução pode ser bem sucedida como um fator de liberação, a menos que os meios utilizados para incrementá-la sejam autênticos em espírito e tendência aos propósitos a serem atingidos.

A Revolução é a negação de tudo o que existe, um violento protesto contra a desumanidade do homem para com o homem, com as mil formas de escravidão que daí resultam. É o agente que se propõe a destruir os valores dominantes sobre os quais um sistema complexo de injustiça, opressão e maldade foi construído pela ignorância e a brutalidade. É o arauto dos NOVOS VALORES, anunciando uma transformação nas relações básicas dos homens entre si e entre estes e a sociedade. Não é um simples reformador que vem consertar alguns erros sociais, não é um mero transformador de formas e instituições; não é apenas um redistribuidor de bem-estar social. É, em primeiro lugar, o que traz novos valores. E a grande mestra da nova ética, é quem inspira no homem um novo conceito de vida e suas manifestações nas relações sociais. É um regenerador mental e espiritual. Seu primeiro preceito ético é a identidade entre meios utilizados e objetivos propostos. O principal objetivo de todas as mudanças sociais revolucionárias é estabelecer o sagrado valor da vida humana, da dignidade do homem, o direito que todo o ser humano tem à liberdade e ao bem-estar. A menos que estes sejam os objetivos essenciais da revolução, não haveria nada que justificasse as violentas mudanças na sociedade. Pois mudanças sociais de fachada podem ser – e têm sido – obtidas pelos processos normais da evolução. A revolução, ao contrário, significa não apenas mudanças externas, mas transformações internas básicas, fundamentais. Essas transformações de idéias vão penetrando nas camadas sociais cada vez mais simples e culminam finalmente num violento levante conhecido como revolução. Será possível que esse processo possa reverter o processo de transvalorização, voltar-se contra ele, traí-lo? Foi isso o que aconteceu na Rússia. Ao contrário, a própria revolução deve apressar e aprofundar o processo do qual é a expressão cumulativa; sua principal missão é inspirá-la, elevá-la a maiores alturas, dar-lhe um âmbito maior de expressão. Só assim é que a Revolução poderá ser fiel a si mesma. Aplicada na prática, isso significa que o período de revolução real, o assim chamado estágio transitório deve ser a introdução, o prelúdio de uma nova condição social. É a fronteira para uma NOVA VIDA, A NOVA CASA DO HOMEM E DA HUMANIDADE.

Como tal, deve estar em harmonia com o espírito da nova vida, com a construção do novo edifício. Hoje é o pai de amanhã. O presente projeta a sua sombra no futuro. Esta é a lei da vida, tanto da vida individual quanto social. A revolução que se despoja dos valores éticos lança, por esse meio, as bases da injustiça, da falsidade e da opressão para a sociedade do futuro. Os meios utilizados para preparar o futuro transformam-se na pedra angular deste futuro.

Observe as trágicas condições em que se encontra a Rússia. Os métodos de centralização estatal paralisaram a iniciativa e o esforço individual. A tirania da ditadura acovardou o povo, lançando-o numa submissão servil e extinguiu quase totalmente a chama da liberdade; o terrorismo organizado rebaixou e brutalizou as massas, sufocando todo o idealismo, todo o sentido da dignidade do homem e do valor da vida, que foram finalmente eliminados. A coação a cada passo transformou o esforço numa coisa amarga, o trabalho num castigo, tornou todos os aspectos da vida numa trama de enganos mútuos e reavivou os instintos mais baixos e mais brutais do homem. Uma triste herança para começar a vida de liberdade e fraternidade.

Nunca será demais salientar que a revolução terá sido feita em vão, a menos que seja inspirada por um verdadeiro ideal. Os métodos revolucionários devem estar em harmonia com os fins revolucionários. Os meios utilizados para promover a revolução devem estar em harmonia com seus propósitos. Em resumo, é preciso que os valores éticos que a revolução pretende estabelecer na nova sociedade sejam aplicados desde o início das atividades revolucionárias do assim chamado? período de transição?, pois eles só poderão servir como uma verdadeira e segura ponte para a nova vida se forem construídos com os mesmos materiais da vida que se quer alcançar. A revolução é o espelho dos dias futuros…

GOLDMAN, Emma. O fracasso da revolução russa. In WOODCOCK, George (Org). Os Grandes escritos anarquistas. 2. ed. Porto Alegre: L&PM, 1981. p. 140-149

tirado daqui: https://www.facebook.com/redeinfoa/photos/a.552512581524510.1073741828.550092565099845/1168111423297953/?type=3&theater

Advertisements

3 comments

  1. Republicou isto em CoreTruth's space and commented:
    Os anarquistas e anarcosindicalistas russos estiveram entre os militantes mais activos em todo o processo revolucionário russo, mas também foram aqueles que mais depressa denunciaram e combateram o controlo exercido pelo partido bolchevique sobre os sovietes, a militarização da economia e o despotismo de um pequeno núcleo de dirigentes sobre a imensa maioria do povo, gerando, logo desde o início, práticas ditatoriais e não democráticas que transformaram a União Soviética na tumba do socialismo autoritário. As críticas a estes métodos autoritários, próprios do marxismo e acentuados pelo leninismo e pelo partido único, já tinham sido feitas por vários anarquistas, entre os quais Bakunine, e foram retomados no terreno por muitos outros. Entre estes, desde logo, Emma Goldman, de origem lituana, mas que tendo emigrado muito jovem para os Estados Unidos voltou à Rússia depois da revolução. Serviu de intermediária entre o governo do Partido Bolchevique e os marinheiros insurrectos de Kronstadt e foram dela as primeiras críticas e denúncias face ao terror bolchevique sobre os trabalhadores e à deriva da Revolução que tantos sonhos tinha gerado. Nas próximas semanas iremos publicando – aqui no Portal Anarquista – textos sobre a Revolução Russa e a sua degenerescência, de forma a provocar o debate em torno deste acontecimento que, 100 anos depois, permanece ainda submerso na mitologia e na mentira construída por aqueles que em nome da “ditadura do proletariado” ergueram sobre os trabalhadores russos e dos países limítrofes uma das mais ferozes ditaduras do século XX.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s