(opinião) Uma palavra anarquista sobre Mário Soares


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Este texto foi-nos enviado para publicação por um companheiro que assina com um pseudónimo. É um texto (eventualmente polémico) que traça dois momentos em que os libertários e Mário Soares estiveram próximos: no combate contra o fascismo e, mais tarde, no repúdio a quaisquer tentativas de, no pós 25 de Abril de 1974, se regressar a um tempo de limitação da liberdade de associação e de expressão – como foi, por exemplo, a lei de unicidade sindical, destinada a proteger a CGTP como única Central Sindical, na altura já totalmente controlada pelo PCP. (*)

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Passado o ruído e a vozearia dos últimos dias em torno da morte de Mário Soares, julgo ser o momento oportuno para, enquanto anarquistas, contemporâneos da acção política do fundador do PS em grande parte do século XX , deixar alguns parágrafos em sua memória. Sei que esta opinião pode não ser partilhada por alguns libertários, mas traduz com rigor aquilo que muitos de nós pensamos sobre Mário Soares e sobre o seu papel na história e na vida política portuguesas.

Começo, no entanto, por salientar que nós, anarquistas, privilegiamos sempre a vida relativamente à morte e a alegria de viver enquanto espaço de partilha e de humanismo, ainda que não esqueçamos o percurso, as lutas e os caminhos percorridos por cada homem ou mulher no decorrer da sua existência – e são eles que pesam no balanço final que, inevitavelmente, todos fazemos quando alguém morre.

Com Mário Soares, que sempre teve um percurso muito distante dos ideais libertários e dos objectivos e princípios ideológicos que defendemos, os nossos caminhos encontraram-se, no entanto, por duas vezes.

Uma delas na resistência contra o fascismo, quando Mário Soares e outros advogados da área socialista utilizaram as tribunas a que tinham acesso, tal como a barra dos tribunais, para defenderem antifascistas acusados de combaterem o regime de Salazar. Foram momentos cruciais, muito duros, no combate a um regime despótico, que todos reconheciam ser necessário derrubar – eventualmente pela força – para que pudesse existir uma sociedade plural, minimamente democrática, em que os trabalhadores e os cidadãos em geral gozassem dos mais elementares direitos de liberdade de expressão e de associação.

Outra, já no pós 25 de Abril de 1974, quando o PS e ele próprio, com  diversos estratos da sociedade portuguesa, nomeadamente os libertários organizados em torno do jornal “A Batalha”, foram um travão à deriva autoritária que estava a ser desenhada por sectores políticos estruturados que, aproveitando-se das lutas populares, mais ou menos autónomas e espontâneas, iam criando um circulo apertado de leis e mecanismos visando cercear as liberdades e condicionar a pluralidade e os direitos básicos de associação e de expressão – e a lei da unicidade sindical foi apenas um exemplo.

Particularmente sensíveis ao papel do PCP na sociedade portuguesa e à sua ligação histórica às ditaduras do leste europeu, os velhos anarquistas, que tinham estado presos no Tarrafal e alguns sectores mais jovens (embora nem todos), viram nalguns momentos do pós 25 de Abril a acção do PS e de Mário Soares como um freio à vontade de domínio e de modelação da sociedade portuguesa aos desígnios do socialismo autoritário e ditatorial, o mesmo é dizer, do PCP e dos partidos autoritários da extrema-esquerda.

Numa e noutra ocasião, anarquistas e socialistas, foram meros companheiros de percurso, percebendo que tudo os diferenciava: os socialistas agarrados aos seus estigmas de classe, defensores da propriedade privada, mesmo dos grandes meios de produção; defensores do Estado e das instituições militares; defensores do jogo democrático, baseado no sistema representativo, que nada transforma nem altera; cúmplices nos grandes esquemas de corrupção entre a política e os negócios; e os anarquistas e anarco-sindicalistas, os libertários em geral, sedentos de um mundo novo, organizado de baixo para cima, e onde a liberdade política e a liberdade económica caminhem de braço dado.

São diferenças significativas na maneira de estar e de olhar a sociedade. E se o balanço que fazemos não esconde os momentos em que o percurso de Mário Soares e dos libertários estiveram próximos, também não oculta os momentos, que foram muito mais significativos, em que a prática e os combates do fundador do PS se afastaram de forma absoluta de tudo aquilo que, enquanto anarquistas, defendemos.

No entanto, respeitamos a sua memória, enquanto homem e político. O nosso combate faz-se, sobretudo, através das ideias e da coerência. Nunca juntaremos a nossa voz às carpideiras revanchistas que, nestes tempos, ecoam por todos os cantos, nem dos que procuram branquear a todo o custo o seu percurso.

Não temos pais da pátria nem quaisquer deuses escondidos. Os nossos heróis são os milhões de trabalhadores, homens e mulheres, jovens e activistas, migrantes ou refugiados, a maioria totalmente anónimos, que todos os dias se esforçam por construir um mundo novo, mais justo e igualitário, cooperativo e autogestionário, assente no apoio mútuo e na solidariedade.

Para eles, para os que lutam, é que vai a nossa mais profunda homenagem. Os políticos, por mais mediáticos e mediatizados que sejam, passam. O que fica é a luta dos povos pela liberdade e pela igualdade.

José Lopes (enviado com pedido de publicação)

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(*) Contra estas tentativas de instauração de modelos anacrónicos e autoritários do ponto de vista da libertação dos trabalhadores não apenas se mobilizou “A Batalha” como outras organizações de base, nomeadamente os conselhistas do jornal “Combate”, muito próximos do pensamento libertário. O editorial do “Combate” de 14 de Março de 1975 (depois de vencida a “intentona” spinolista e do PCP ter reforçado o seu peso no governo de Vasco Gonçalves) é disso exemplo quando refere: “(…) É necessário que todos nós, desde já, desmascaremos as patranhas que nos querem fazer engolir não só à direita como também à esquerda. É preciso dizer claramente a todos aqueles que visam a liquidação da sociedade de classes que os seus objectivos não serão atingidos substituindo os patrões pela burocracia estatal e partidária, mas apenas pela gestão colectiva da sociedade pelos seus produtores. Não basta que o poder seja arrancado às mãos dos que actualmente o detêm – é necessário que ele venha ter às nossas mãos. Não há quem nos salve da miséria e da estupidez da vida assalariada se não formos nós próprios a fazê-lo. Há apenas aqueles que, como o PCP e os seus rivais, disputam o papel de nossos salvadores – isto é, disputam quem vai beneficiar, uma vez derrubados alguns patrões privados, da nova exploração pelo Estado. E esse Estado – é preciso também dizê-lo – será infinitamente mais policial e despótico, será infinitamente mais eficaz no seu papel de monopolista do poder capitalista, do que o Estado de qualquer democracia burguesa. Será um Estado semelhante ao Estado fascista, com polícia política, censura estatal, militarização global do trabalho – um Estado de trabalho forçado agravado, na medida a que à pressão económica de todo o capitalismo acrescerá a vigilância policial directa nas empresas, nos bairros, nas escolas, etc.. Se durante muitos anos, era uma ideia de base ao movimento operário a ideia de que a capacidade para destruir a burguesia dos proprietários privados se confundia com a capacidade de construir a democracia operária, o auto-governo popular e o comunismo – sabemos hoje que não é assim. Sabemos hoje que não basta derrubarmos os patrões antigos e que, ou tomamos directamente o poder em toda a parte ou, se aceitarmos a ideia de que um partido nos pode representar e governar em nosso lugar, estaremos a criar os novos patrões e a lutar para pôr nas mãos dos carrascos futuros o chicote que cairá no nosso lombo (…)”. Editorial do “Combate”, nº 19, de 14 de Março de 1975. Aqui.

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One comment

  1. Como se diz é a “lógica da batata”, e do “inimigo do meu inimigo”… Por essa lógica, também o anarquismo se cruzou com o pcp, psd, pnr, mrpp, mup. Texto que roça a vergonha, se não fosse tão infantil..

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