“Contra os guardiães do templo”, por Tomas Ibañez


leviathan
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Recuperamos aqui algumas palavras do velho militante anarquista Tomás Ibañez sobre intolerância e “pureza dogmática” nos meios anarquistas.
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O texto tem a ver com as experiências que viveu em Itália, França e Espanha, nos anos 60 a 80, mas entre nós também esse problema existe e é actual. Entre nós ainda há quem continue a confundir anarquismo com esquerdismo e que julgue que deva existir uma varinha mágica ou um comité qualquer para distinguir os “bons” dos “maus” anarquistas (os bons seriam eles, claro).
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O pensamento autoritário, jacobino, de que o óptimo só acontecerá quando todos pensarem exactamente como nós, está ainda muito presente nalguns meios libertários, muito contaminados pelo pensamento religioso, depois adoptado pelas diversas variantes do pensamento totalitário, que divide a sociedade em duas categorias estanques: os bons e os maus. Os nossos e os outros. Claro, que os nossos seremos sempre só nós e, mesmo se alguém chegado pensar ligeiramente de outra forma, já será suspeito.
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É o caminho irreversível das suspeições, das calúnias, das expulsões e das cisões.
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Para esta forma de pensar, a experiência zapatista não deve ser apoiada porque não é claramente anarquista, nem tão pouco o confederalismo de Rojava ou as lutas que se travam aqui à nossa beira: nada está à altura da sua “pureza ideológica” e dos seus esquemas mentais fechados em torno de ideias-feitas que, espremidas, pouco valem senão a repetição de velhos slogans já carcomidos pelo tempo.
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A sua intolerância e dogmatismo, para além de radicarem no velho esquerdismo autoritário, são altamente estéreis – quando não destrutivas e paralisantes – para o movimento libertário no seu conjunto.
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Diz Tomás Ibáñez (militante libertário):
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“… combati durante muito tempo contra os “guardiães do templo” e, com efeito, durante os anos da minha militância anarquista mais intensa, desde princípios dos anos sessenta até aos oitenta, estes constituíam um problema sério no seio dos movimentos libertários de França, Itália ou Espanha para citar apenas os que conheço melhor.
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A sua vontade de preservar a pureza do anarquismo herdado, de evitar qualquer contaminação por ideias ou por práticas surgidas fora das suas fronteiras, a sua fé, quase religiosa, na superioridade inquestionável do anarquismo, e a sua dedicação na tarefa de velarem pela imutabilidade da sua essência, fechava-os num dogmatismo e num sectarismo impróprios de qualquer sensibilidade minimamente anarquista.
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As expulsões, as desqualificações, as cisões, não eram, naquela altura, nada raras.
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Hoje a própria força das mudanças esvaziou de energia as tendências sectárias e os “guardiães do templo” já não representam nenhum problema, ainda que não seja de mais permanecermos atentos a eventuais ressurgimentos de atitudes fundamentalistas.”
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