(Lisboa) Crónica da sessão contra a repressão no Estado Espanhol realizada na ‘Disgraça’ este domingo


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A “Disgraça” acolheu no domingo passado um evento organizado pela secção portuguesa da AIT sobre a repressão actual no estado espanhol. O evento consistia na retransmissão do espectáculo de marionetas da companhia «Títeres desde Abajo», que representaram de novo a sua obra «La bruja y don Cristóbal en Madrid», e uma mesa redonda sobre a repressão anti-terrorista. Vários colectivos explicaram a realidade da repressão no estado espanhol. Entre eles, destaca-se o caso do Nahuel, que continua na prisão há mais de um ano. Ao contrário dxs outrxs acusadxs, o Nahuel é vítima do racismo institucional que pretende que existe um risco de fuga devido às suas origens.

Como é costume, houve problemas técnicos que dificultaram a retransmissão do encontro que tinha lugar em Madrid. Mesmo assim, é assinalável que em mais de 70 cidades se tenham realizado encontros de solidariedade para com xs represaliadxs.

De forma muito geral, observa-se que o governo está a criar novas leis e práticas repressivas que tornam muito ténues os direitos formais das populações. A violência do Estado é utilizada como uma ferramenta para impor à sociedade a ordem  que convém às elites. Para tornar natural a ausência de conflito social em tempos de crise, o Estado insiste num discurso criminalizador que legitima novas leis repressivas, que estão a destruir a liberdade de expressão dos indivíduos, das comunidades e, em geral, da própria sociedade no seu conjunto. Com as últimas intervenções anti-terroristas, o Estado pretende criar um inimigo interno que dissuada a população de mobilizar-se pelos seus direitos. Ao mesmo tempo, as populações sofrem as consequências da austeridade e carregam com o peso da dívida e da falta de legitimidade dos credores. Em Espanha existe um poderoso dispositivo repressivo que se funda numa legislação anti-terrorista especialmente abrangente.

Depois de vermos uma gravação anterior da peça que estava disponível na Internet, a conexão com Madrid continuava sem funcionar. Enquanto xs organisadorxs esperavam por novas notícias de Madrid, a malta juntou-se para dialogar sobre diversos casos e experiências tanto em Portugal como fora de Portugal. Falou-se da situação em Barcelona, onde a polícia catalã tem efectuado várias operações para reprimir o movimento anarquista. Nalguns casos, como em Pandora e Piñata, as provas sempre brilharam pela sua ausência. Pelo contrário, no caso dos assaltos a bancos na Alemanha as acusações baseavam-se sobre material genético em bases de dados europeias.

Constatou-se que a situação repressiva em Portugal não é tão drástica como na Catalunha, mas que esta diferença também pode ser devida à vitalidade dos movimentos socais barceloneses – em contraponto com a falta de dinamismo dos movimentos sociais, hoje, em Portugal.

De Portugal ainda resta a memória da confrontação que teve lugar em 2012, à porta da Assembleia da República. Comentou-se que xs manifestantes não estavam muito organisadxs e que era notável que muitas pessoas apoiaram quem atirava pedras. Como sempre, fica a incógnita de saber até que ponto é que a policia infringiu a lei para provocar esses actos, mediante agentes às paisana, infiltração nos grupos, etc. Mas o que é certo é que ficou na memória colectiva a pancada que a bófia repartiu à toa, perseguindo pessoas que tentavam fugir sem se poderem defender.

Também se destacou a importância de adoptar uma postura crítica frente às divisões que o poder tenta criar face à violência que é dirigida à própria estrutura da sociedade, que é – ela também – muito violenta. A criminalização dos movimentos sociais procura marcar um limite entre aquilo que é “aceitável” e aquilo que não o é, de forma a definir a forma dos protestos futuros – cada vez mais suaves e com menos confrontação.

Também se falou do caso da Es.col.a okupada no Porto, e da importância das práticas que estão de ensino e educação alternativas que estão a ser criminalizadas. Esse espaço tornou-se num sítio de encontro, num espaço de exercício de uma educação anarquista, entendida aqui como prática de auto-formação de singularidades livres a partir de práticas autogestionárias de troca de saberes e de produção de conhecimentos. Uma das características fundamentais do espaço foi que se formaram relações éticas e estéticas baseadas na amizade como valor fundamental. Portanto, a Es.col.a não foi só um recurso material, com a sua biblioteca, actividades e comissões. Foi, sobretudo, um sítio de que as pessoas se apropriaram, dando uso a um espaço abandonado e defendendo-o quando chegou o momento da expulsão. Mas como era de esperar, os políticos sabotaram todo o processo e os meios de comunicação limitaram-se a repetir as versões institucionais.

Finalmente, xs organizadorxs do evento conseguiram ligar o streaming e puderam-se ouvir as conclusões dos colectivos. Todos os colectivos convidados salientaram que o anti-terrorismo tem-se utilizado para reprimir as lutas mais exemplares e que, por isso mesmo, mostram de forma prática e quotidiana que outro mundo é possível. Em Portugal, essas ferramentas anti-terroristas ainda só se traduziram em operações contra utilizadorxs das redes sociais. Mas a repressão anti-terrorista nunca afecta só a liberdade de expressão: o anti-terrorismo procura influir sobre a liberdade de consciência. Pretende que os sujeitos tenham medo das suas próprias ideias e se auto-censurem. E, à medida que se silencia a cultura popular e a sua capacidade subversiva, vai sendo mais fácil aprovar novas leis que legalizam e sistematizam as práticas repressivas excepcionais. Quando a excepção se torna a norma, o direito é utilizado à medida das necessidades da policia.

Os colectivos da mesa redonda instaram a audiência a dar a conhecer estes casos, a incentivar a reflexão acerca destas questões, e a continuar a luta. O caso dos marionetistas revela que estas acusações de terrorismo são essencialmente uma matéria política, de direito à liberdade de expressão e de criação, e nada têm a ver com o “terrorismo”.  Em consequência, o esclarecimento da opinião pública tem uma grande importância, uma vez que muitas vezes é a própria população, quando devidamente esclarecida, a não acreditar naquilo que o poder diz. No entanto, também é importante lembrar que estas medidas são tomadas muitas vezes – senão sempre – à margem da lei. Portanto, também é um elemento estratégico importante a relação com os direitos formais que xs poderosxs dizem que temos. E que é necessário divulgar e combater cada vez que nos são negados.

Nem inocentes nem culpados!

António (cronista habitual do Portal Anarquista)

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2 comments

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    A “Disgraça” acolheu no domingo passado um evento organizado pela secção portuguesa da AIT sobre a repressão actual no estado espanhol. O evento consistia na retransmissão do espectáculo de marionetas da companhia «Títeres desde Abajo», que representaram de novo a sua obra «La bruja y don Cristóbal en Madrid», e uma mesa redonda sobre a repressão anti-terrorista. Vários colectivos explicaram a realidade da repressão no estado espanhol. Entre eles, destaca-se o caso do Nahuel, que continua na prisão há mais de um ano. Ao contrário dxs outrxs acusadxs, o Nahuel é vítima do racismo institucional que pretende que existe um risco de fuga devido às suas origens.

    Como é costume, houve problemas técnicos que dificultaram a retransmissão do encontro que tinha lugar em Madrid. Mesmo assim, é assinalável que em mais de 70 cidades se tenham realizado encontros de solidariedade para com xs represaliadxs.

    De forma muito geral, observa-se que o governo está a criar novas leis e práticas repressivas que tornam muito ténues os direitos formais das populações. A violência do Estado é utilizada como uma ferramenta para impor à sociedade a ordem que convém às elites. Para tornar natural a ausência de conflito social em tempos de crise, o Estado insiste num discurso criminalizador que legitima novas leis repressivas, que estão a destruir a liberdade de expressão dos indivíduos, das comunidades e, em geral, da própria sociedade no seu conjunto. Com as últimas intervenções anti-terroristas, o Estado pretende criar um inimigo interno que dissuada a população de mobilizar-se pelos seus direitos. Ao mesmo tempo, as populações sofrem as consequências da austeridade e carregam com o peso da dívida e da falta de legitimidade dos credores. Em Espanha existe um poderoso dispositivo repressivo que se funda numa legislação anti-terrorista especialmente abrangente.

    Depois de vermos uma gravação anterior da peça que estava disponível na Internet, a conexão com Madrid continuava sem funcionar. Enquanto xs organisadorxs esperavam por novas notícias de Madrid, a malta juntou-se para dialogar sobre diversos casos e experiências tanto em Portugal como fora de Portugal. Falou-se da situação em Barcelona, onde a polícia catalã tem efectuado várias operações para reprimir o movimento anarquista. Nalguns casos, como em Pandora e Piñata, as provas sempre brilharam pela sua ausência. Pelo contrário, no caso dos assaltos a bancos na Alemanha as acusações baseavam-se sobre material genético em bases de dados europeias.

    Constatou-se que a situação repressiva em Portugal não é tão drástica como na Catalunha, mas que esta diferença também pode ser devida à vitalidade dos movimentos socais barceloneses – em contraponto com a falta de dinamismo dos movimentos sociais, hoje, em Portugal.

    De Portugal ainda resta a memória da confrontação que teve lugar em 2012, à porta da Assembleia da República. Comentou-se que xs manifestantes não estavam muito organisadxs e que era notável que muitas pessoas apoiaram quem atirava pedras. Como sempre, fica a incógnita de saber até que ponto é que a policia infringiu a lei para provocar esses actos, mediante agentes às paisana, infiltração nos grupos, etc. Mas o que é certo é que ficou na memória colectiva a pancada que a bófia repartiu à toa, perseguindo pessoas que tentavam fugir sem se poderem defender.

    Também se destacou a importância de adoptar uma postura crítica frente às divisões que o poder tenta criar face à violência que é dirigida à própria estrutura da sociedade, que é – ela também – muito violenta. A criminalização dos movimentos sociais procura marcar um limite entre aquilo que é “aceitável” e aquilo que não o é, de forma a definir a forma dos protestos futuros – cada vez mais suaves e com menos confrontação.

    Também se falou do caso da Es.col.a okupada no Porto, e da importância das práticas que estão de ensino e educação alternativas que estão a ser criminalizadas. Esse espaço tornou-se num sítio de encontro, num espaço de exercício de uma educação anarquista, entendida aqui como prática de auto-formação de singularidades livres a partir de práticas autogestionárias de troca de saberes e de produção de conhecimentos. Uma das características fundamentais do espaço foi que se formaram relações éticas e estéticas baseadas na amizade como valor fundamental. Portanto, a Es.col.a não foi só um recurso material, com a sua biblioteca, actividades e comissões. Foi, sobretudo, um sítio de que as pessoas se apropriaram, dando uso a um espaço abandonado e defendendo-o quando chegou o momento da expulsão. Mas como era de esperar, os políticos sabotaram todo o processo e os meios de comunicação limitaram-se a repetir as versões institucionais.

    Finalmente, xs organizadorxs do evento conseguiram ligar o streaming e puderam-se ouvir as conclusões dos colectivos. Todos os colectivos convidados salientaram que o anti-terrorismo tem-se utilizado para reprimir as lutas mais exemplares e que, por isso mesmo, mostram de forma prática e quotidiana que outro mundo é possível. Em Portugal, essas ferramentas anti-terroristas ainda só se traduziram em operações contra utilizadorxs das redes sociais. Mas a repressão anti-terrorista nunca afecta só a liberdade de expressão: o anti-terrorismo procura influir sobre a liberdade de consciência. Pretende que os sujeitos tenham medo das suas próprias ideias e se auto-censurem. E, à medida que se silencia a cultura popular e a sua capacidade subversiva, vai sendo mais fácil aprovar novas leis que legalizam e sistematizam as práticas repressivas excepcionais. Quando a excepção se torna a norma, o direito é utilizado à medida das necessidades da policia.

    Os colectivos da mesa redonda instaram a audiência a dar a conhecer estes casos, a incentivar a reflexão acerca destas questões, e a continuar a luta. O caso dos marionetistas revela que estas acusações de terrorismo são essencialmente uma matéria política, de direito à liberdade de expressão e de criação, e nada têm a ver com o “terrorismo”. Em consequência, o esclarecimento da opinião pública tem uma grande importância, uma vez que muitas vezes é a própria população, quando devidamente esclarecida, a não acreditar naquilo que o poder diz. No entanto, também é importante lembrar que estas medidas são tomadas muitas vezes – senão sempre – à margem da lei. Portanto, também é um elemento estratégico importante a relação com os direitos formais que xs poderosxs dizem que temos. E que é necessário divulgar e combater cada vez que nos são negados.

    Nem inocentes nem culpados!

    António (cronista habitual do Portal Anarquista)

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