Dia: Março 12, 2017

DA MISÉRIA NO MEIO ESTUDANTIL


alienação

(CONSIDERADA NOS SEUS ASPECTOS ECONÓMICO, POLÍTICO, SEXUAL E ESPECIALMENTE INTELECTUAL E DE ALGUNS MEIOS PARA A PREVENIR) (*)

NOTA DO TRADUTOR

Não é esta a primeira vez que o presente libelo é dado a público em Portugal. Muitos são os receios, porém, de ser esta, entre nós, a sua primeira edição legível.

Conceda-se: em países como Portugal, a critica de algo como a miséria estudantil – daquilo que esta é, e do que implica – encontra, sem dúvida, uma maior dificuldade de explicitação. Mesmo assim, o ridículo prestígio do sr. Doutor – como, satisfeito, se deixa chamar, entre nós, o feliz detentor de um diploma universitário, desta sorte partícipe duma estratificação cultural que já só é burlesca – não chega para ocultar a feroz banalização do mundo: aqui, tal como nas regiões onde tal apelação de casta não existe, a situação real do estudante, e daquilo que este virá a ser profissionalmente, é cada vez menos mistificável. Situação que tende, bem entendido, a desesperar todo o estudante de boa gema, isto é, que ainda se toma a sério, e a sério assume a imagem, grave e sedutora, de um mundo que perdeu, há muito, toda a seriedade e só seduz os reles.

Este seu papel consiste pois em interiorizar, antes de mais para uso próprio, a inevitabilidade, quão grata, de deter, na charlatanice geral, uma valia acima do comum. Porque, comumente, e isto em todas as paragens, a miséria do estudante começa pelo facto de dificilmente ser capaz de a reconhecer. Drama que constitui a sua desvantagem. É muito capaz de identificar a “miséria” dos outros (a dos “operários e camponeses”, ou a dos pobrezinhos) , mas fá-lo para confirmar, assim, que -sobretudo- não se trata de neles se confundir, mas apenas de cuidadosamente deles se demarcar, através daquilo que julga ser um prestigio e que não passa de um lastimável preconceito. É a célebre história dos estudantes ao lado do povo – que é todo um programa.

O estudante modelo não é propriamente um imbecil; o que lhe acontece é sofrer dessa doença a que Marx chamava a inteligência política, aqui oposta à inteligência social: capaz de vastos malabarismos de intelecto no domínio do fragmentário e do pormenor, é com um talentozinho todo ele pragmático, cuidadoso e rasteiro que se aplica a isso de ser estudante – quer dizer, a ignorar, teimosamente, no vasto concerto da servidão moderna, a sua própria submissão.

Júlio Henriques

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