(100 anos da Revolução russa)  “Para os anarquistas russos, o bolchevismo tinha-se convertido na contra-revolução”


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Acaba de ser apresentado em Espanha o livro “Por el pan, la tierra y la libertad: El anarquismo en la Revolución rusa”, do historiador Julián Vadillo Muñoz, que destaca o papel – sempre tão caluniado e esquecido – dos anarquistas na Revolução russa e a sua defesa intransigente da independência dos sovietes, que tinha sido a grande palavra de ordem, mobilizadora, dos primeiros dias da revolução. A elucidativa entrevista, que traduzimos, foi publicada ontem (28/3/2017) na edição online do jornal alternativo espanhol “La Marea”.

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O historiador Julian Vadillo analisa o papel que o anarquismo jogou na Revolução russa de 1917.

FERMÍN GRODIRA/redaccion@lamarea.com

Publicam-se (ou reeditam-se) numerosos livros este ano por ocasião do primeiro centenário da Revolução Russa. Mas poucos tratam do papel que o anarquismo teve na queda do czar e na subida dos bolcheviques ao poder. Julián Vadillo Muñoz (Madrid, 1981) fá-lo no livro “Por el pan, la tierra y la libertad: El anarquismo en la Revolución rusa”, editado pela Volapük Ediciones. O autor, como explica na introdução, tenta “analisar o anarquismo russo na sua medida justa” e “decifrar o que foi realmente” já que a eterna “derrota levou ao ostracismo” dos anarquistas. Julián Vadillo recebe “La Marea” na livraria libertária “La Malatesta” de Madrid”.

Que papel tiveram os anarquistas na Revolução russa?

O seu papel foi crescendo ao longo dos emses. A Revolução de Fevereiro surpreende o anarquismo quando a maioria dos seus membros está ainda no exílio. A queda do czar e a proclamação da república faz com que muitos retornem e os grupos disseminados do anarquismo que se tinham mantido entre 1906 e 1917 se voltem a restruturar. Durante esse período surgem meios de comunicação e grupos anarquistas, convertendo o anarquismo num elemento a ter em conta ainda que atrás de outras organizações que se tinham conservado mais estruturadas, comos os mencheviques, os bolcheviques e os socialistas revolucionários. O que opõe entre si as organizações revolucionárias depois da Revolução de Outubro de 1917 é o modelo revolucionário do Partido Bolchevique face ao modelo que o anarquismo defende.

Assim, os anarquistas não participaram na Revolução de Fevereiro?

Sim, participaram nas mobilizações ainda que só pequenos grupos que tinham ficado em São Petersburgo, Moscovo… mas a Revolução de Fevereiro não corresponde a uma ideologia concreta. É a própria Revolução e os meses posteriores que fazem que pessoas como Volin, Gregori Petrovich Maximov, Piort Archinov … voltem à Rússia e que Nestor Makhno saia da prisão graças à amnistia pela proclamação da república. Deste modo têm a possibilidade de reestruturar as organizações anarquistas russas.

Afirma que a morte de Piotr Kropotkin em fevereiro de 1921, quatro anos depois da Revolução russa, “foi a moprte do anarquismo russo”. A revolução acabou com o anarquismo?´

A morte de Kropotkin significa metaforicamente a morte do anarquismo: a manifestação pela sua morte foi a última grande mobilização do anarquismo russo no interior. A partir desse momento os anarquistas russo têm que se exilar, estão nas prisões, nos campos de concentração ou morreram directamente na guerra civil entre 1917 e 1921. O anarquismo participa e é protagonista da revolução mas a revolução devora muitos dos seus protagonistas. Para os anarquistas, num determinado momento, o bolchevismo já não era a revolução, mas tinha-se convertido na contra-revolução. O contributo de sangue que o anarquismo deu à revolução é muito grande.

Alguns historiadores conservadores como Richard Pipes opinam que a Revolução de Outubro foi um golpe de Estado. Foi uma revolução, um golpe de Estado, ambas as coisas ou nenhuma?

Não creio que tenha sido um golpe de Estado, mas sim um processo revolucionário com uma base social muito ampla. Um golpe de Estado significa que uma minoria toma o poder face a uma maioria. É verdade que há um Governo provisório que cai favorecendo um grupo político concreto – que são os bolcheviques –, mas para que tivesse sido um golpe de Estado era preciso que esse Governo provisório tivesse uma base social que o apoiasse. Em outubro de 1917 está completamente desacreditado. Há uma dualidade de poder, e os sovietes não estão com o Governo provisórios, mas sim contra ele. São os sovietes, nos quais não apenas participam os bolcheviques, mas também os anarquistas, os socialistas revolucionários, os mencheviques … os que dinamizam o poder. O problema aparece porque alguns dirigentes bolcheviques utilizaram a palavra “golpe” para se referirem ao que aconteceu em outubro de 1917 e isso serviu para tirar conclusões que, na minha opinião, não correspondem ao que sucedeu. O que, de facto, existe depois de outubro de 1917 é um golpe de mão por parte dos bolcheviques que, de maneira paulatina, vão esmagando os  seus rivais políticos até os exterminarem do mapa político, seja física, seja politicamente.

Ao modelo económico denominado pelos bolcheviques como “comunismo  de guerra”, aplicado durante a guerra civil, os anarquistas chamaram “capitalismo de Estado”. Em que se diferencia a proposta económica dos anarquistas daquela que os bolcheviques puseram em marcha?

Os bolcheviques quando chegam ao poder fazem um plano de nacionalização da economia. As fábricas e os campos passam a ser controlados pelo Estado e este cede a gestão directa aos trabalhadores. Mas é o Estado quem controla o poder económico. Os anarquistas não estão de acordo com esse modelo, porque não querem que o Estado controle o que quer que seja, mas sim que desapareça e que sejam os produtores, de forma directa, que fiquem com o controlo económico das fábricas e dos campos. Para eles, os sovietes são o eixo central da revolução, são os organismos de gestão directa dos trabalhadores da produção. Essa é a grande diferença. Ao acabar a guerra civil, os anarquistas e os socialistas revolucionários denunciam a imposição de um modelo económico que se afasta do espírito revolucionário de 1917 e afirmam que ou se retoma o modelo do poder aos sovietes ou acabarão engolidos pela ditadura de um só partido.

Depois do comunismo de guerra e da Nova Política Económica, segundo o discurso oficial soviético, foi alcançado o “socialismo real”. A Rússia foi na realidade um modelo socialista?

Podia-se-lhe chamar socialismo de Estado ainda que seja uma estatização da economia. Inclusive a Nova Política Económica, que surgiu em 1921 e que é uma mistura entre socialismo e livre mercado, desaparece completamente e os planos quinquenais servem para a industrialização da União Soviética que, por fim, se converte numa das potências industriais do mundo. Nesse sentido, sim, Stalin tem êxito, mas a que preço? A partir de 1927, quando Trostky é defenestrado, ocorre uma transição de uma ditadura de partido único para uma ditadura unipessoal de Stalin. Em 1937, do Comité Central do Partido Bolchevique de 1917 absolutamente todos os seus membros tinham sido eliminados por Stalin, excepto Lenin, que morre em 1924, e Trostky, que tinha fugido, mas que será executado em 1940, acusado de ser contra-revolucionário.

Diz no livro que em 1905 a facção bolchevique do Partido Operário Socialdemocrata da Rússia tentou “controlar o soviete” ao considera-lo um elemento rival mas, ao alcançar o poder, se autodenominaram soviéticos. O que eram e em que se converteram os sovietes?

A história dos sovietes é a parte mais interessante da Revolução russa e uma das mais desconhecidas. É conhecida como a Revolução soviética, mas o sentido que as diferentes opções políticas dão aos sovietes é diferente. O soviete nasce em fevereiro de 1905, como diz Volin em “A Revolução desconhecida”. O Partido Social-Revolucionário é quem impulsiona o soviete, que surge como um organismo operário que pretende controlar a produção e experimentar um modelo económico distinto. Não depende de nenhum partido nem de nenhuma organização. Nos anos que medeiam entre 1905 e 1908 os bolcheviques não vêem os sovietes como aliados, mas sim como rivais. É a partir dessa altura que Lenin, já no exílio, vê como possível a aproximação do Partido Bolchevique aos sovietes para tentar crescer no seu interior. O conceito de soviete vai mudando. Para os anarquistas e os socialistas revolucionários de esquerda, os sovietes devem manter-se como são desde a origem: organismos operários que tentam controlar a política, a economia e a sociedade sem serem uma correia de transmissão partidária, ao serviço apenas dos trabalhadores. Pelo contrário, os bolcheviques consideram os sovietes, como os sindicatos, partes integrantes do seu próprio partido.

Noto um certo paralelismo entre os anarquistas ucranianos de Nestor Makhno e os anarquistas espanhois de 1936-1937. Que semelhanças e diferenças houve entre a makhnovitchina e a Revolução espanhola?

O que sucede em Espanha é uma luta de poder pelo controlo do movimento operário entre o PCE e a CNT. O que acontece na Ucrânia é similar à situação em Espanha de 1936 porque a influência do makhnovismo e do anarquismo no movimento operário é muito importante. O Partido Bolchevique tenta-o desfazer e por fim Makhno é vencido pela força das armas do Exército Vermelho. Makhno tentou fazer um pacto com os bolcheviques desde o primeiro momento e em várias ocasiões. Chegaram a três acordos e todos acabaram da mesma maneira: ruptura do pacto e repressão contra as unidades makhnovistas. Num desses acordos, Makhno tentou que o governo de Moscovo reconhecesse a zona livre da Ucrânia, onde tinha influência. Makhno construiu um movimento muito forte na Ucrânia e toda a zona leste do país esteve sob a sua influência. Desenvolveu-se um processo muito similar ao das colectividades de Aragão e da Catalunha, onde são os sovietes dessas zonas que asseguram o controlo sobre a produção

Mas, ainda que fosse anarquista, Makhno nunca fez parte da Confederação de Organizações Anarquistas Nabat.

Os makhnovistas são, na sua essência, anarquistas: Makhno é anarquista, Archinov é anarquista… mas o makhnovismo, como tal, é um movimento das massas trabalhadoras, como eles próprios dizem. Anatol Gorelik, em “O anarquismo na Revolução russa”,  diz que o makhnovismo não é anarquista mas tem elementos que os une aos anarquistas e os anarquistas vêem no makhnovismo uma opção importante para o desenvolvimento das suas ideias. À margem está a Confederação Anarquista Nabat, a organização dos anarquistas ucranianos, da qual não faz parte Makhno, mas há uma confluência. Ainda que o makhnovismo como tal não se defina como anarquista, é antiautoritário, horizontal, autogestionário e tem muitos pontos em comum com o anarquismo.

A base naval de Kronstadt, “o orgulho e a glória da revolução”, segundo Trotsky, levantou-se em Março de 1921 e foi reprimida pelo Exército Vermelho. A revolta de Kronstadt pode ser considerada um episódio anarquista?

Em Kronstadt sempre existiu um espírito anarquista muito importante e foram os anarquistas quem mais dinamizou o soviete de Kronstadt. Efim Yarchuk, um dos mais importantes anarquistas de Kronstadt, é o defensor máximo da independência dos sovietes face aos partidos e foi esse o espírito de Kronstadt até março de 1921. Mas não foi uma revolta anarquista enquanto tal, porque não são apenas anarquistas quem está em Kronstadt. Há também socialistas revolucionários e bolcheviques que não estão de acordo com o que fazem os seus companheiros no governo. É uma revolta da esquerda.

Quais eram as reivindicações dos marinheiros de Kronstadt?

Entre as reivindicações de Kronstadt estão a liberdade de imprensa, a liberdade de eleição dos sovietes, liberdade para os anarquistas, liberdade para os socialistas revolucionários e que se regresse outra vez ao espírito revolucionário de 1917. Há quem diga que em Kronstadt estavam os contra-revolucionários e os mencheviques, mas entre as reivindicações de Kronstadt não aparece em nenhum momento a abertura da Assembleia Constituinte, que era a grande exigência dos mencheviques, nem muito menos o regresso ao czarismo. O que Kronstadt coloca é o debate com os bolcheviques entre a ditadura de um partido ou sovietes livres. Enquanto os jornais bolcheviques e Trostky dizem que os contra-revolucionários estão por detrás, para Lenin é claro que o que se passa em Kronstadt é uma revolta de esquerda. E Lenin compreende que a sublevação tem que ser esmagada ou pode sair vencedora, porque representa uma opção para os trabalhadores.

É curioso que Trotsky, que reprimiu a revolução makhnovitchina e a revolta de Kronstadt, tenha passado paraa  história como um ídolo para certa esquerda revolucionária anti-estalinista.

Trostky é um dos grandes ideólogos militares que o Partido Bolchevique tem e que lidera a repressão contra os makhnovistas. São as grandes glórias da revolução como Zinoviev e Mijail Tujachevsky quem também reprime de forma virulenta a revolta de Kronstadt. Inclusive a “Oposição Operária”, que Alexandra Kolontai representava, opõe-se à revolta de Kronstadt e considera os sublevados como desviacionistas pequeno-burgueses e anarquistas. Trotsky é o repressor de Kronstadt mas logo a seguir tem a má sorte de perder a corrida para o poder com Stalin e tem que se exilar, e por isso encontra simpatias à esquerda. Mas para o anarquismo a imagem de Trotsky é muito negativa porque foi o seu repressor. Da mesma maneira que Lenin não se atrevia a criticar demasiado os marinheiros de Kronstadt porque eram “o orgulho e a glória da Revolução”, Trotsky, nos jornais, atirava-se aos anarquistas, ao makhnovismo e aos kronstadianos  Nesse sentido, Trotsky é mais agressivo do que o próprio Lenin.

Qual foi a postura dos anarquistas espanhóis face à Revolução russa?

Depois de estalar a revolução em 1917, os anarquistas espanhóis apoiam-na. No Congresso da CNT de Sants (Barcelona) de 1918 e no Congresso da Comedia de 1919 há uma disposição de apoio à Revolução russa e a inclusão de forma provisória do sindicato nas estruturas da III Internacional e na Internacional Sindical Vermelha. A CNT decidiu ingressar no Profintern, mas enviou delegados à Rússia para verem como se estava a desenvolver a Revolução. Ángel Pestaña y Gaston Leval, que estiveram naquele congresso em representação da CNT, produziram uma informação negativo sobre o que estava a acontecer na Rússia ao verem que estavam a prender os anarquistas. Ao voltarem a Espanha, Pestaña e Leval dizem que a Revolução russa não tem nada a ver com o comunismo que os anarquistas estão atentar implementar e depois de receber as comunicações, a CNT abandona a Internacional Sindical Vermelha. Em 1922 vai unir-se à renascida Associação Internacional dos Trabalhadores.

Que conclusões se podem tirar da Revolução russa?

É o acontecimento mais importante do século XX, sem nenhuma dúvida, porque marcará um antes e um depois na História da humanidade da Idade Contemporânea. Não se compreende nada sem a Revolução russa. Num momento histórico complicado como era 1917, no meio duma guerra mundial que estava ensanguentando a Europa, houve um país e uma classe operária que mudaram o curso da História. Tudo se pode mudar e nada é inamovível.

Que resta hoje em dia do anarquismo na Rússia?

Existem organizações anarquistas na Rússia, sobre tudo nas grandes cidades, como Moscovo ou São Petersburgo, ainda que não sejam muito numerosas. A nível histórico recorda-se parte do anarquismo ainda que esteja eclipsado pelo triunfo dos bolcheviques. Nas livrarias russas existem livros sobre o anarquismo, ainda que a deformação que se mostra seja evidente. A história do anarquismo russo está ainda por investigar e por se escrever.

aqui: http://www.lamarea.com/2017/03/28/revolucion-rusa/

Tradução: Portal Anarquista

 

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