(Lisboa) Exposição e Colóquio assinalam 200 anos do nascimento de Henry Thoreau


THOREAU

Assinala-se este ano o bicentenário do nascimento de Henry David Thoreau, um dos percursores do pensamento libertário, da ecologia e do ambientalismo. ‘Walden’ e ‘A Desobediência Civil’ são dois dos seus livros mais conhecidos e com tradução em português. Para assinalar os 200 anos do seu nascimento vai-se realizar nos dias 10 e 26 de Abril na Biblioteca Nacional, em Lisboa, um conjunto de iniciativas que vão contar com a presença de investigadores como Júlio Henriques, António Cândido Franco, Paulo Guimarães, Jorge Leandro Rosa e Paulo Borges, entre outros. (programa aqui)

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Henry David Thoreau nasceu em 1817, em Concord, povoação do Estado de Massachusetts a uns 30 km a oeste de Boston, e ali faleceu em 1862, vitimado pela tuberculose aos 44 anos. Descendia, pelo lado paterno, de uma família francesa de protestantes refugiados na ilha de Jersey, no Canal da Mancha, desde 1685, após a revogação do édito de Nantes.

Involuntariamente, o avô de Henry fora o primeiro a instalar-se na América, em Boston, em 1773, na sequência de um desastre marítimo em que naufragou. Os pais de Thoreau, cultos e pouco dados aos negócios, não eram materialmente ricos. Possuíam no entanto uma pequena fábrica de lápis em Concord, onde Henry trabalhará em diversas ocasiões, encontrando ali o esteio material que, a bem dizer, nunca terá nas suas actividades «intelectuais», mesmo no ensino, que só episodicamente pôde exercer. Tanto o pai como a mãe de Henry, empenhados na acção política abolicionista, o iniciaram no amor pela justiça e pela natureza.

Para os seus contemporâneos, Henry Thoreau não passava de um discípulo menor do filósofo e seu amigo íntimo Ralph Waldo Emerson, mais velho catorze anos e autor já então muito conhecido. Cem anos depois, porém, Thoreau passou a ser considerado um dos gigantes da literatura norte-americana, admitindo-se universalmente que fala muito mais ao nosso tempo do que pôde falar ao seu. A sua vasta obra, em grande parte postumamente publicada, continua a mostrar-se influente em domínios diversos: no amor pelas belezas naturais, na sátira de costumes, na oposição às instituições estatais, na protecção e conservação da natureza e seus recursos, na estilística do ensaísmo moderno.

No dia 4 de Julho de 1845, aos 27 anos, enquanto a maioria dos estadunidenses agitava bandeirinhas por entre o ruído do fogo de artifício e dos sinos, Thoreau celebrava o Dia da Independência à sua própria maneira, inaugurando, com um grupo de amigos (entre os quais Emerson), a cabana que construíra junto ao Walden, um lago glaciar situado a uns 3 km de Concord.

Dera esse passo com vista a pôr em prática as suas exigências de uma vida simples e despojada, graças à qual, como depois há-de verificar, lhe será possível trabalhar, no máximo, seis semanas por ano. Thoreau, que levava muito a sério o lema «um homem é rico em proporção ao número de coisas de que pode prescindir», confirmava assim o que declarara alto e bom som aquando da sua licenciatura na Universidade de Harvard, invertendo as prescrições bíblicas: que o homem deveria trabalhar um dia por semana e descansar nos outros seis  ainda que este «descanso», no caso de Thoreau, deva ser matizado, visto ele o dedicar a escrever e a observar apaixonadamente a natureza. Um dos seus objectivos ao ir morar para os bosques era escrever uma obra sobre a viagem que em 1839 empreendera com seu irmão John pelos rios Concord e Merrimack. E, curiosamente, na cabana escreverá A Week on the Concord and Merrimack Rivers e Walden, os dois únicos livros que pôde publicar em vida. Curiosamente também, fez isso na altura da grande migração que levou à chamada «conquista do Oeste», sem esta o atrair. Thoreau, de facto, compreendera que necessitava de algo mais vital do que mudar de geografia: impunha-se-lhe modificar o seu modo de vida.

waldenWalden tem origem numa palestra que Thoreau faz em Fevereiro de 1846, no Liceu de Concord, sobre a obra de Thomas Carlyle. Embora desperte interesse, não era aquilo que os seus conterrâneos esperavam ouvir. O que eles queriam saber era outra coisa: por que razão um licenciado da Universidade pusera de parte a vida convencional e fora viver para uma cabana nos bosques. Thoreau começa então a escrever para outras conferências; a primeira só a proferirá um ano depois, em Fevereiro de 1847, intitulando-a «História de Mim Mesmo», parte da qual deu depois o primeiro capítulo de Walden. As reacções favoráveis a estas palestras levam-no posteriormente a dar-lhes forma mais elaborada e a concebê-las como livro. Conclui esse manuscrito em Setembro de 1847, mas só em 1854 aceita publicá-lo, num dos mais reputados editores de Boston, devido às muitas revisões (sete, ao todo) a que obstinadamente decidira proceder.

A recepção que acolhe este seu segundo livro é melhor do que a do primeiro, A Week… (1848), cuja edição quase completa acabaria por lhe ser entregue em casa pelo editor; mas para uma obra que no século XX se tornará um clássico da literatura norte-americana o interesse da crítica e do público mostra-se então parco: a edição inicial, de 2000 exemplares, levará três anos a esgotar. Podemos dizer, naturalmente, que teve destino semelhante ao Moby Dick (1851) de Melville e às Leaves of Grass (1855) de Whitman, que só gerações posteriores souberam ler.

O lago Walden e os seus bosques irão ser para Thoreau uma lição essencial, apreendendo ele ali que a arte de escrever e a arte de viver são inseparáveis. Walden, de facto, é mais do que o simples relato de uma vida nos bosques. A prosa de Thoreau evoca a natureza sem sentimentalismos e sem distorcer o mundo natural. O individualista transcendentalista que nesta narrativa emerge reve-la-se sedutor e convincente porque os vívidos pormenores colhidos nos bosques, no lago e nas estações do ano são empregados como elementos simbólicos destinados a validar a sua visão de uma vida espiritual alicerçada na natureza.

Com efeito, os factos da natureza constituíam para Thoreau uma linguagem. Foi com esta que pôde edificar um mundo espiritual, cuidadosamente reconstruído em Walden, «transformando» num só ano os dois anos que lá passou, de modo a seguir, na narrativa, o ciclo natural das quatro estações.

Para a elaboração de Walden concorreram diversas influências. A primeira terá sido a de Emerson. Thoreau construiu a célebre cabana em terras que o seu amigo adquirira para impedir ( já então!) a destruição da flora e da fauna pelos activistas do lucro, mas também edificou o seu livro em muito do trabalho de base feito por Emerson, sobretudo na sua obra fundamental, Nature, de 1836. Outras fontes importantes foram os clássicos greco-latinos, a espiritualista literatura oriental, então pouco conhecida, os relatos de viagens e a cultura dos nativos americanos, ou Índios, a que Thoreau se dedicará profundamente.

Na realidade, a singular decisão de Thoreau tem por base uma dissidência, rejeitando ele o materialismo de escravos já então visível no comércio, na indústria, na tecnologia, em suma, no progresso material que posteriormente irá tornar os Estados Unidos a mais notória potência estatal do globo.

A crítica da emergente sociedade industrial que Thoreau exprime de modo visionário, ao apoiar-se nos poderes da natureza, era partilhada por outros indivíduos nos Estados Unidos, em especial pela eclética corrente, em que ele se integra, que ficou conhecida pelo nome de Transcendentalismo. Este movimento de ideias, oriundo da Europa, centrou-se, nos E.U.A., na Nova Inglaterra (e particularmente em Concord), e foi activo sobretudo entre 1830 e 1850. Teve como seu mais célebre mentor Ralph Waldo Emerson, congregando uma plêiade de indivíduos que abordaram todos os domínios da vida social, da educação ao regime prisional e à pena de morte, da pobreza ao casamento e à economia doméstica, dos direitos da mulher à paz e à escravatura. Mas as suas actividades principais foram sempre formas muito pessoais de expressão: «Discutiam, escreviam e viviam as suas ideias em vez de inventarem máquinas, criarem empresas comerciais ou introduzirem legislação.» (Michael Meyer) Uns exprimiam-se através do Clube Transcendental (1836-40) ou da revista trimestral The Dial (1840-44), animada por Emerson e onde Thoreau publicou os seus primeiros ensaios e poemas, outros fundavam efémeras comunidades utópicas como a Brook Farm (1841-47) ou a Fruitlands (1843-44).

Mas, sobretudo, a corrente transcendentalista constituía uma reacção à falta de integridade notória na vida americana, e é nisto que vemos Thoreau mais presente. Era parte dum impulso mais vasto com vista a reformas substanciais. O que atrai Thoreau no transcendentalismo não é o activismo social, é o desejo e a necessidade de cada pessoa se cultivar. Ele, aliás, não encarava com bons olhos os reformadores, propondo-lhes sempre que examinassem as suas próprias existências antes de se pronunciarem sobre as dos outros. É certo que em Walden o autor se expõe como exemplo de uma possível vida vivida «com simplicidade e inteligência»; mas longe dele prescrever um qualquer programa. Segundo Thoreau, só a disciplina individual, o crescimento intelectual e a evolução espiritual podiam constituir métodos para uma transformação em profundidade, não requerendo esta membros inscritos ou convenções.

Porque, para Thoreau, a verdadeira transformação é pessoal, interior, totalmente individual, correspondendo à descoberta da divindade em cada pessoa como elemento indissociável da natureza.

Júlio Henriques

Bibliografia:

1.    Walter Harding, The Days of Henry Thoreau, Knopf, Nova Iorque, 1967

2.  Michael Meyer, Introdução a Walden and Civil Disobedience, The Penguin American Library, 1983

aqui: http://www.antigona.pt/autores/henry-david-thoreau/

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desobediência civil

Henry David Thoreau. “A Desobediência Civil”.

Há seis anos que não pago o imposto per capita. Fui encarcerado certa vez por causa disso, e passei uma noite preso; enquanto o tempo passava, fui observando as paredes de pedra sólida com dois ou três pés de espessura, a porta de madeira e ferro com um pé de espessura e as grades de ferro que dificultam a entrada da luz, e não pude deixar de perceber a idiotice de uma instituição que me tratava como se eu fosse apenas carne e sangue e ossos a serem trancafiados. Fiquei especulando que ela devia ter concluído, finalmente, que aquela era a melhor forma de me usar e, também, que ela jamais cogitara de se aproveitar dos meus serviços de alguma outra maneira. Vi que apesar da grossa parede de pedra entre mim e os meus concidadãos, eles tinham uma muralha muito mais difícil de vencer antes de conseguirem ser tão livres quanto eu. Nem por um momento me senti confinado, e as paredes pareceram-me um desperdício descomunal de pedras e argamassa. O meu sentimento era de que eu tinha sido o único dos meus concidadãos a pagar o imposto. Estava claro que eles não sabiam como lidar comigo e que se comportavam como pessoas pouco educadas. Havia um erro crasso em cada ameaça e em cada saudação, pois eles pensavam que o meu maior desejo era o de estar do outro lado daquela parede de pedra. Não pude deixar de sorrir perante os cuidados com que fecharam a porta e trancaram as minhas reflexões – que os acompanhavam porta afora sem delongas ou dificuldade; e o perigo estava de facto contido nelas. Como eu estava fora do seu alcance, resolveram punir o meu corpo; agiram como meninos incapazes de enfrentar uma pessoa de quem sentem raiva e que então dão um chuto no cachorro do seu desafecto. Percebi que o Estado era um idiota, tímido como uma solteirona às voltas com a sua prataria, incapaz de distinguir os seus amigos dos inimigos; perdi todo o respeito que ainda tinha por ele e passei a considerá-lo apenas lamentável. Portanto, o Estado nunca confronta intencionalmente o sentimento intelectual ou moral de um homem, mas apenas o seu corpo, os seus sentidos. Ele não é dotado de génio superior ou de honestidade, apenas de mais força física. Eu não nasci para ser coagido. Quero respirar da forma que eu mesmo escolher. Veremos quem é mais forte. Que força tem uma multidão? Os únicos que podem me coagir são os que obedecem a uma lei mais alta do que a minha. Eles obrigam-me a ser como eles. Nunca ouvi falar de homens que tenham sido obrigados por multidões a viver desta ou daquela forma. Que tipo de vida seria essa? Quando defronto um governo que me diz “A bolsa ou a vida!”, por que deveria apressar-me em lhe entregar o meu dinheiro? Ele talvez esteja passando por um grande aperto, sem saber o que fazer. Não posso ajudá-lo. Ele deve cuidar de si mesmo; deve agir como eu ajo. Não vale a pena choramingar sobre o assunto. Não sou individualmente responsável pelo bom funcionamento da máquina da sociedade. Não sou o filho do maquinista. No meu modo de ver quando sementes de carvalho e de castanheira caem lado a lado, uma delas não se retrai para dar vez à outra; pelo contrário, cada uma segue as suas próprias leis, e brotam, crescem e florescem da melhor maneira possível, até que uma por acaso acaba superando e destruindo a outra. Se uma planta não pode viver de acordo com a sua natureza, então ela morre; o mesmo acontece com um homem.

aqui: https://social.stoa.usp.br/articles/0015/9008/A_DesobediA_ncia_Civil.pdf

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One comment

  1. Já havia lido a compilação “A Propriedade é um Roubo” de Proudhon, “Ana Karenina”/”Guerra e Paz” de Tolstoi e uma compilação de textos dele, Algumas obras de Dostoievski (“Memorias do Subsolo”, “O Jogador” , ” O Eterno Marido”, “Os Irmãos Karamazovi”. O anarquismo aqui no Brasil era muito discutido durante os anos 1920 e 1930!

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