(Debate) Resposta a “os anarquistas e a organização”


Cuarto-Estado

Car*s comp*s, espero tudo bem (pessoalmente e politicamente) convosco.

Escrevo após ter lido “(Debate) Os anarquistas e a organização”, do companheiro Luís Bernardes, que agradeço reconhecidamente, por ter-se relembrado das minhas palavras (no Encontro Libertário do ano passado) finalizadas a atrair a atenção dos presentes sobre o tema organizacional; foi uma intervenção breve, precária e confusa… mas sincera e motivada.

Permitam-me expressar umas opiniões sobre a questão, tendo presente que quem escreve não é um intelectual mas, e simplesmente, um militante revolucionário anarquista, um activista da luta de classe, um militante politico de base…e, por isso, os companheiros intelectuais (que eu, sem ironia, admiro  -e muito!- especialmente quando colocam os seus recursos intelectuais ao serviço da Causa para a construção duma Sociedade de Livres e Iguais, sem Estado e sem Patrões) poderão, eventualmente e caso seja preciso, corrigir-me.

Vemos um pouco. Quais são os “momentos” capazes de  unir  todos os anarquistas de todas as tendências (numerosas, seguro, mas sempre menos daquelas, por exemplo, do  “cosmo” autoritário, marxista e não só) de todos os tempos e de todas as latitudes? Fácil responder (e decorar), são somente 4: – Primeira Internacional (1864-1872 ; quer se decida que seja em Haia, quando se consuma a “fractura”, ou em Agosto, em Rimini, ou ainda em Setembro, em St. Imier…não importa, estamos sempre no ’72 e, por isso, podemos dizer, sem falta, que o Anarquismo politico tem 145 anos); – Comuna de Paris (1871), primeira real tentativa de libertar-se da tutela de “partidos” e instituições; – Revolução Russa (basta pensar no nascimento dos Soviéte, nas revoltas do 1905-08, em Kronstadt e na Macnovicina); – Revolução Espanhola (1936-1939) e até este ponto, digamos, o consenso é universal.
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Cada País, após, tem os seus “momentos”: estou aqui, em Portugal, e penso, obviamente, na experiência anarco-sindicalista ou em “A Batalha” que chegou a ser o terceiro (há quem diga o segundo) jornal diário mais vendido; na primeira manifestação da “nossa” presença (em Luis Bigotte Chorão, Para uma história da repressão do Anarquismo em Portugal no seculo XIX, Letra Livre, 2015 , se escreve: “…aparecera no Porto, em 1887, o jornal A Revolução Social (Orgão Comunista-Anarquista), cujo número programa deu a conhecer a declaração de princípios do Grupo Comunista-Anarquista em Lisboa”, também se, pessoalmente, tenho alguma perplexidade sobre isto considerando que, se bem relembro, além da Itália, Suiça, parte da França, da Bélgica etc., praticamente toda a península ibérica “tomou o partido” de Bakunin, não de Marx e do seu amigo empresário F. Engels, e, por isto, as sessões da Primeira Internacional, daqui já podemos, e legitimamente, considerá-las as primeiras expressões de inspiração libertária em Portugal…); nas tentativas generosas de libertar o planeta da odiosa presença do “dux” nacional durante a ditadura; no Campo do Tarrafal…; venho de Itália e não posso esquecer a “Settimana Rossa”, os “Arditi del Popolo”, “La Resistenza” e  em suma, seria a mesma coisa (tirando o caso de Cidade do Vaticano), para todos os 196 Estados do mundo; cada um tem a sua especificidade, a sua história e a sua “inspiração”, em relação às nossas ideias comuns.
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Bem, esta premissa, este quadro histórico geral cui prodest? poderíamos perguntar-nos. Primeiro, digamos, para “preservar a memória e história”, para usar as palavras de L. Bernardes; segundo para tentar de ultrapassar a obsessiva tentação de edificar “anarquismos pessoais” (como os cosmos pessoais, os pequenos e grandes rancores pessoais, os sonhos pessoais…em última análise, “as cadeias do meramente pessoal”, para citar A. Einstein ) e esforçar-nos para compreender a inestimável contribuição daqueles que vieram antes e finalmente, terceiro, mas não último por importância, para fixar o simples conceito que segue: “O Anarquismo não é uma fantasia bonita, não é um principio filosófico abstracto; é um movimento social das massas trabalhadoras. Precisamente por esta razão ele deve unir as suas forças numa organização permanente, bem como o exigem a realidade e a estratégia das lutas das classes!” (Delo Truda, 1926).
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E assim abordamos, sinteticamente, o “tema dos temas”: a Organização Politica dos Anarquistas.
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Outra breve e, espero, divertida  premissa. Relembramos o “frango de Diogene” ( “matei o homem…” – “…mas como, não é o homem? não disseste animal-mortal-bípede e implume?…”)? Em suma, ainda não havia a definição aristotélica de homem como “animal-mortal-racional-social”; e é exactamente sobre esta última denotação, “social”, que queria direccionar a atenção. Na verdade, tirando o caso dos eremitas (assumindo a livre escolha dum moderno S. António – não o de Lisboa-Pádua, mas aquele mais antigo de Alexandria, do qual refere Santo Atanásio no seu Vita Antonii – escolha que, imagino, ninguém de nós quereria impedir) os seres humanos vivem em grupo, “constituem-se” (por isto decidem dar-se “constituições”, isto é, as regras do seu próprio estar juntos…). Portanto, se as coisas se configuram deste modo eu pergunto: porque deveríamos constituir uma excepção? E se também sobre isto todos concordamos (e se digo “todos” é porque relembro que até os companheiros individualistas, especialmente nos momentos históricos de máxima criticidade – penso no período entre as 2 guerras, por exemplo – mostraram e demonstraram grande capacidade e atitude organizacional) só resta saber qual é o melhor modo para nos organizarmos.
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“…debate antigo, tão antigo quanto o anarquismo…” escreve Bernardes; como não concordar? Sobretudo em tempos em que “o novo”, sempre e contudo, parece prevalecer na agenda mental de muitos, hoje, como fosse absoluta garantia de bondade e de   melhoria; que tristeza causam estes evidentes comprometimentos cognitivos e déficits menemónicos! “O novo”, na Alemanha do ’33, tinha um nome e um apelido: Adolf Hitler! Por isso, nada preocupações sobre o arcaísmo da questão e do debate. Pensamos, por outro lado, a propósito de “cronologia”, que desde o começo a coisa foi adequadamente considerada (relembramos as “indicações” a Fanelli – que foi também aqui, além de Espanha, se não erro – ou a “Carta aos Amigos da Itália”…) e que “o final” do texto de Bernardes ( “…cada vez mais urgente.”) se converte facilmente num essencial “inicio” para os militantes anarquistas mais conscientes e responsáveis. Ainda, como não pensar nas situações históricas em que a força (militante) moral, a resistência, a firmeza revolucionária de muitos “obscuros” companheiros “de base” constituíram a única garantia para evitar a destruição e a aniquilação de tudo o que se tinha construído até àquele momento?
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Quando, nos anos ’80 do século XIX, em Itália, todos os big estavam fora de jogo, como se costuma dizer (Cafiero anulado pela demência, Cipriani já no Egito, Galleani detido, como Gori e Molinari, Malatesta em fuga para Londres, os outros exilados ou em confinamento…), bem, quem, se não os “Carnéades” de turno (os vários Mingozzi, Monticelli…) colocaram-se como baluarte na defesa daquele pouco ou muito que se concretizou? O mesmo aconteceu poucos anos após; enquanto Malatesta (segundo período londrino) tentava desesperadamente encontrar uma estratégia para contrastar a inelutável avançada reformista (estamos na véspera do Génova, 1892, nascimento do Partido Socialista Italiano), tudo indicava, e todas as reflexões eram neste sentido, a urgência de “reagrupar” o existente, através da tutela da rede organizacional e da salvaguarda das estruturas efectuais; como sempre, foram os companheiros organizados que, simplesmente, garantiram a continuidade.
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E estes constituem só micro exemplos que, naturalmente, deveríamos multiplicar no cenário internacional e por isso concluir, se queremos ser totalmente honestos, que sem estes companheiros eu (politicamente) não existiria e, comigo, toda a área comunista-anarquista (e, claro, dado que não tenho motivo para esconder nada, a sua melhor expressão, que continua a ser a chamada Plataformista), mas, companheiros, não existiriam também os “sintetistas” de todas as formas e natureza, nem os anarco-comunistas, os educacionistas, os individualistas, os anarco-sindicalistas, os tolstoianos, os ilegalistas… em suma, numa palavra, acabaria de existir o Anarquismo, simplesmente.
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Com A. M. Bakunin tivemos a Ideia, mas foram necessários mais de 50 anos (meio século de história ideal e de lutas, de “prémios” e de derrotas…) para ter, enfim, um Projeto. Este o grande mérito e o enorme valor daquela insuperável intuição representada por  “A Plataforma de organização da União Geral dos Anarquistas (Projeto)”. Os companheiros russos, fortes da experiência vivida e, naturalmente, também do conhecimento do que tinha acontecido ao movimento anarquista internacional aqui, na Europa, mas também noutras zonas do planeta…elaboraram uma proposta organizacional desde então sem igual; uma proposta que só as circunstâncias e as “contingências” (histórico-politicas), juntamente com, obviamente, o grande “empenho” e a incessante acção dos “anti-organizadores”, firmemente ao trabalho neste sentido, impediram de desenvolver todo o seu enorme potencial teórico-politico.
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Além de tudo isto, e apreciando a indicação bibliográfica fornecida no texto de Bernardes, permitam-me, a propósito do debate da era e, especialmente, do que E. Malatesta escreveu in toto (antes de concluir em modo talvez “apressado” e “parcial”…) de indicar umas essenciais e breves leituras capazes de dar o “quadro” exacto e, sobretudo, completo, do “confronto” dialéctico-politico:
Resposta aos confusionistas do Anarquismo e à “Resposta à Plataforma” assinada por uns anarquistas russos, Grupo dos Anarquistas Russos no Estrangeiro, Agosto 1927;
Sobre um projeto de organização anarquista, L. Fabbri, Setembro 1927;
Um projeto de organização anarquista, E. Malatesta, Outubro 1927;
A propósito da “Plataforma de organização”, Nestor Makhno (resposta a Malatesta), 1928;
O velho e o novo no Anarquismo, Petr Arsinov (resposta a Malatesta), Maio 1928;
Resposta a Nestor Makhno, Errico Malatesta, Dezembro 1929;
A proposito da “responsabilidade coletiva”, Errico Malatesta, Abril 1930;
Uma segunda carta a Malatesta, Nestor Makhno, Agosto 1930.
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Obrigado pela atenção e Saudações Anarquistas.
 .
Virgilio Caletti
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