(memória libertária) Honra aos mártires de Chicago


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FRAN FERNÁNDEZ

(…) Em Abril de 1886 as greves começaram a propagar-se a diversas cidades dos Estados Unidos, assim como os primeiros conflitos com o patronato, tais como Lock-outs (fechos patronais), utilização de fura-greves nos locais de greve (nos Estados Unidos conhecidos como scabs) ou confrontos entre o proletariado em luta e grupos armados (a agência Pinkerton destacou-se neste tipo de operações). A tensão social nalgumas zonas dos Estados Unidos era muito grande e no 1º de Maio a greve geral (pelas 8 horas de trabalho) em cidades como Chicago foi efectiva.

Chicago albergava uma comunidade anarquista bastante ampla e muitos eram operários e operárias migrantes de diversas zonas da Alemanha. Nesta cidade o anarquismo era o movimento socialista mais numeroso e importante e deram a esta luta a favor das 8 horas um significado de confronto directo contra as classes dominantes.

Tal como noutras cidades como Nova Iorque, Baltimore, Pittsburg, Washington, São Luís ou Boston, em Chicago alcançou-se a jornada de 8 horas em vários ramos profissionais como os carpinteiros, os embaladores, os tipógrafos ou os mecânicos, assim como uma redução da jornada a 10 horas com aumento de salário para os trabalhadores do sector da carne, padeiros e cervejeiros. De facto, mesmo antes do 1º de Maio e durante esse mês, centenas de milhares de trabalhadores conseguiram a redução da jornada laboral sem perda de salário. No entanto, nem em todos os sítios se celebrou a vitória. Em Milwauke, no contexto da greve, deram-se os acontecimentos da Bay View Massacre a 5 de Maio, onde sete grevistas foram assassinados a tiro. No caso de Chicago, os acontecimentos anunciaram o dramatismo dos incidentes de Milwauke, visto que uns milhares de trabalhadores foram reprimidos quando se dirigiam para a fábrica McCormick, a qual usava fura-greves como mão-de-obra para evitar a paralisação. Face a esta situação os agentes da Agência Pinkerton e as forças policiais dispersaram à força de balas a multidão encolerizada, provocando 6 mortos e várias dezenas de feridos.

Se tivermos em conta que em Chicago a luta e o antagonismo de classe eram muito marcados, com as elites dirigentes reaccionárias e agressivas frente às reivindicações sociais e, no outro extremo, um potente movimento socialista de carácter anárquico, com meios de propaganda estáveis e potentes, como as publicações Arbeiter-Zeitung, dirigida pelo anarquista August Spies e escrita em alemão, ou The Alarm, escrita em inglês sob a direcção de Albert Parsons, assim como a existência de várias organizações, grupos e indivíduos activos que fortaleciam a luta a favor da emancipação social, tais como as personalidades antes mencionadas ou William Holmes, Lucy E.Parsons, Sara E. Ames, William Patterson, James D. Taylor e muitas mais, podemos entender a magnitude dos factos nesta cidade: a luta de classes era uma realidade palpável no ambiente.

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A bomba de Haymarket de 4 de maio de 1886

Depois da tragédia da fábrica McCormick sectores anarquistas e operários convocaram um comício na Praça Haymarket, num contexto de forte ira e raiva pelo que tinha acontecido apenas umas horas antes. De facto, uma primeira versão do cartaz que convocava esse acto apelava a que os operários deviam ir armados e preparados para o que fosse preciso ((“Workingmen Arm Yourselves and Appear in Full Force!”), ainda que na versão final, ao que parece, foi psoto de lado essa expressão face à recusa de Spies em participar no comício se esse apelo existisse. Na verdade, o comício reuniu vários milhares de pessoas, muitas delas acompanhados dos filhos, dado o cariz pacífico que tomou.

Sob uma chuva leve e já ao entardecer teve início o comício com o discurso de August Spies, seguido depois pelos de Albert Parsons e Samuel Fields. Quando o encontro estava prestes a finalizar e sem que nada parecesse que perturbava  o ambiente, fortemente vigiado por forças policiais e agentes da Pinkerton, os corpos repressivos decidiram atacar a concentração, dispersando violentamente as pessoas reunidas na praça. Nesse preciso momento o estrondo de uma bomba lançada contra a polícia ensurdeceu o local.

O polícia Mathias J. Degan morreu em resultado desse acidente laboral, enquanto outros ficaram feridos, ainda que, mais uma vez, o pior ficou para os trabalhadores já que, depois da explosão, das correrias desesperadas e dos disparos policiais, houve mais mortos e uma quantidade indeterminada de feridos. Ainda se desconhece quem foi o autor material do atentado, facto que faz com que qualquer explicação ou hipótese possa ser possível.

A repressão policial posterior foi intensa e foram detidos vários anarquistas, os quais seriam vítimas de um processo judicial que terminou com a execução de vários deles e a prisão de outros. Os detidos que foram julgados foram Albert Parsons, Oscar Neebe, August Spies, Adolf Fischer, Louis Lingg, Michael Schwab, Samuel Fielden e George Engel. Excepto Fielden, Neebe e Schwab, que tiveram penas de prisão, os outros foram condenados à morte pela forca, o que aconteceu a 11 de Novembro de 1887. Louis Ling suicidou-se umas horas antes na sua própria cela, depois de acender um pequeno explosivo (talvez num cigarro) que lhe queimou a cara e o fez agonizar durante algumas horas. Tudo isto aconteceu depois de um julgamento de palhaçada no qual se julgaram mais as ideias do que os possíveis autores materiais do que aconteceu na praça Haymarket a 4 de Maio de 1886.

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A inocência ou culpabilidade pela explosão do dia 4 de Maio foi apenas uma desculpa para abrir um processo contra o anarquismo e os seus elementos mais radicais, conhecidos como Reds. A imprensa burguesa de todo os Estados Unidos, assim como as elites de Chicago e de outras cidades importantes iniciaram uma campanha contra o anarquismo que se revestiu, sem dúvida, de traços xenófobos, uma vez que parte importante dos operários radicalizados eram migrantes e essa campanha tentava, precisamente, separar o “bom trabalhador” nascido na América do migrante europeu radicalizado e anarquista.

O legado por detrás das execuções de 11 de Novembro de 1887

 “O processo aos anarquistas de Chicago foi uma autêntica infâmia e mostrou ao mundo inteiro que na república liberal mais prestigiada do mundo se perseguia e exterminava os trabalhadores socialistas do mesmo modo que em Espanha, Itália, França ou Alemanha. Cabe acrescentar que não só se executaram estes activistas, como também se fecharam centros operários e se praticaram todo o tipo de detenções e maltratos. A vergonha e a arbitrariedade do processo iniciado a 21 de Junho de 1886 no tribunal de Cook County foi tal que, em 1893, o próprio governador John P. Altgeld concedeu a liberdade aos presos, por reconhecer a falsidade do processo. (ALTGED, John P. Reasons for Pardoning Fielden, Neebe & Schwab, the Haymarket Anarchists, 1886, n.c., The Anarchist Library, 2012).

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Caricatura contra John P. Altgeld por rever o caso dos Mártires de Chicago.  O “perdão” (lê-se na faca) soltaria os “cães raivosos” e um deles, já solto, é o do Socialismo que está prestes a atacar uam mulher que, pelas suas roupas, representaria a típica dona de casa protestante e de ascendência anglo-saxónica. Ao fundo, a reprodução do monumentos aos polícias mortos e feridos pela bomba de 4 de Maio de 1886.

Contudo, se analisarmos quem eram os membros do júri é fácil compreender o resultado final da sentença a que chegou: todos eram americanos de nascimento, brancos anglo-saxões, protestantes e racistas e, incluso, dizia-se que um era familiar de um polícia afectado pelos acontecimentos de 4 de Maio. Era, realmente, um júri muito pouco imparcial. A desgraça, por outro lado, acompanhou Michael Schwab depois de ter sido posto em liberdade, já que morreu poucos anos depois de ter sido libertado, em 1898, devido a uma doença respiratória contraída durante o seu cativeiro.

Depois da sua morte, os mártires alcançaram grande projecção internacional, formando parte do imaginário político operário, e transformando-se num referencial para uma multidão de explorados do mundo ocidental.

No Congresso da II Internacional de 1889 foi decidido relançar a jornada de luta do 1º de Maio, sendo especialmente activos os primeiros de maio de 1890 e 1891, ainda que as diferenças de opinião entre anarquistas e marxistas provocassem a divisão no movimento operário internacional, quebrando o seu espírito combativo, reivindicativo e unitário da jornada que em Maio de 1886 agitou os Estados Unidos.

O marxismo, face a um anarquismo que em quase todos os estados ocidentais tinha a vantagem numérica, preferiu, em geral, adoptar um perfil baixo nestas jornadas, com manifestações e comícios pacíficos, ao contrário do anarquismo, que considerava estas jornadas como um pretexto, não só para conseguir as 8 horas de trabalho, mas também para aumentar a tensão social, com a perspectiva posta numa possível insurreição. Estas divisões e o peso internacional da repressão provocaram que já em 1893 ou 1894 o 1º de Maio, como tal, fosse particamente um pouco esquecido e não voltou a florescer com forte durante bastantes anos.

Em qualquer caso, o 11 de Novembro foi uma data muito recordada nos ambientes operários até aos primeiros anos do século XX, e ainda que praticamente relegada ao esquecimento nos nossos tempos, atrás da celebração do 1º de Maio, que ainda se mantém nos nossos dias, está a marca destes operários que foram executados pelas suas ideias e pelo seu activismo social, e não por serem os autores da bomba lançada a 4 de Maio em Chicago.

As imagens são todas da Haymarket Affair Digital Collection.

daqui: https://serhistorico.net/2016/11/04/11-de-noviembre-de-1887-ejecucion-de-los-martires-de-chicago/

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