(“A IDEIA” à Conversa com Carlos Taibo) Sobre a Revolução Russa


taibo

Carlos Taibo (n. 1956) é um sociólogo e activista ligado ao movimento libertário espanhol. Com vasta obra, o seu pensamento singulariza-se em cruzar a tradição libertária – apoio mútuo, autogestão, federalismo – com a ideia de decrescimento (Sérgio Latouche). Acabou agora de publicar Anarquismo y revolución en Rusia [1917-1921] (Los Libros de la Catarata, Madrid, 2017, 288 pp.), um largo estudo em oito capítulos em que se abordam os tópicos libertários da revolução russa – a oposição conselhista bolchevique, as diversas correntes do anarquismo russo, a comuna rural, a participação libertária nos sovietes, a aberração produtivista, a revolta de Cronstadt, a guerrilha camponesa na Ucrânia e a figura de Nestor Makno. Mantivemos com ele uma conversa sobre o livro e as questões mais escaldantes da revolução.

– Publicaste um livro sobre a convulsão social russa de 1917. Fala-nos do teu livro e das motivações que te levaram a escrevê-lo.

 – No livro juntam-se duas linhas de trabalho às que dediquei muita atenção nas últimas décadas: o estudo do mundo russo-soviético e o interesse pelos movimentos emancipatórios de natureza libertária. Além disso, achei que era preciso desenvolver uma leitura do sucedido em 1917 diferente das que oferecem a vulgata liberal e a leninista, e lembrar as muitas pessoas que lutaram pela autogestão, a acção directa e o apoio mútuo.

 – Kropotkine regressou na Primavera de 1917 à Rússia depois de muitos anos de exílio e aí se manteve até ao seu falecimento em Janeiro de 1921. Quais as suas relações com a revolução?

– As relações de Kropotkine com o mundo libertário russo foram comumente tensas, em parte pelas discrepâncias que mantinha com o anarco-sindicalismo, e em parte pela sua posição em relação à guerra mundial. Do meu ponto de vista, Kropotkine percebeu com claridade a deriva do projecto bolchevique e mostrou-se cada vez mais afastado do horizonte duma colaboração com as novas autoridades. Na etapa final desses anos o mestre foi uma espécie de Tolstoi que, canonizado, acolhia dissidentes e perseguidos.

espanha-lancamento-anarquismo-e-revolucao-na-rus-1– O anarquismo na Rússia granjeou no final do século XIX um prestígio que lhe vinha de figuras tão marcantes como Bakunine, Kropotkine e Tolstoi. O movimento libertário que saiu dos levantamentos de 1917 parece pois ter ganho vitalidade própria, com episódios, factos e figuras marcantes, que duram pelo menos até à morte de Kropotkine. Do teu ponto de vista quais as suas particularidades mais óbvias e os seus avanços naquele contexto social promissor?

– O mérito principal foi a capacidade de desenvolver movimentos amplos que, não sendo estritamente anarquistas, assumiram na sua prática real as propostas correspondentes. Estou a pensar, para resgatar vários exemplos, no sucedido no seio de sovietes e comités de fábrica, na revolta de Cronstadt e na guerrilha camponesa que associamos ao nome de Nestor Makno. Em sentido diferente, é certo que os anarquistas russos não foram capazes de enfrentar as divisões internas — por exemplo entre anarco-comunistas e anarco-sindicalistas – e não conseguiram construir uma organização comum. Mesmo assim, ofereceram um muito interessante projecto alternativo que infelizmente foi reprimido com dureza por um poder bolchevique cada dia mais autoritário, hierarquizado e afastado dos interesses dos trabalhadores.

– Como vês Pedro Archinov, o autor da História do movimento maknovista (1928) e que ensaiou uma síntese entre bolchevismo e anarquismo?

– Não vejo que esse fosse o projecto de Archinov, uma figura a quem devemos boa parte do nosso conhecimento relativo à maknóvshina. Sem a sua História do movimento maknovista a memória correspondente ter-se-ia perdido. Porém, esse texto tem, tal como A revolução desconhecida de Voline, uma visível dimensão hagiográfica. Está perto de mais dos acontecimentos para podermos acreditar em todas as suas dimensões.

 – O Lenine que escreve O Estado e a revolução no Verão de 1917, antes da tomada do poder de Outubro/Novembro, e que encara o Estado como um aparelho repressor ao serviço da dominação e da exploração, reclamando a passagem do poder aos conselhos, não parece o mesmo que poucos meses depois dirige toda a sua estratégia para a monopolização do poder de Estado a favor dum partido único. Que mudou?

 – As posições de Lenine entre Abril e Outubro de 1917 foram conjunturais e interessadas. Respondiam ao propósito de evitar um afastamento perigoso do partido bolchevique em relação ao impulso social libertário que se manifestava nas fábricas e nas frentes de combate. A partir de Outubro a posição de Lenine mudou em proveito de critérios mais tradicionais – estatistas, dirigistas e visivelmente críticos da democracia de base e da autogestão.

– A tomada do Palácio de Inverno em Petrogrado e do Kremlin em Moscovo em Novembro de 1917 (calendário russo) foram para ti um golpe de Estado ou uma revolução social?

– Foi em essência um golpe de Estado, embora erguido sobre o impulso duma revolução social que reclamava o desenvolvimento de muitas medidas que estavam no programa bolchevique. Certo é, em paralelo, que se tratou dum golpe de Estado num cenário marcado pela inexistência do próprio Estado.

 – As revoluções russas de 1917 parecem pertencer a um ciclo de convulsões sociais que tiveram o seu epílogo na revolução social espanhola de 1936. Que podemos hoje tirar de útil para o futuro imediato de acontecimentos que tiveram lugar há cem anos e que não mais se voltarão a repetir segundo as fórmulas do passado?

– A lição principal, do meu ponto de vista, é que temos a obrigação de procurar aproximação às muitas pessoas que, anarquistas ou não, praticam a autogestão, e estão conscientes, do risco de um colapso geral do sistema. Mas se calhar estamos a assistir, além disso, a uma reaparição, talvez fantasmagórica, de muitos elementos do passado que obriga, por exemplo, a recuperar o sindicalismo de combate que foi desenvolvido pelos nossos companheiros há muitas décadas.

(Entrevista publicada na revista “A IDEIA”, nºs 81-83, 2017)

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