PCP: o que fazer com esta palavra comunismo?


pcp

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“Liberdade sem socialismo é privilégio, injustiça; socialismo sem liberdade é escravidão e brutalidade.” 

Bakunin

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Historicamente, o PCP foi fundado exactamente há 97 anos, no dia 6 de Março de 1921, numa reunião em Lisboa, quatro anos depois, e sob o impacto ainda, da Revolução russa.

Dizem as notícias da época que a reunião terminou com vivas ao PCP e à CGT, a central sindical da altura, anarcosindicalista e hegemónica no meio dos trabalhadores em Portugal.

Ao contrário de outros países, os anarquistas não tiveram qualquer papel na criação do PCP, que foi obra de antigos marxistas e sindicalistas sem qualquer marca ideológica que, muito depressa, começaram a combater os anarquistas nos sindicatos e a criar um movimento sindical paralelo, à margem da CGT, sempre que podiam.

Após o golpe militar de 28 de Maio de 1926, e com a acentuada repressão sobre a CGT e o movimento operário de índole anarquista, o PCP vive um período relativamente calmo, só interrompido pela jornada de 18 de Janeiro de 1934 contra a fascização dos sindicatos. Por proposta da CGT e do movimento libertário, os comunistas e os socialistas decidem participar numa jornada de protesto contra a tentativa do governo fascista de controlar totalmente as estruturas sindicais, cujas direcções teriam que, a partir de então, ser aprovadas pelo poder político e sujeitas a estatutos uniformes elaborados pelo governo.

Esta ingerência era inadmissível para o movimento operário organizado na CGT, que decretou uma greve geral à margem do “status quo” salazarista. A greve mobilizou milhares de trabalhadores nos locais onde a CGT tinha uma forte influência: margem sul (Almada, Barreiro, Alentejo, Silves…), enquanto que nos locais onde o PCP era mais influente redundou em fogachos de poucas horas (Marinha Grande, por exemplo) ou até em acções meramente provocatórias – a explosão de uma bomba na véspera do início do movimento na Póvoa de Santa Iria, pondo a polícia de sobreaviso. (Fátima Patriarca: Sindicatos contra Salazar)

Anos depois, Bento Gonçalves (secretário-geral do PCP) diria que o movimento foi uma “anarqueirada”, eventualmente referindo-se às acções que os seus camaradas na altura levaram a cabo…

Presos às centenas os anarquistas, conhecidos por estarem na direcção dos sindicatos e por serem os elementos políticos mais activos e combativos, as suas organizações são desmanteladas e os seus líderes exilados (muitos irão, pouco depois, abrir o Campo de Concentração do Tarrafal).

Alguns comunistas são presos nesta ocasião, mas com uma actividade mais limitada e sem uma verdadeira inserção no movimento operário, algumas das suas estruturas são deixadas incólumes (nomeadamente as Juventudes) e, mais tarde, sob a ajuda directa da União Soviética, e dos seus apoios económicos, reconstruidas em termos de equipamentos e funcionários. (Milhazes: Cunhal, Brejnev e o 25 de Abril)

Ao mesmo tempo que os sindicatos dirigidos pelos anarquistas eram fechados por não aceitarem a tutela governamental, diversos comunistas aceitavam participar nos sindicatos fascistas, assumindo um colaboracionismo que os anarquistas nunca aceitaram.

Com a União Soviética em plena época expansionista – em que a palavra de ordem era dar força aos partidos comunistas nacionais para servirem de retaguarda e de forças avançadas da “pátria do socialismo” – , com a derrota anarquista na revolução espanhola, com os seus militantes mais esclarecidos e determinados presos, o que aconteceu em Portugal (e também na generalidade dos países da Europa e do continente americano) era previsível: a pouco e pouco os anarquistas foram cedendo o espaço e o palco aos comunistas, num mundo bipolarizado entre a União Soviética e o “Ocidente”.

Apesar desta profunda separação ideológica, os que lutavam na trincheira de revolução social – anarquistas e comunistas – pouco se diferenciavam em termos sociais: operários, trabalhadores agrícolas, povo explorado a lutar por melhores condições de vida e por uma sociedade mais justa, sem explorados nem exploradores, sem opressores nem oprimidos. Muitos, de um e de outro lado, sofreram na prisão, outros com a morte, o desejo de um mundo novo.

Os que os diferenciava e diferencia é a postura ideológica, os princípios que estão na base da construção dos ideais com que cada um conforma a sua visão da realidade. E que teve claras consequência práticas, como a história hoje nos demonstra.

O pensamento marxista-leninista, ainda hoje reivindicado pelo PCP, assenta numa visão autoritária da sociedade, hierárquica e modelada por um estado-maior que tudo dirige e controla. Aspira a conquistar o poder e , a partir do Estado, “mudar” a sociedade. Em seu nome cometeram-se os maiores crimes da humanidade no século XX, só comparáveis com os crimes do nazi-fascismo.

Ditaduras imensas, para os povos que as sofreram, de Stalin a Pol Pot, dos ditadores africanos à Coreia do Norte há muito para escolher, mas com um mesmo denominador: regimes sanguinários que fizeram com que palavras como socialismo ou comunismo, antes sinónimos de igualdade e liberdade, sejam hoje sinónimos de barbárie e despotismo.

O marxismo, como antes já Bakunin sublinhara, ao fazer tábua rasa da liberdade e da autonomia individual e colectiva, serviu de alimento teórico às ditaduras que, em nome do proletariado e do povo, no último século destruíram por completo o legado socialista e revolucionário dos precursores do movimento operário, que propugnava um mundo novo, igualitário e fraterno,  para o género humano

O PCP é cúmplice destes crimes contra a humanidade. Não por ter exercido o poder (se o tivesse exercido teria sido, teoria oblige!, tão miserável como aqueles de cuja história se reivindica e que usaram e abusaram do poder – URSS, democracias de leste, etc.), mas por ter sido cúmplice de muitas décadas de espezinhamento dos direitos mais elementares em várias partes do mundo e se ter aproveitado do apoio económico e logístico desses regimes em troca do seu silêncio e aplauso. (Milhazes: Cunhal, Brejnev e o 25 de Abril )

Hoje, 100 anos depois da revolução russa, palavras como socialismo ou comunismo, que mobilizaram, exaltaram, deram esperança e alento a milhões de trabalhadores, de pobres e de excluídos por todo o mundo, transformaram-se em sinónimo de opressão, morte e exploração. O autoritarismo marxista, que está na base das propostas políticas do PCP, a isso conduziu. Como conduziu, mais abruptamente, o leninismo. O stalinismo e os outros regimes despóticos saídos do socialismo real foram apenas a consequência lógica de uma ideologia que refuta a liberdade e a autonomia individuais e colectivas, dando primazia a um grupo de “escolhidos” ou eleitos (sabe-se lá por que deuses) para gerirem a sociedade no seu todo.

Pela data que hoje se assinala, o PCP está de parabéns. Mas, apesar de ter tido um papel importante na luta contra o fascismo em Portugal, nada o diferencia dos regimes que sempre apoiou – e que representam regimes bárbaros, autocráticos e violadores dos valores mais elementares de liberdade e igualdade que, no século XX, só tiveram paralelo com os regimes fascistas e totalitários da extrema-direita.

São a cara e a coroa da mesma moeda.

Merecerá que alguém lhe dê os parabéns?

A.Nunes (recebido por email)

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