(Lisboa) Jornadas de saúde mental antiautoritária começam esta sexta-feira na Disgraça


Na Disgraça (Rua da Penha de França 217 a/b, Lisboa)

Entre as tantas formas de domínio às quais os nossos corpos estão sujeitos, o esgotamento físico e emocional das nossas mentes é o mais alarmante e, sobretudo, é aquele que parece estar mais longe de ser solucionado, devido à sua complexidade e aos aspetos da esfera social com que ele está relacionado. As pressões que sofremos para que os nossos corpos se encaixem num modelo de vida “normal e normativo” têm repercussões no estado das nossas saúdes mentais, cujas falhas são-nos premeditadamente apresentadas, cada dia mais, como algo de demasiado complexo para serem solucionadas com as práticas da saúde autogestionada. Em realidade, a saúde da mente não é algo de muito diferente da saúde inerente a outras partes do corpo, sendo que é possível desenvolver estratégias de fortalecimento e defesa já a partir de nós proprixs, sem devermos recorrer aos ditames das ciências autoritárias do sistema de saúde dominante. O Grupo de Saúde Antiautoritária (GO.S.A.)organiza dois fins de semana  para repensarmos as práticas para cuidar da nossa saúde mental, a partir de uma perspetiva autogestionada e antiautoritária!

As Jornadas decorrerão no espaço Disgraça (Rua da Penha de França 217 a/b, Lisboa)

Programa 29 de junho – 1 de julho

29 de junho

20h Jantar de apoio à organização das Jornadas
21h30 Conversa de abertura, aberta e descontraída, sobre a saúde mental e apresentação das Jornadas (dinamizada por GO.S.A.)

30 de junho

14h-17h Oficina de bordados
Esta oficina visa partilhar conhecimentos necessários para a execução de alguns pontos básicos de bordado de forma a valorizar modos de produção manuais enquanto ferramentas de auto-expressão.

17h30-18h30 Pranayama e kirtana
Saber respirar pode (e deve) ser uma ferramenta essencial na nossa caixa de primeiros socorros emocionais e mentais. Este workshop, visa compreender este movimento natural que sustenta a vida e que interliga a mente ao corpo (e vice-versa) através da criação de estados emocionais, mentais e bioenergéticos positivos. Já o exercício de “cantar” ou verbalizar certos sons cria uma vibração benéfica para a mente e para o corpo.
Para este workshop, levar: Manta e Colchonete, roupa confortável e meias ( workshop feito descalço )
Entrada livre sem limitação.

19h Apresentação da edição portuguesa do livro Vamos sair desta. Guia de saúde mental para o meio social da pessoa em crise (2018), pelo seu autor Javier Erro e por GO.S.A.
“Todas as pessoas têm saúde mental, e esta pode andar melhor, pior, ou numa montanha russa. Durante muitos anos, a ideia de que temos saúde mental foi sendo reduzida aos problemas de saúde mental. Tê-la em consideração somente quando nos causa problemas dá a entender que no resto das circustâncias é um fator a que não devemos prestar atenção e que a saúde mental é, em si, um tema problemático. Isto leva-nos a não saber como reagir quando esses problemas forem muito complexos ou nos parecerem estranhos, esquecendo a capacidade que temos de nos apoiarmos umas à outras e ocultando a nós próprias, também, a realidade de que o sofrimento psíquico é muito mais comum do que cremos (ou até mesmo universal). Assim sendo, o que em primeiro lugar queriamos deixar claro é que não só deve haver uma reação ante os problemas de uma pessoa quando esta já se encontra em crise, como o ideal seria aprender a cuidar umas das outras no nosso dia a dia.”

20h30 Jantar de apoio à organização das Jornadas

21h30 Conversa sobre prisões e saúde mental, com António Pedro Dores e Vera Silva
Se o império for um estado mais avançado da hegemonia da economia capitalista no mundo, como se poderia explicar o forte crescimento da prática do encarceramento na era da globalização sobretudo financeira? Se, em vez disso, o estado for uma forma de concretização do império, um modo particular de organizar a vida em sociedade, resultado da evolução das mafias em representantes dos proprietários e destes em representantes das nações, as prisões seriam um dos modos de limitar a acção das mafias concorrentes e, também, de seduzir e intimidar os povos submetidos. Se o estado for entendido como uma entidade social distinta das nações, dos povos e das prisões, não se percebe como pode persistir com a economia e a sociedade contra si. Se, ao invés, o estado for entendido como uma forma de concretização das alianças entre as pessoas, os mercados e a administração pública, mais fácil será compreender o uso dado aos presos, como bodes expiatórios utilizados por quem tenham mais poder contra quem esteja fragilizado, para satisfazer necessidade de satisfação de sentimentos de retaliação. A discussão do valor relativo destas duas concepções das prisões (sociedade à parte ou lastro perverso do poder social) baseia-se em dois textos: “Quem são os presos?” e “O império”. A discussão sobre o sentido da presença do império na nossa vida quotidiana permitir-nos-á pensar a utilidade e eficácia da prisão para os estados capitalistas. As estratégias misóginas, heteronormativas e racistas incorporadas em nós foram e são fundamentais para a perpetuação da organização imperial, cujas elites dependem da existência de prisões e de manicómios produzidos e legitimados pela criminologia e pela psicologia forense, aliadas na conceptualização mistificadora da sociopatia e da psicopatia. Evocam-se a histérica, a prostituta, a mulher criminal, e xs respetivos filhxs, porque são figuras modelo da especialização do exercício do poder e servem ainda hoje para pensar e compreender a prisão e a saúde mental.

1 de julho

14h-17h Roda de partilha de experiências
Tempo e espaço de partilha de histórias pessoais no contexto da saúde mental. A escuta e a verbalização, por nos provocarem interiormente, contribuem para a compreensão da dor psíquica, amenizam o sentimento de solidão e podem ajudar a desconstruir preconceitos. As dinâmicas de interação pessoal são essenciais para uma abordagem de saúde mental anti-autoritária e para devolvermos o domínio sobre nós a nós próprixs.

17h30 – 19h Oficina de “Libertação de rotinas mentais”, por Carlos
Nesta oficina vou abordar um fenómeno humano que considero ser fundamental compreender para melhor viver: o processo do “encadeamento involuntário” de pensamentos que a natureza do nosso cérebro proporciona. Procurarei criar um espaço de reflexão e compartilha de ideias e experiências, para o qual contribuirei com vários recursos, tais como poemas, vídeos, pinturas, excertos de livros, entre outros. Em consonância com a reflexão crítica sobre a hegemonia das especialidades médicas que operam sobre a nossa sociedade, procurarei não me basear numa única tradição, mas em várias e em ideias e práticas de pessoas e comunidades que poderão parecer não relacionadas. O objetivo deste bocado de vivência é sobretudo prático. Se pretendo dedicar cerca de metade da hora e meia da duração desta oficina à partilha de ideias é com a motivação de estimular novas formas de percepção sobre este assunto, por vezes apresentado de modo demasiado abstracto, anacrónico e/ou através de lugares-comuns que não contribuem para o entusiasmo que o devia animar. Além disso, compartilharemos, de facto, exercícios de relação com o labirinto do pensamento que vão envolver a simples atenção a estímulos auto-gerados, como a respiração, ou a outros gerados externamente como sons e ritmos. Tal como a parte mais “teórica”, o objectivo da parte prática é radicar o espirito do DIY e a investigação e experimentação livre. Para quem não está convencido da importância da reflexão e prática sobre este fenómeno ou, sequer, alerta da sua existência, convido a aparecer, de modo a experimentar o que podem ser técnicas de “Libertação de Rotinas Mentais” e, sobretudo, os seus efeitos benéficos para a ecologia emocional de cada um. À nossa!

Mais info em https://www.facebook.com/events/1917303721894165/ e programa do fim de semana 6-7 e 8 de julho a ser lançado em breve!!!

GO.S.A. Grupo de Saúde Antiautoritária

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One comment

  1. Gostaria muito de participar nas jornadas de saúde mental, mas é muito longe para mim. Resido no Porto. Gostaria de receber as apresentações sobre o tema. Estudo Psicologia e interessou-me muito por perceber a mente humana.

    Tenho a sensação de que li algures que iria haver um evento com o titulo “ANARCA PORTUGAL” nos dias 19 e 20 de Julho. Entretanto não vi mais nada.

    Gostaria que me confirmassem se efectivamente vai acontecer algo no genero aqui no porto, pois que estou interessada em conhecer.

    Aguardo resposta

    Odete

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