Mês: Setembro 2018

“O capitalismo ameaça não apenas o seu fim, como o fim de toda a humanidade”


Comunicado do GERA – Grupo Erva Rebelde Anarquista – distribuído na Marcha do Clima (Porto)

POR UMA COMUNIDADE DE PARTILHA

O capitalismo subiu mais um degrau da escada da loucura, aproxima-se agora do ponto de não-retorno, e ameaça não apenas o seu fim, mas o fim de toda a humanidade.

A passagem no Ártico aberta para sempre não é uma nova oportunidade de negócio.

O mundo em chamas, o avanço dos desertos, a terra ressequida e estéril, a fome e as migrações forçadas, cada vez mais ilhas a ficarem submersas, este é o retrato atual de um planeta sobre o qual paira cada vez mais palpável a ameaça de catástrofe global para a espécie humana e muitas outras espécies cujo habitat se vê a degradar-se a um ritmo galopante.

O desmatamento das florestas (com a Amazónia em particular) para os negócios da madeira, a criação de gado ou da soja para alimento deste ou para a produção de combustíveis ditos alternativos, a insistência em manter um estilo de vida predador e que leva à exaustão de todos os recursos, força-nos a refletir sobre o que verdadeiramente está em causa.

Por mais loas que se cantem ao progresso e desenvolvimento, o que vemos, por todo o lado, não é a preocupação com o bem-estar e a vida livre das pessoas e de todos os animais, não é o cuidado para preservar a natureza em todas as suas manifestações, mas apenas a artimanha grosseira para através de todos os embustes – a publicidade, o amestramento embrutecedor e uniformizante, a insensibilização face ao desastre global –, continuar a encher os bolsos das grandes companhias e apontar esse caminho como modelo único de relacionamento entre as pessoas, sem lugar para a cooperação, a autonomia, a igualdade e uma frugalidade natural e feliz, imposta pelo gosto e a racionalidade.

Pelo contrário, o modelo vigente transforma a vida no planeta numa batalha em que os mais fortes cada vez impõem mais a desigualdade e a coação, semeando a fome e a desesperança, quando não usando os pobres como forças de choque que se lançam umas contra as outras deixando sempre incólumes os senhores do dinheiro e do poder.

Todas as medidas são bem-vindas para preservar a vida na Terra e para se opor ao aquecimento global, mas a solução não está num novo ambientalismo capitalista, que reproduza de forma mais macia todas as taras da sociedade atual, mas sim e sobretudo em todas as medidas tomadas pelas populações espoliadas para se oporem aos poderes que determinam o rumo da Terra, construindo em vez das dominantes sociedades suicidárias atuais, comunidades horizontais de partilha, natural e visceralmente amigas do ambiente. Só assim não correrão velozes e sem retorno os dias que nos faltam até à morte global do mundo como o conhecemos.

Porto, 8 de setembro de 2018

Grupo Erva Rebelde Anarquista

email: ervarebelde@riseup.net

https://ervarebelde.noblogs.org/

aqui: http://portugal.indymedia.org/conteudo/newswire/47311

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João Freire: a rendição de um ex-anarquista


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sociologo__investigador_joao_freire-33400948João Freire, sociólogo e antigo anarquista, editou há meses um livro a que chamou Um projecto libertário, sereno e racional (Lisboa, Colibri, 2018).   João Freire desempenhou um papel importante na divulgação do movimento anarquista logo a seguir ao 25 de Abril de 1974, esteve na origem da revista A Ideia, fez parte de diversos colectivos de índole libertária (mas no seu seio também conviveu de perto com figuras como a ex-ministra da educação Lurdes Rodrigues, de triste memória), mas ao longo dos anos foi abandonando a perspectiva anarquista ganha em França após ter desertado da guerra colonial e enveredou pelos caminhos de uma social-democracia serôdia, que assenta no capitalismo como gerador de riqueza e no Estado como regulador dos antagonismos sociais – temas que o afastam diametralmente dos pilares fundamentais daquilo que é o pensamento libertário.

João Freire está no seu pleno direito de ter mudado de opinião e, no campo libertário, não condenamos quem muda de ideias. O que condenamos é que, quem muda de ideias, continue a falar em nome de projectos que já não são os seus. E o projecto libertário deixou, claramente, de ser o projecto de João Freire. Há muito que este antigo militante anarquista já não faz parte do espaço cultural, social e político dos que querem transformar a sociedade com base num projecto libertário. Por isso o título do livro cheira a engodo – mas isso não seria grave ou não fosse o saber-se, como se sabe, que há quem esteja a convocar um encontro para o dia 25 de setembro, no auditório da Biblioteca Nacional, em Lisboa, para debater este livro, sob a hipótese de constituição “dum partido libertário”.

Tudo isto é triste. Mas tudo isto é fado, pelos vistos.

Introduzindo algumas achas nesta fogueira, mas duma forma assertiva, vem agora José Rodrigues dos Santos, também ele professor universitário e amigo de décadas de João Freire dizer o que todos sabíamos: João Freire não traiu, não se despediu, está arrependido das ideias que foram as suas, e está totalmente rendido à realidade vigente.

José Rodrigues dos Santos não é anarquista, nem nunca o foi, mas disseca duma forma certeira o testamento político de João Freire, ex-anarquista, hoje rendido ao politicamente correcto e à social-democracia mais corriqueira.

Escreve José Rodrigues dos Santos:

“Arrependimento”, conforme disse de início: respeito. Voltar atrás e reconhecer erros (ou o que agora lhe parecem ter sido tais), é um exercício que goza de plena legitimidade. Mas confesso que, deixando agora de lado os termos com que o JF indexa o livro, me ocorre uma palavra bem mais cruel: rendição. Não posso escondê-lo. Desagradável mas verdadeiro, o sentimento que o JF abdica do fundamento mesmo das principais teses que perfilhou (e não só desta ou daquela modalidade prática). O JF rende-se à cartilha liberal(ista), no corpo central da análise e não apenas em opções concretas. O capitalismo, o mercado (o tal auto-regulado, etc.), são para o JF, no final de contas, inultrapassáveis. Não há horizonte fora e para além deles. Curiosa atitude para quem, com tanto trabalho histórico para trás, deveria saber que capitalismo, mercado, etc., são formas culturais (instituições) produtos da história que passarão com a história. Talvez, meu caro JF, em vez de nos entregarmos à vã esperança dum “milagre”, como dizes, o nosso dever seja verdadeiramente explorar as aberturas através das quais, no presente, começa a ser visível (pelo menos um) outro futuro. A rendição que me entristece, não é rendição “à realidade”, mas sim à doxa que nos diz o que se quer que acreditemos que essa realidade é. Desistir da crítica dos fundamentos do sistema actual, nunca.”

ler aqui o artigo completo de José Rodrigues dos Santos