(Nov. 1918- Nov. 2018) Cem anos da greve geral contra a guerra, o sidonismo e a carestia de vida que teve um dos seus epicentros em Vale de Santiago (Odemira)


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aqui

Em 1918, a União Operária Nacional convoca uma greve geral para o dia 18 de Novembro. A guerra, a carestia de vida e a escassez alimentar tornavam a vida dos trabalhadores num inferno. De forma a reagir contra esta situação de agravamento do dia-a-dia dos trabalhadores portugueses a central sindical, em que predominavam os sindicatos e associações de classe anarquistas e sindicalistas revolucionários, decide juntar as diversas reivindicações sectoriais e avançar para uma greve geral que, no entanto, resultou num fracasso, ainda que com resultados diferentes conforme as regiões do país.

As causas para este fracasso prendem-se essencialmente, segundo os historiadores, com o anúncio do armistício que pôs fim à I Guerra Mundial, assinado a 11 de Novembro, poucos dias antes do início da greve; à pneumónica, que grassava por todo o país; e à forte repressão que os sindicalistas da UON sofriam na pele por parte das leis celeradas e anti-operárias do governo de Sidónio Pais e que conduziu até ao assassinato de trabalhadores em Montemor-o-Novo e Alpiarça quando participavam em comícios de protesto.(1)

O movimento grevista teve, entre outros sectores de todo o país, especial impacto entre os rurais do Alentejo e os ferroviários de Sul e Sueste. Em Évora a greve durou 8 dias. Em Odemira e no Vale de Santiago a repressão foi especialmente dura, com deportações de rurais para a África. Foram fuzilados trabalhadores na Moita e em Portimão. (2)

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Um dos actos de sabotagem nos comboios do sul e sueste (ilustração portuguesa, nº667, 2 de dezembro de 2018)

Segundo António José Telo in “O Sidonismo e o Movimento Operário Português”, “A resposta do Governo teve a brutalidade que já se esperava:ao alvorecer do dia 18 são feitas rusgas gigantescas em Lisboa e na margem sul, realizando-se mais de 300 prisões preventivas especialmente entre os comités de greve conhecidos graças à acção da Polícia Preventiva enquanto as estações são ocupadas militarmente “, as ruas são densamente patrulhadas por forças aramadas de carabina e no Governo Civil de Lisboa se concentram 1000 polícias armados….os sindicatos são quase todos revistados e os dirigentes presos.”

A greve dura até ao dia 20 e 21 com grande repressão e autodefesa operária através de bombas artesanais e algumas armas.

No dia 20 realiza-se uma parada militar de intimidação na Avenida da Liberdade, em Lisboa, com milhares de soldados (na maioria camponeses analfabetos) e material pesado e onde aparece Sidónio com mais de 200 oficiais.

Entretanto os Jornais gritavam que era preciso esmagar até ao fim a greve porque caso contrário estariam aí os “sovietes”!! (3)

Vale de Santiago e a “Comuna da Luz”

BNP N61 CX 57 F36

António Gonçalves Correia (natural de S. Marcos da Ataboeira, concelho de Castro Verde) foi um vendedor ambulante, anarquista-naturista alentejano e partidário das comunidades de trabalho e de vida, como foram a do Vale de Santiago, Odemira, em 1917 (com ocupação de terras), e a de Albarraque, nos anos 20, juntamente com Jorge Campelo e também Carlos Nobre, do Porto. Esta imagem foi conservada pelo próprio, ficando posteriormente na posse de Francisco Quintal (que o conhecia pessoalmente), que dela fez entrega ao Arquivo Histórico-Social, criado pelo Centro de Estudos Libertários, reunido em Lisboa nos anos 1980-1987 e depositado na Biblioteca Nacional. (aqui)

No Alentejo, um dos focos principais de agitação teve lugar na aldeia de Vale de Santiago, no concelho de Odemira, perto da qual um ano antes tinha sido constituída a Comuna da Luz, integrada por uma quinzena de trabalhadores rurais e artesãos qualificados, sobretudo sapateiros, por iniciativa do anarquista Gonçalves Correia, natural de São Marcos da Atabueira (Castro Verde). (4)

Vale de Santiago tinha um núcleo muito activo de sindicalistas ligados à União Operária Nacional e ao movimento anarquista. Um dos principais proprietários agrícolas locais queixa-se de um assalto a um dos celeiros onde tinha trigo armazenado e depressa a repressão se instala com a chegada de tropas vindas de Beja.

Na altura, José Júlio da Costa, natural de Garvão e morador na zona – que mais tarde disparará contra Sidónio Pais (5) –  foi o intermediário entre as autoridades e os grevistas, que conseguiu fazer desmobilizar com a promessa de penas leves, o que não aconteceu, uma vez que muitos dos trabalhadores de Vale de Santiago foram presos e deportados para África, o que o terá levado a sentir-se traído.

O historiador Constantino Piçarra refere a este propósito,  que “aqui [no Vale de Santiago], de 18 a 22 de novembro, os assalariados rurais, dando vivas aos sovietes e à revolução social, ocupam algumas herdades e assaltam os celeiros, dividindo entre si o trigo. A esta revolta sucede-se uma brutal repressão desenvolvida pelo exército e Guarda Nacional Republicana, em estreita articulação com os proprietários agrícolas. Dezenas de grevistas são presos e, posteriormente, deportados para África.

No mesmo território em que ocorre este movimento revolucionário está instalada uma comuna, a “Comuna da Luz”, mais concretamente na herdade das Fornalhas Velhas. Esta comuna tinha sido fundada em 1917 por António Gonçalves Correia, caixeiro viajante, natural de São Marcos da Atabueira, concelho de Castro Verde. Guiado pelo seu ideal anarquista de raiz tolstoiana, Gonçalves Correia, acompanhado por 15 companheiros, incluindo mulheres e crianças, funda esta comuna onde a subsistência é assegurada pela actividade agrícola e pelo fabrico de calçado.

Acusado de ser um dos instigadores da sublevação em Vale de Santiago, Gonçalves Correia é preso dia 29 de novembro, em Beja, e enviado para a prisão do Limoeiro, em Lisboa, e a “Comuna da Luz” é dissolvida pelas forças militares que ocupam o território”.(6)

Vivas à revolução social e aos sovietes

Francisco Canais Rocha e Maria Rosalina Labaredas investigaram também estes acontecimentos – que se deram um ano depois da revolução russa e do entusiasmo, apesar do desconhecimento do que ali se passava, que ela espalhou por todos os sectores do movimento operário mundial – e descrevem-nos deste modo:

«Na aldeia do Vale de Santiago o povo percorre as ruas dando vivas à Revolução Social e aos camaradas da Rússia, ocupam as terras da freguesia, colando nas portas dos “montes” papéis brancos anunciando que os burgueses têm os dias contados e dando vivas aos Sovietes Portugueses. Não houve qualquer tentativa de divisão de terras. O que presidia à ocupação das terras e da própria aldeia era a perspectiva da “greve geral expropriadora”. Como diz Francisco Mestre no seu depoimento, queriam até o contrário – “Tudo expropriado. Nós éramos contra as partilhas…” Assim dividiram apenas o trigo. Como dizem outros sobreviventes “o povo estava na posse de tudo e muitas famílias cheias de fome, sem um pó de farinha”. No centro da aldeia havia um celeiro, pertencente ao maior agrário da freguesia, António Eduardo Júlio, onde se encontravam 13 moios de trigo e ele se recusava a pôr à venda. O povo decide expropriá-lo, afim de abastecer os que tinham fome.

Francisco Mestre tocou o sino a rebate e todo o povo se juntou. Um sapateiro de Panóias, Félix, arrombou a porta com um machado e os trabalhadores tomaram conta do trigo.” (7)

Porvir, que se publicava em Beja, a propósito destes acontecimentos, refere:

(…) Em seguida os grevistas percorreram as ruas dando vivas à Greve Geral, à Revolução Social, aos camaradas da Rússia e durante a noite espalharam papeis com os seguintes dizeres: Viva a Greve Geral, o Grupo dos Soviets Portugueses, Abaixo os malandros que têm os dias contados. No dia 19 um numeroso grupo de 60 homens armados de espingardas, pistolas e bombas, tomou o ponto mais alto na defensiva.”»

Segundo Francisco Canais Rocha, apesar de esmagada, a greve geral deixou os seus frutos que se consubstanciaram no ano seguinte na criação do jornal anarco-sindicalista “A Batalha” e também no surgimento da Confederação Geral do Trabalho, em que os anarquistas eram a força de referência.

“Os objectivos imediatos da greve geral não foram alcançados. No entanto, nem por isso se pode considerar que a greve foi um fracasso total. Primeiro, porque menos de um mês depois, a 14 de Dezembro, Sidónio Pais era morto e o seu regime derrubado, sendo restauradas, pouco depois, as liberdades democrático‑burguesas. Segundo, e este é o aspecto mais importante, não obstante a repressão, o movimento sindical não foi desfeito. E tanto assim é que, três meses mais tarde, a 23 de Fevereiro de 1919, inicia a publicação do jornal A Batalha que, começando com uma tiragem diária de 7500 exemplares, em breve alcança os 18 mil, sendo na altura o terceiro diário português, logo a seguir ao Diário de Notícias e O Século. Em Maio desse ano conquista a jornada de trabalho de oito horas, velha reivindicação operária, e em Setembro seguinte funda a CGT (Confederação Geral do Trabalho), a primeira confederação dos trabalhadores portugueses”. (8)

A experiência da Comuna da Luz figurará também no imaginário dos trabalhadores portugueses como uma referência de trabalho e vida em comum que, de algum modo, (nem sempre da forma mais correcta, devido às dependências políticas então criadas), animaram algumas das cooperativas nascidas após o 25 de Abril de 1974 – onde a terra não era dividida, mas trabalhada em conjunto e tudo decidido em assembleias horizontais. (9)

Esta data vai ser assinalada no Vale de Santiago, no próprio dia 18 de novembro, pelas 15.00 horas, com a inauguração da exposição “Gonçalves Correia: A utopia de um cidadão”, que decorrerá no Centro Sociocultural de Vale de Santiago, com a presença da autora Francisca Bicho. A exposição estará patente ao público até ao dia 23 de novembro em Vale de Santiago  e entre os dias 26 de novembro e 7 de dezembro em Odemira, no Espaço Jovem. (10)

(1) https://www.esquerda.net/content/greves-gerais-de-1911-2002; https://aov.blogs.sapo.pt/524275.html
(2) https://www.esquerda.net/content/greves-gerais-de-1911-2002; https://aov.blogs.sapo.pt/524275.html
(3) http://bestrabalho.blogspot.com/2008/11/greve-geral-de-novembro-de-1918-memrias.html
(4) https://colectivolibertarioevora.files.wordpress.com/2013/01/gonc3a7alves-correia.pdf
(5) https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2016/12/14/1918-a-greve-geral-em-vale-de-santiago-e-o-assassinato-de-sidonio-pais/
(6)  Constantino Piçarra, em artigo escrito no Diário do Alentejo, de 18 de Novembro de 2011 – aqui – https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2016/12/14/1918-a-greve-geral-em-vale-de-santiago-e-o-assassinato-de-sidonio-pais/
(7) Francisco Canais Rocha e Maria Rosalina Labaredas, “Os trabalhadores Rurais do Alentejo e o Sidonismo. Ocupação de Terras no Vale de Santiago”, 1982: p.74
(8) https://aov.blogs.sapo.pt/524275.html
(9) https://colectivolibertarioevora.files.wordpress.com/2013/04/a-sementeira-1-1977.pdf
(10)https://regiao-sul.pt/2018/11/08/sociedade/odemira-assinala-centenario-da-grande-greve-de-1918/450569 

Figura 14

Manifestação dos Trabalhadores Rurais da freguesia de Santo André nas ruas da vila de Santiago do Cacém (a cerca de 50 km de Vale de Santiago). José Benedito Hidalgo de Vilhena, 12/03/1912. (aqui)

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