As 8 horas de trabalho: a canalhice do PCP e o seu revisionismo histórico


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O movimento operário em Portugal começou por ser influenciado pelas ideias marxistas, logo a partir dos primeiros anos de 1870. Paul Lafargue, o genro de Marx, esteve em Portugal e o primitivo Partido Socialista português, assim como o movimento associativo da altura, teve uma forte influência das ideias marxistas.

No final do século XIX, no entanto, irrompem em Portugal, como alternativa ao reformismo e à politiquice socialistas, as ideias libertárias, onde predomina a influência de Kropotkin e de outros anarquistas. O movimento libertário nasce, em Portugal, no seio do operariado e rapidamente se criam jornais e estruturas associativas que lutam pela melhoria das condições de vida dos trabalhadores, mas nunca esquecendo a transformação social que para todos é imperiosa e urgente.

A sua influência é determinante na fundação da União Operária Nacional, em 1914, e – mais ainda – na criação da Confederação Geral do Trabalho, em 1919, que agrupa a quase totalidade dos trabalhadores organizados, na altura, em Portugal.

A influência anarquista, anarco-sindicalista e sindicalista revolucionária na nova central sindical é quase total, embora os ecos da revolução russa – então ainda entendida como uma revolução dos sovietes e dos trabalhadores – já tivessem chegado a Portugal e ganhado adeptos no meio dos trabalhadores.

Essa influência, no entanto, sempre foi minoritária e, mesmo em 1934, quando o movimento sindical autónomo é ilegalizado e grande parte dos seus activistas presos e deportados, na sequência da greve insurreccional de 18 de janeiro, o peso do PCP (constituído em 1921) é muito pequeno.

A influência do PCP só cresce depois da segunda guerra mundial quando, decapitado o movimento anarquista e destruída a revolução espanhola, os comunistas ganham um novo ânimo e renovados apoios a partir da União Soviética – também uma das vencedoras da II Guerra -, que vê o seu império e o seu poder de influência alargarem-se substancialmente.

Mas isto só acontece a partir de finais dos anos 40/inicio dos anos 50, quando a militância anarquista fica reduzida ao mínimo, sem apoios e encurralada entre a propaganda fascista e a propaganda comunista.

Antes, a força do movimento operário era claramente inspirada no modelo libertário e é aos anarquistas em Portugal, como em Espanha, por exemplo, que se deve a instauração das 8 horas de trabalho na indústria e no comércio. Em Portugal, a partir de 1919, teoricamente, as 8 horas passam a vigorar nestes sectores. Mas foram precisas greves e provas de força para ganhar este objectivo.

Nos campos, essa conquista só se efectivou nos anos 60, quando já tinha começado a sangria da emigração. Nesta altura, a intervenção do PCP, foi relevante, num momento em que o movimento libertário estava já exangue de mais de duas décadas de repressão salazarista.

 

Aproveitando-se desta debilidade, seja durante a fase terminal do fascismo, seja nas primeiras décadas após o 25 de Abril de 1974, o PCP (onde quer que fosse, inclusive nas Câmaras Municipais ou nas Juntas de Freguesia onde tinha influência) tentou sempre que pôde ocultar e minimizar a acção dos libertários. Ainda que em muitos casos não pudessem ignorar pura e simplesmente a sua existência trataram de lhes ocultar a filiação. Enquanto aos seus militantes, quando lhes davam nomes de ruas e de praças, colocavam a sua pertença ao PCP, em geral com a foice e o martelo, em lugar de destaque, aos anarquistas bastava simplesmente a referência: sindicalista ou antifascista. Por este país há dezenas de anarquistas com nomes em ruas, mas que ninguém sabe quem eram. Muitas vezes nem uma mínima referência sobre quem foram ou o que fizeram está inscrita nas placas que os deveriam homenagear.

Foram mortos e a mensagem que quiseram trazer ao mundo dos vivos foi silenciada. Duplamente silenciada. Pelos que os prenderam e mataram, primeiro Depois, pelos que quiseram omitir e apagar a sua memória.

Estão neste caso, entre muitos outros, Mário Castelhano (Lisboa, Barcarena, Almada), José Cebola (nos Canaviais, Évora), Valentim Adolfo João (Setúbal), José Buísel (Portimão), Jaime Rebelo (Setúbal), José Correia Pires (Almada), Gonçalves Correia (Castro Verde, São Marcos da Atabueira, Rio de Mouro), Fiúza Júnior (Viana do Castelo) etc., etc., etc..

Este artigo de Canais Rocha  (publicado já há uns anos) é disso mais um exemplo. Segundo ele, toda a luta pelas 8 horas de trabalho foi dos “trabalhadores”, durante o período em que o movimento operário foi influenciado pelas ideias libertárias, mas nos finais dos anos cinquenta, na luta pelas 8 horas de trabalho, para os trabalhadores rurais  foi determinante o facto de passarem a ter “a partir de 1946, um órgão clandestino O Camponês, editado pelo PCP”. Como se antes não tivessem havido os mais diversos jornais dirigidos aos trabalhadores agrícolas, (nomeadamente o “Trabalhador Rural” ou “A Batalha”) … e que só devido ao PCP foram conquistadas as 8 horas de trabalho…

De um lado foram os “trabalhadores”, do outro o PCP…

E, assim, fazem estes trastes a história pretendendo terem o monopólio das lutas, conquistas e transformações efectivamente levadas a cabo pelo trabalhadores – independentemente dos partidos ou das organizações que, desde sempre, os pretendem tutelar.

relacionado: https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2013/01/30/a-cgt-e-a-luta-pela-conquista-e-manutencao-das-8-horas-de-trabalho/

antónio gonçalves mira

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