René Berthier evoca o centenário do jornal “A Batalha” nas páginas do “Le Monde Libertaire”


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Feliz aniversário

“A Batalha” celebra o seu 100º aniversário a 23 de fevereiro de 2019

“A Batalha”, o jornal da CGT portuguesa, foi fundado em 23 de fevereiro de 1919 e publicou-se diariamente até 26 de maio de 1927, data em que as suas impressoras foram destruídas e a sua publicação proibida pelo regime fascista saído do golpe de Estado militar de 28 de maio de 1926.

Mas “A Batalha” sobreviveu na clandestinidade durante várias décadas (até ao fim dos anos 40) e viu de novo a luz do dia, legalmente, depois da Revolução dos Cravos, em 25 de abril de 1974, graças a Emídio Santana, Lígia de Oliveira, José António Machado, Moisés da Silva Ramos e outros.

Foi nesta altura que Jacky Toublet(1) e eu próprio fomos a Portugal, mandatados pela Aliança Sindicalista, para ver o que se passava e contactar os militantes. Fomos recebidos calorosamente pelos camaradas que estavam a tentar fazer reviver o seu jornal histórico e que ocupavam um edifício nas colinas de Lisboa, a antiga sede do jornal, se me recordo bem, mas que as circunstâncias os impediram de conservar (2)

Havia uma efervescência incrível, reuniões políticas por todo o lado, era um pouco como em Maio de 68 quando toda a gente conversava nas ruas e refazia o mundo. Nessa altura esperava-se que a CGT pudesse refazer as suas forças anteriores ao fascismo e havia uma espécie de entusiasmo optimista.

Lembro-me em particular de Emídio Santana (3) e de Lígia Oliveira (4), que nos acompanharam durante a nossa curta estadia.

Aquando da minha ida a Portugal em 2012 eram a Elisa e o Luís, da “velha guarda”, que se ocupavam do jornal, mas agora é uma nova equipa que assume a sua publicação.

O jornal “A Batalha”, refundado em 1974, ainda existe, não é diário mas prossegue o combate para manter uma presença libertária em Portugal.

12 fevereiro 2019
René Berthier

(aqui)

Notas:

1 – Jacky Toublet (1940-2002) foi um militante libertário e anarco-sindicalista muito activo na Federação do Livro da CGT. Foi secretário do Sindicato dos Revisores. Foi um dos membros fundadores da Aliança Sindicalista. Depois da sua dissolução adere à Federação Anarquista e foi responsável do jornal “Le Monde Libertaire” e animador da Radio Libertaire.

2- Ao contrário do que diz René Berthier, as instalações que o Movimento Libertário e “A Batalha”ocupavam na altura da sua visita não eram as da antiga sede do jornal, mas sim uma casa ampla no topo da Rua Angelina Vidal, à Graça, que tinha um enorme jardim sobranceiro a uma parte importante da cidade de Lisboa. A redacção, a administração  e as oficinas de “A Batalha”, quando o jornal foi proibido e as suas máquinas destruídas pelo regime fascista, em maio de 1927, funcionavam  num palacete na Calçada do Combro, que era também a sede da CGT e de vários sindicatos nela filiados. (nota do Portal Anarquista)

3- Emídio Santana (Lisboa, 1906-Lisboa, 1988) foi um dos mais importantes militantes portugueses do anarco-sindicalismo nos anos 20 e na clandestinidade. Milita no núcleo de Lisboa das juventudes Sindicalistas onde foi o secretário de Propaganda e, depois em 1925 e1926, secretário-geral das Juventudes Sindicalistas. Foi membro e secretário-geral da União Nacional dos Metalúrgicos, filiada na antiga Confederação Geral do Trabalho portuguesa (CGT).

Depois do golpe de estado militar de 28 de Maio de 1926 desenvolve uma actividade de resistência contra a ditadura e actividade sindical clandestina. Em 1936 representa a CGT portuguesa no Congresso da Confederação Nacional do Trabalho de Espanha. Em 4 de Julho de 1937 foi um dos autores do atentado contra Salazar. Emídio Santana é procurado pela PIDE (a polícia política) e foge para o Reino Unido, para ser finalmente preso em Southampton pela polícia inglesa que o repatria para Portugal onde é condenado a 8 anos de prisão e a 12 anos de deportação. É finalmente libertado a 23 de Maio de 1953 e será preso quatro vezes pela PIDE. Em 1964 adere à Associação dos Inquilinos de Lisboa, a que preside (1965)

Com o fim da ditadura (1974), Emídio Santana retoma a sua vida activa de militante, nomeadamente enquanto director do jornal “A Batalha”. Ele criticava fortemente o controlo político da CGT pelo Partido Comunista, classificando o congresso de 1977 de “espectáculo amorfo” com “um grande auditório presidido por um grande colégio que, do principio ao fim, dirige os operários e os controla segundo um programa rigoroso e sempre o mesmo. Em suma, uma caixa de ressonância”, onde “os votos estavam assegurados à partida e os boletins de voto eram inúteis” “O Congresso não fez mais do que consagrar as propostas do Comité Organizador elaboradas segundo uma visão e disposições conhecidas”. Ele critica também o facto de um pretenso congresso dos trabalhadores ter como hino A Portuguesa em vez do “hino legítimo e indubitável”, A Internacional.

Quanto ao IV Congresso da CGTP (1983), segundo Emídio Santana, foi “uma reunião onde o público funcionava como uma máquina de aplausos” e “ uma missa em que os fiéis estavam voltados para Moscovo”

Em 1985 publica as suas “Memórias de um militante anarco-sindicalista”, um livro no qual evoca os momentos mais importantes da sua vida de militante político.

Emídio Santana, que foi um dos militantes mais eminentes contra o fascismo, morreu em Lisboa a 16 de Outubro de 1988.

(4) Lígia de Oliveira, foi uma militante anarquista de Lisboa, iniciando-se nas Juventudes Libertárias nos anos 30. Cabeleireira de profissão, trabalhando por conta própria, decidiu emigrar para a Suécia nos anos 50, onde trabalhou em meio hospitalar. Esteve presente em inúmeros encontros libertários, nacionais e internacionais, tendo relações privilegiadas na Suécia, Suiça, França, Espanha, etc. Ajudou à reorganização do movimento libertário em Portugal após 1974, particularmente na publicação do jornal “A Batalha”. (Portal Anarquista)

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