(in memoriam) Helena Leonor Martinho dos Santos (1950-2017)


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Rebelde, internacionalista, libertária,

grande amiga e protectora dos animais,

minha amada, minha companheira

     “O céu é o nosso tecto, a terra é a nossa pátria, a liberdade é a nossa religião.” Quantas vezes lhe ouvi este magistral provérbio do Povo Rom! Nascida e criada no bairro popular lisboeta de Marvila, rebelde, internacionalista e libertária por espírito, por convicção e por forma de viver, a Lena sempre se orgulhou da sua origem Rom (cigana) pelo lado paterno e operária pelo lado materno.

     Quando nos conhecemos, em 1980, trazia pela trela a Kvit, a sua fiel amiga loba cruzada com pastor alemão, e dentro da mochila um títere com que fazia teatro de marionettes pelas ruas de Lisboa… Emprestou-me um livro de Marcuse com a inscrição “Helena Paris 73” na primeira página: era o “Contre-Révolution et Révolte”, que tratava da Nova Esquerda radical e de uma nova atitude revolucionária face ao homem, à natureza e à arte… E ofereceu-me um exemplar da revista Raiz & Utopia, onde vinham publicados uma jóia do poeta guerrilheiro cigano antinazi Spatzo e um magistral depoimento programático da sua própria autoria. São estes dois textos que reproduzo a seguir (os títulos são meus).

LIBERDADE

Nós, ciganos, temos uma só religião: a da liberdade.
Em troca desta renunciamos à riqueza, ao poder, à ciência e à glória.
Vivemos cada momento como se fosse o último.

Quando se morre, deixa-se tudo:
um miserável carroção como um grande império.
E nós cremos que nesse momento
é muito melhor ser cigano do que rei.

Nós não pensamos na morte. Não a tememos — eis tudo.
O nosso segredo está no gozar em cada dia
as pequenas coisas que a vida nos oferece
e que os outros homens não sabem apreciar:
uma manhã de sol, um banho na torrente,
o contemplar de alguém que se ama.
É difícil compreender estas coisas, eu sei.
Nasce-se cigano.
Agrada-nos caminhar sob as estrelas.

Contam-se estranhas histórias sobre os ciganos.
Diz-se que lemos nas estrelas e que possuímos o filtro do amor.
As pessoas não acreditam nas coisas que não sabem explicar-se.
Nós, pelo contrário, não procuramos explicar as coisas em que acreditamos.

A nossa vida é uma vida simples, primitiva,
basta-nos ter por tecto o céu, um fogo para nos aquecer
e as nossas canções quando estamos tristes.

 

Vittorio Mayer Pasquale Spatzo,

poeta cigano.

*

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O MEU CAMINHO PARA A UTOPIA*

por Helena Martinho dos Santos

     Amigos

     Não tenho a intenção de repensar ponto por ponto a vossa exposição. Gostaria, porém, já que a polémica é aberta a toda a gente, de vos dizer que, reduzida a publicações francesas, fiquei entusiasmada com a possibilidade de ler o que em Portugal havia a dizer para além desta “heróica caminhada” para os vários socialismos à portuguesa. De vos falar um pouco do meu caminho para a utopia…

     Olhando o mundo com olhos desinteressados de quem só pretende estar na vida e não “subir” nela através da escala de valores de uma sociedade que lhe é precisamente o contrário (seja ela a ordem estabelecida ou a dita contestatária. As próprias correntes “contra” e “anti” deixam-se recuperar pela formação de elites dentro delas), não podemos deixar de encontrar diante de nós um elemento constante que é o essencial da alienação humana a todos os níveis: o poder. A família, a escola, o trabalho, o bairro em que vivemos, o governo… outras tantas instituições organizadas hierarquicamente.

     Em todas elas se reúnem pessoas não por afinidades de natureza espontânea ou competência mas sim interesses pré-fabricados, por regra, porque a sociedade está assim constituída, em nome sabe-se lá de quê.

     Teria tal criança escolhido tal pai? Teria tal mulher amado tal homem? Teria tal homem escolhido aquela profissão, aqueles companheiros de trabalho? Porquê este chefe, porquê esta decisão paterna, porquê este homem no poder?

     Na forma como um pai se constitui em consciência dum filho pela dependência económica e afectiva deste, na forma como os adultos tratam as crianças, pelas relações aluno-professor, homem-mulher, governados-governantes… o mundo está dividido em oprimidos e opressores. A divisão de classes é já pouco definida e incompleta.

     O oprimido e o opressor sofrem duas espécies de alienação diferente. Mas ambos são alienados. No entanto, foi sempre o oprimido que se revoltou contra a ordem estabelecida. Foi sempre o oprimido que nada tem a perder que mudou a face do mundo. É, pois, nele que reside a esperança da humanidade. Na desmistificação da sua impotência face aos grandes poderes, na sua incerteza, no seu desrespeito pelas hierarquias culturais e económicas, na sua ignorância das normas morais e sociais. Na reivindicação do seu direito ao prazer e à felicidade.

     “Felizes os oprimidos”?

     O que foi Portugal depois do 25 de Abril e a sua tão falada democracia? Direito de voto, direito de greve (e nem sempre), abolição da censura, imprensa livre (?), assembleia da república, partidos legalizados e por aí fora… falou-se mesmo em liberdade.

     E os novos senhores do mundo muito atarefados com os problemas deste povo desgraçadinho, que discutem em seu nome, nesse modelo de politiquice e demagogia que é a assembleia? E os partidos que falam em nome do povo e vão fazendo o que podem… à vez. Porque não?

     Eleitos uma vez por todas, até nova ordem, os deputados e outros doutos representantes hoje dizem sim, amanhã não; “fui eleito pelo povo”. Carta branca.

     E o povo a quem disseram que o voto era uma conquista dos trabalhadores apercebeu-se já que “mandar não é bem o mesmo que lá ir”. Sim, apercebeu-se, pois diz-se que “isto acalmou. Talvez”…

     No 25 de Abril abriram-se as portas das prisões políticas, voltaram os desertores e exilados, acabou a guerra. Só por isto valeu a pena. O fascismo acabou. Respira-se melhor.

     E este povo pensava que se tinham aberto outras prisões mais subtis, mais bem construídas à prova de fuga, que até ali pensava serem obra do fascismo. E organizou-se espontaneamente. Por uma vez escolheu os companheiros de luta. O “partido” não enviou lá ninguém (só depois para colher os frutos “bons” e deitar fora os “maus”) não se fizeram reuniões em caves clandestinas ou praias desertas. Comissões de trabalhadores, de moradores, de alunos, de professores. Experiências de autogestão. O destino na mão, finalmente. As casas vagas a quem não tem tecto, a terra a quem a trabalha, a produção a quem produz, abaixo os padrinhos. Pois sim. “Em democracia não se passa assim meu povo”. “Nós é que fomos eleitos, nós é que decidimos”. “Trabalhem que eu penso”. Disseram os partidos e mais os governos. “Acabou a brincadeira, quem vos organiza somos nós”. Democracia não é “rebaldaria”…

     O anarquismo é o principal inimigo da democracia. Aliás, não será o pior inimigo de todos os sistemas políticos e outros? E, ainda assim, que espécie de anarquismo? O fim da miséria, o direito à habitação, o ensino (aprendizagem mútua), a saúde, o direito à vida, as decisões a partir da base e não das cúpulas são inimigos da ordem democrática. A democracia é a lei do prestígio pessoal para ser eleito e a política erigida em alta ciência de bem-pensantes que vão pôr este país na ordem e na prosperidade (austeridade) por todos os meios. É a época dos “sacrificados heróis da pátria” e do socialismo, são o pai a quem o filho há-de agradecer mais tarde o puxão de orelhas…

     “Eu fiz tantos anos de prisão, tenho autoridade para falar e governar”. E vieram a correr ocupar os lugares vagos. Já vivem do passado. Daqui a alguns anos quantas comissões de trabalhadores destruíram, quantas famílias expulsaram de casas ocupadas, quantas terras entregaram aos proprietários?

     Abaixo a democracia?

     O capitalismo tem tido várias crises. Porém, encontrou sempre formas mais ou menos subtis de sair delas. Do fascismo à democracia. Da ditadura do proletariado à ditadura assim assim, do socialismo ao socialismo à portuguesa. E que veremos nós ainda? Uma constante: austeridade e trabalho. Produção. Qualidade de vida, nada.

     A opressão é internacional e a esquerda luta como se em cada país fosse diferente. Os sindicatos pedem aumentos de salários aqui, e ali morre-se ainda de fome. Um dos resultados é a emigração e a divisão consequente dos trabalhadores. Uns são mais oprimidos que outros…

     Os sindicatos lutam pelo poder de compra, melhores condições de vida. Mas que vida e que compra? Os salários aumentam (as grandes empresas têm isso previsto, nem é preciso pedir) e os trabalhadores compram mais. Compram o que até aí só era acessível à burguesia. E passam a produzir novas coisas que permitam a essa burguesia distanciar-se novamente. Em democracia a maior parte tem televisão e alguns têm televisão a cores.

     “Abaixo o aumento de salários”? “Abaixo os sindicatos”? “Abaixo o poder de compra dos trabalhadores”?

     “Temos que viver com aquilo que temos”, diz-se. Mas quem tem aquilo que temos?

     Que alternativa nos resta nesta sociedade super-organizada (super-desorganizada)? As alternativas até agora têm proposto a inversão dos papéis que nem os papéis invertem. Os movimentos anarquistas também não souberam responder.

     É aqui que a utopia tem lugar. A utopia dia a dia. A fuga sempre que possível a todas as armadilhas. Construir pequenas comunidades em que as relações entre os homens se modifiquem totalmente, ou seja, se deixem de vender e comprar, em que haja um “retorno” à realidade do próprio homem, à sua natureza de ser pensante, construtivo, livre e criador. Pôr a máquina ao serviço do homem, a técnica ao serviço da saúde, da vida, dos tempos livres. Abolir o termo “tempos livres”…

     Não se trata de fazer do homem um “bom selvagem contemplativo e puro”. Mas, sim, fazê-lo aproveitar o chamado progresso, servir-se da técnica. Não permitir que ela seja um meio para a supremacia duns países sobre outros, de homens sobre homens, mas sim um meio para felicidade. O que está não volta atrás, tudo depende da forma como é utilizado. Acabar com esta incessante luta pela sobrevivência. Reabilitar o trabalho por forma a que deixe de ser um instrumento de divisão, exploração e acumulação de riqueza, para alguns… Reduzir o horário de trabalho e consequentemente o desemprego e o supérfluo… A imaginação ao poder…

     Porém, o poder estabelecido tem uma arma muito poderosa sem a qual, aliás, não poderia sobreviver: o medo. O medo do pai, do professor, do vizinho, do chefe, o medo da solidão… Várias formas de medo desde a infância. Toda a sociedade que precisa de uma polícia está condenada. É perdendo o medo que a utopia é possível. Quem em momentos de lucidez não sentiu a náusea e não se riu dos tigres de papel?

     A sociedade organizada tal como está existe. Não podemos ignorá-la nem pretender viver totalmente à margem. Não podemos também olhar poeticamente para aqueles que se marginalizam, pois a estrada é longa e difícil. Porém, cada vez são mais e já não só entre a burguesia informada e esclarecida. Há brechas por todo o lado. É difícil recuperar certos movimentos quando não se lhes pode chamar “excêntricos”. As classes trabalhadoras começam a abrir a sua brecha, o que é mais perigoso para a ordem estabelecida. Vai perdendo a sua mercadoria. E todas as brechas são importantes. E são-no porque a utopia, a cada um a sua. A utopia não é uma mercadoria a vender, é uma escolha pessoal e individual. Também não é o individualismo burguês, mas a individualização de cada homem no seu sentido universal.

     É a procura da felicidade.

     Utopia ou morte, ou seja, vida ou morte. Antes um Lip que Lip nenhum, pois o que existiu teve lugar.

     A única acção militante que cabe na utopia é a criação de “bases de apoio” para a felicidade. O homem nunca perdeu o direito ao paraíso; alguns homens é que pensam demasiado em como desfrutar dele sozinhos sem risco de se engasgarem. Mas se o poder se serve do medo os oprimidos nunca tiveram guarda-costas.

__________

*Texto publicado na revista Raiz & Utopia Nº 3/4

*

Sans Chats ni Chiens YESSS (1)

     A Lena era assim. A sua obra de intervenção política, social, cultural e de protecção animal aí ficou para o demonstrar.

    Desde criança, com seus pais a ajudar os pobres dos bairros de lata de Marvila, ciganos e não ciganos, trabalhadores e desempregados, ou a participar no teatro amador e nas acções culturais do bairro…

     No liceu e na faculdade, a participar nas lutas estudantis contra o ensino autoritário e contra a repressão policial, com confrontos por vezes bem violentos com os mastins da ordem salazarento-marcelista…

     Na acção revolucionária radical contra o fascismo, contra a censura, contra a Pide e contra a guerra colonial, ajudando à fuga de desertores e trazendo propaganda do estrangeiro, escapando por uma unha negra à rusga da Pide e aos 3 a 6 anos de prisão que atingiram os seus camaradas…

     No exílio em Paris e na acção militante do movimento da “Cause du Peuple” e do “Mouvement de Libération des Femmes”, junto de Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Gisèle Halimi, tendo sido presa e expulsa de França pela acção de solidariedade com os refugiados magrebinos e de Bruxelas por recolha de géneros para matar a fome aos seus camaradas…

     Nas mais diversas movimentações populares do pós-25 de Abril, nomeadamente dos moradores e das mulheres, e nas suas longas viagens pelas estradas e pelas ruas europeias, de Lisboa a Amesterdão, de Barcelona a Roma, Atenas e Istambul…

    Na defesa e apoio às causas dos povos oprimidos e das minorias étnicas e culturais, e na defesa e apoio aos heróicos guerrilheiros das Falintil e à causa da libertação de Timor Lorosae…

     E, finalmente, na luta de duas décadas pela defesa e protecção dos mais indefesos e dos mais desprotegidos dos todos os indefesos e desprotegidos, os animais…

Desde que partiste, há quatro meses,
agora livre no céu e na terra,
a tua viagem continua, Lena…

 E contigo vai o meu coração
e tantos tantos corações onde imprimiste
as tuas suaves e misteriosas pegadas
de filha das estrelas.

 Ericeira, Março de 2018

Ângelo Santana Barreto

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