Europeias: a abstenção cada vez conta mais e é um enorme trunfo para os descontentes


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É confrangedor ouvir algumas “análises” sobre a abstenção nas eleições europeias que ontem em Portugal quase chegou aos 70 por cento. A maioria dos analistas continua a considerar que 7 milhões de portugueses não foram votar porque se estão nas tintas, preferiram ir à praia ou que acham que isso da Europa não lhes diz respeito ou porque não são “democratas” nem respeitam a “democracia”. São análises duma arrogância a toda a prova, como se só eles, os ditos analistas, soubessem cumprir direitos e deveres e que os restantes 70 por cento se estivessem completamente borrifando para o seu futuro, ou o dos seus filhos, ou para as condições de vida adversas que todos os dias enfrentam.

Curiosamente, é exactamente porque estão atentos e preocupados, que a maioria dos não votantes decidiu não ir às urnas. É claro que as motivações para o não voto são muitas e múltiplas, tal como o são para o voto, mas, em termos gerais, uma abstenção desta ordem significa um profundo descontentamento sobre o sistema politico e social em Portugal, em que abundam os casos de completa fusão entre o mundo da politica, dos partidos e dos negócios, com sucessivos casos de corrupção e gestão fraudulenta a serem conhecidos, mas nunca suficientemente escalpelizados nem as suas consequências tiradas na totalidade.

A ideia que os portugueses em geral têm, e que os levou a absterem-se em massa, é que a classe política é totalmente corrupta, coloca os interesses pessoais e partidários por cima dos interesses colectivos; que os impostos, tão elevados como nos países mais desenvolvidos,  são-lhes sugados sem quaisquer contrapartidas: os serviços públicos estão pelas ruas da amargura; a saúde cada vez é mais só para os ricos; o ensino mediocrizou-se; pagamos a electricidade mais cara da Europa, tal como os combustíveis,  e os portugueses, em geral, cada vez têm menos acesso às contrapartidas públicas, reservadas a uma verdadeira casta que ocupa os lugares de topo da administração pública e privada ou então, apenas, a sectores profissionais com elevada capacidade reivindicativa.

Este sentimento de repulsa generalizado face a uma classe política apenas preocupada com os seus espaços partidários, que mantêm opacos, quais bunkers e casa fortes, onde tudo se joga em torno das redes de poder e de influência entre comparsas, leva a que os abstencionistas portugueses tenham dito, duma forma tão assertiva como a daqueles que foram votar, à sua maneira, que é preciso pôr um termo a tudo isto.

Claro que os partidos e a classe política, os analistas e os académicos, assobiam e passam ao lado. Seja com 20 ou 70 por cento de abstenção têm as suas benesses, regalias  e tachos assegurados. É o que, apesar dos choradinhos à abstenção e à necessidade de mudar as campanhas eleitorais (!) e a comunicação (!) – como se fosse esse o problema –, acontece: assobiam como se não fosse nada com eles, garantido que têm de novo o poder por mais uns pares de anos.

No entanto, a erosão que a falta de uma continuada legitimidade eleitoral vai cavando, o distanciamento cada vez maior entre grande parte da população e os seus “soi-disant” representantes, a falta de vasos comunicantes entre os que militam, se agitam e tratam da coisa pública como se fosse algo apenas seu, para usufruto do seu espaço partidário, e os que se recusam a entrar nesse barco onde se jogam influências, poderes e empregos a troco de favores e alinhamentos espúrios, faz com que os números, cada vez maiores, da abstenção tenham que ter consequências.

Um dessas consequências – embora grande parte do que será o futuro  ainda não seja visível ou compreensível – é que a insatisfação que reina entre a população, e manifestada na abstenção de quase 70 por cento, já não é canalizada pelos partidos políticos, nem pelos seus agendamentos mediáticos. Não é que tenha deixado de existir: procura sim outras formas de se materializar.

Outra consequência, que se anuncia, é o cada vez menor alinhamento entre o discurso partidário e os anseios populares. Distantes uns dos outros, autónomos entre si, o peso dos partidos vai diminuindo progressivamente na sociedade e abrindo janelas de auto-organização e espontaneidade que até agora têm aprisionado as lutas e as movimentações por uma vida diferente.

Para os que diziam que não votar não vale nada, não tem qualquer valor ou sentido político, a realidade demonstra o contrário. Po certo o dado mais saliente destas eleições, e que  é preciso reter, é, de facto, o da abstenção, e não o da pequena subida ou descida, deste ou daquele partido, num sistema de vasos comunicantes, onde cada vez circula menos energia, imaginação e criatividade.

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2 comments

  1. Num universo de 10 milhões e 700 mil eleitores o PS teve 1 milhão e 80 mil votos o que dá, como qualquer menino de escola sabe, 33,4%. Quem é que esta gente pensa que é? Meia-dúzia de gatos-pingados convencidos que sabem mais do que a enorme maioria do povo. As reacções dos partidos vão todas no mesmo sentido “ai e tal, para a próxima temos de fazer melhor, temos que aproximar o povo dos seus representantes e blá-blá-blá” Nem um se atreve a por o dedo na ferida, as pessoas não querem ser representadas muito menos ainda por uma cambada de escroques e de ladrões. O PS teve 10,6% já podem quanto tiveram os outros. Prémio Nobel da matemática a caminho para os iluminados dos 33%?

  2. Concordo que falta credibilidade à classe política, mas eis um fa(c)to: não concordar com o sistema político não vai fazê-lo desaparecer. A política tradicional está cada vez mais distante da sociedade, é certo. No entanto, é impossível afirmar que não tenha reflexos para a população em geral. Eu como imigrante, e defensor de um mundo onde passaportes não sejam necessários, vejo com desconfiança a abstenção. Infelizmente, gostaria de mais gente votando em partidos que defendam (ao menos, no discurso) os direitos dos imigrantes. Para a minha vida, na prática, o resultado moral deste pleito não foi uma comprovação da falta de credibilidade da classe política. Foi que minha vida vai ficar ainda mais difícil na Europa como um imigrante. Em termos práticos, portanto, a abstenção foi horrível para mim (e, acredito, para qualquer imigrante não-europeu em Portugal). Entendo quem não vota e até concordo com os argumentos. Mas, às vezes, tendo a crer em uma falta de empatia com os imigrantes por parte da gente que poderia fazer alguma diferença na eleição, mas decidiu se abster por não acreditar na classe política. Me parece uma opção muito confortável.

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