(Peniche) Protesto contra a omissão que o Museu Nacional Resistência e Liberdade faz do papel da CGT e dos anarquistas no combate e na resistência contra o fascismo


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NÃO AO BRANQUEAMENTO QUE O MUSEU NACIONAL RESISTÊNCIA E LIBERDADE, INSTALADO NO FORTE DE PENICHE, FAZ AO PAPEL DA CGT E DOS ANARQUISTAS NA RESISTÊNCIA E NO COMBATE AO REGIME FASCISTA E AO ESTADO NOVO

O centenário da CGT e da Batalha, que se assinalou durante o corrente ano de 2019, coincidiu com a transformação da Fortaleza de Peniche em Museu Nacional e a abertura de uma exposição «Por Teu Livre Pensamento» que é uma autêntica elegia da história do PCP e onde a CGT, A Batalha e os anarquistas não contam.

Vários companheiros, entre eles Eduardo Sousa, da Letra Livre, já protestaram junto da organização do Museu e da Exposição pelo total apagamento do papel dos anarquistas na luta contra o Estado Novo e o fascismo.

Anarquistas e anarco-sindicalistas que sofreram centenas de anos de prisão acumulados nas diversas prisões do fascismo, entre elas a fortaleza de Peniche, e onde muitos também foram vítimas de torturas atrozes e alguns perderam a vida.

Face a esta ignomínia, também o Portal Anarquista questiona e denuncia a obscena omissão dos organizadores de tal exposição, e considera inaceitável tal manipulação dos factos da história social.

Daqui apelamos a que os diversos colectivos e organizações libertárias apresentem o seu protesto junto da entidade responsável por esta falsificação histórica, que envergonha uma entidade que ostenta o pomposo título de Museu Nacional Resistência e Liberdade e que, no primeiro momento, silencia e branqueia a resistência libertária ao fascismo de que os anarquistas foram os primeiros e, durante largos anos, os principais opositores.

Os emails de protesto podem ser enviados para: geral@mnrl.dgpc.pt ou para rosalinacarmona@dgpc.pt

*

Texto do protesto de Eduardo Sousa:

De: Eduardo Sousa
Enviada: 10 de outubro de 2019 17:52
Para: Geral MNRL-Peniche; Rosalina Carmona; Ângela Alves; Aida Rechena
Assunto: Protesto sobre grave omissão em Catálogo de Exposição

Caras Senhoras,

Boa tarde.

Numa recente visita à Fortaleza de Peniche, agora convertida em Museu Nacional Resistência e Liberdade, adquiri o catálogo da exposição «Por Teu Livre Pensamento».

Após a sua leitura fiquei espantado pela grave omissão no catálogo em relação ao papel da Confederação Geral do Trabalho (CGT), a mais importante organização do movimento operário português até ao final dos anos 30, confederação a que pertenciam a maioria dos presos políticos, sindicalistas revolucionários e anarquistas, nos primeiros anos da ditadura.

Não posso crer que em 2019 ainda sejam possíveis visões distorcidas, manipuladas do ponto de vista ideológico, que querem passar a ideia que o movimento operário e a resistência à ditadura nasceram com o PCP nos anos 40. Ou que a relevância da CGT seja inferior à de pequenos grupúsculos referidos explicitamente nesse catálogo, onde se faz uma única referência genérica a «correntes anarquistas» na pag. 28, nada constando sobre a CGT e os anarquistas nas páginas dedicadas ao Movimento Operário, à Clandestinidade, à Unidade Antifascista. Tal como não existem referências iconográficas em todo o catálogo a essa corrente.

No ano em que se comemora o centenário da fundação da Confederação Geral do Trabalho (CGT) e do diário operário A Batalha, que a Biblioteca Nacional teve a feliz iniciativa evocar com uma exposição, deixo o meu mais vigoroso protesto pelo conteúdo historicamente pouco objectivo, e distorcido, do referido catálogo publicado pelo Museu Nacional Resistência e Liberdade com o patrocínio da Direcção Geral do Património Cultural.

Saúde e liberdade

Eduardo Sousa”

*

Na resposta a Eduardo Sousa, a técnica Rosalina Carmona, em nome do Museu, reconhece a omissão da CGT no catálogo da exposição e refere apenas um cartaz da CGT em toda a exposição. Deixamos a resposta que foi enviada a Eduardo Sousa:

“Caro Senhor Eduardo Sousa,

Boa tarde

Agradecemos o seu contacto e contributo, relativamente ao Catálogo da exposição “Por teu Livre Pensamento” do futuro Museu Nacional Resistência e Liberdade, Peniche.

Podemos informar que os núcleos expositivos que se encontram abertos ao público na Fortaleza, tal como o que foi publicado no catálogo do futuro Museu, constitui uma primeira fase deste projecto, o qual está em curso e pretende-se que venha a ser muito mais aprofundado na etapa seguinte, que será a abertura efectiva do MNRL.

O tema que referiu é para nós muito importante e não foi ignorado na exposição. Caso não tenha reparado, o ecrã dedicado ao Sistema Repressivo apresenta um cartaz da CGT, referente à “pacificação dos espíritos…”, editado pela Confederação Geral do Trabalho em 1933. Com efeito, não há nenhuma imagem sobre a CGT no Catálogo, tal como não existe noutros temas, mas o Movimento Operário faz parte do Guião da exposição do futuro Museu, é um trabalho em progresso e que pretendemos aprofundar futuramente.

Informamos ainda que a equipa se deparou com diversas dificuldades na obtenção de imagens, que acabaram por ter reflexo no resultado final do trabalho. Apenas para ter uma ideia: foi solicitada a reprodução digital do Boletim informativo da Confederação Geral do Trabalho, Boletim nº 7, Nov. e Dez. 1934 a determinada entidade que possuía o original. Não nos foi cedida «por não disporem de meios, pessoal permanente e equipamento adequado para o efeito pretendido».

Resta-nos agradecer uma vez mais o seu contributo, que registamos e procuraremos ter em conta para o futuro.

Ao dispor para qualquer outro esclarecimento,

Com os melhores cumprimentos

Rosalina Carmona”

Técnica Superior

Direção-Geral do Património Cultural I DGPC

Palácio Nacional da Ajuda - Ala Norte, Piso 0 1349-021 Lisboa, Portugal

Telf. (00 351) 21 361 42 00 ext. 1521

Email: rosalinacarmona@dgpc.pt

http://www.patrimoniocultural.gov.pt

*

Para além do grande acervo de material que consta da exposição na Biblioteca Nacional sobre os 100 anos de A Batalha , e de que os responsáveis do Museu de Peniche facilmente poderão obter cópias para não deixarem em branco a luta anarquista  e anarco-sindicalista de resistência contra o fascismo e pela liberdade (título que, pomposamente, o Museu ostenta), deixamos aqui algumas fotos elucidativas da presença do grande número de anarquistas que ao longo dos anos estiveram em Peniche, mas não só: durante os 48 anos de ditadura, centenas de anarquistas passaram pelas várias prisões do fascismo, do Aljube ao Tarrafal, de Peniche a Caxias, de Coimbra a Angra do Heroísmo, sem contar com os deportados para Timor, Moçambique ou Angola

 

BNP N61 Cx39 F02

“ Fortaleza de Peniche – 1936. Um dia de visita. Os presos que fazem parte desta foto, na sua maioria militantes cegetistas, cumprindo penas várias ou detidos sem culpa formada, após o 18 de janeiro de 1934, pertencem a todas as regiões de Portugal, desde o Algarve ao Norte do país e das mais variadas profissões: camponeses, conserveiros, construção civil, alfaiates, comércio, etc. Entre os que puderam ser identificados encontram-se: José Francisco, ao lado de sua mãe, que por unanimidade de todos resolveram que figurasse na foto, com os seus 83 anos de idade; Barnabé Fernandes, do Barreiro; José Quaresma, de Setúbal, Jorge Viancad R Raposo, da Juventude Libertária de Lisboa. António Inácio Martins, anarquista do Porto, José Bernardo, de Setúbal” aqui

BNP N61 Cx39 F04

“ Fortaleza de Peniche – 1934. Ao centro: Manuel Joaquim de Sousa, que foi o primeiro Secretário Geral da C.G.T. Da esquerda para a direita, sentados: José Francisco, do Secretariado da C.G.T. em 1933; António Inácio Martins, regressado da deportação em Angola, mas detido em Peniche. De pé, e pela mesma ordem: José António Machado, da Juventude Libertária; José Vaz Rodrigues, falecido na Penitenciária de Coimbra, onde cumpria pena por estar envolvido no atentado a Salazar; José Mestre Valadas Ramos, militante rural alentejano, morto em combate na Guerra Civil de Espanha, participando nas Milícias da C.N.T.” aqui

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Postal com a imagem do Forte enviado pelo corticeiro e militante anarco-sindicalista Reis Sequeira, de Silves, preso em Peniche, à família no Algarve, em 15/9/1936

 

3 comments

  1. Pingback: Portal Anarquista
  2. Recomendo que se faça incluir na lista de textos da autoria de De Eduardo Sousa, Virgilio Caletti, António Alvão, Luís Bernardes, Fernando Dias e do comunicado da Alternativa/Federação dos Anarquistas Comunistas, articulados com o protesto contra a omissão, isto em tormo do caso do Museu Nacional Resistencia e Liberdade – Forte de Peniche – o texto de Carlos Gordilho … não é com desastrosas subtilezas ou floreados académicos… publicado na vossa página em 19 de Janeiro de 2020. Tal como se pode pressupor, os participantes nesta contestação teem motivos para esperar que outras pessoas se juntem tanto que possível ao nosso protesto, que contribuem na discussão.

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