100 anos de Boris Vian


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Boris Vian  (Ville-d’Avray, 10 de Março de 1920 — Paris, 23 de Junho de 1959) nasceu há 100 anos. Anarquista, foi escritor e compositor. Le deserteur é um dos mais belos hinos anti-militaristas de sempre.

Senhor presidente
Escrevo-lhe uma carta
Que talvez leia
Se tiver tempo

Acabei de receber
Os meus papéis militares
Para ir para a guerra
Antes de quarta-feira à noite

Senhor presidente
Eu não quero fazer isso
Não estou na terra
Para matar pobres pessoas

Não é para vos chatear
Mas é preciso que lhe diga
Que a minha decisão está tomada
Vou desertar

Desde que nasci
Vi o meu pai morrer
Vi os meus irmãos partirem
E os meus filhos chorarem

A minha mãe sofreu bastante
Ela está no seu túmulo
E ri-se das bombas
E ri-se dos vermes

Quando eu estava preso
Roubaram-me a mulher
Roubaram-me a alma
E todo o meu querido passado

Amanhã bem cedo
Fecho a minha porta
No nariz dos anos mortos
E irei pelos caminhos

Mendigando a minha vida
Pelas estradas da França
Da Bretanha à Provença
E direi às pessoas:

Recusem-se a obedecer
Recusem-se a fazê-lo
Não vão à guerra
Recusem-se a partir

Se é preciso dar sangue
Dê o seu
Você é um bom apóstolo
Senhor presidente

Se me perseguir
Previna os seus polícias
Que eu não estarei armado
E que eles podem disparar

(Boris Vian, tradução Portal Anarquista)

*

O desertor

(tradução e adaptação para a realidade portuguesa, de José Mário Branco, que a cantou profusamente entre 1966 e 1974)

Ao senhor presidente
e chefe da nação
escrevo a presente
pra sua informação

recebi um postal
um papel militar
com ordem pra marchar
prà guerra colonial

diga aos seus generais
que eu não faço essa guerra
porque eu não vim à Terra
pra matar meus iguais

e aqui digo ao senhor
queira o senhor ou não
tomei a decisão
de ser um desertor

desde que me conheço
já vi meu pai morrer
vi meus irmãos sofrer
vi meus filhos sem berço

minha mãe sofreu tanto
que me deixou sozinho
morreu devagarinho
nas dobras do seu pranto

já estive na prisão
sem razão me prenderam
sem razão me bateram
como se fosse um cão

amanhã de madrugada
pego numa sacola
e na minha viola
e meto-me à estrada

irei sem descansar
pela terra lusitana
do Minho ao Guadiana
toda a gente avisar

à guerra dizei ‘não!’
a gente negra sofre
e como nós é pobre
somos todos irmãos

e se quer continuar
a matar essa gente
vá o senhor presidente
tomar o meu lugar

se me mandar buscar
previna a sua guarda
que eu tenho uma espingarda
e que eu sei atirar

Sobre Boris Vian: https://pt.wikipedia.org/wiki/Boris_Vian

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