COVID 19: não deitar fora o bebé com a água do banho


EuropaPress

Luís Bernardes 

Sem querer minimizar os riscos evidentes da actual pandemia do Covid 19 – que, como outras pandemias anteriores na história da humanidade, percorre o globo num rasto de pânico e incerteza -, nem entrando nas mais que suspeitas teorias conspirativas em que estes momentos são férteis, considero que a forma como esta doença está a ser abordada na generalidade dos países terá consequências, ainda difíceis de analisar, mas que nos conduzirão a sociedades mais concentracionárias e ditatoriais.

O medo que todos verificamos no olhar daqueles com que nos cruzamos nas ruas, o comércio totalmente fechado e, quando não, com filas intermináveis à porta, o afastamento social que não se carateriza apenas por não estar em grupo, mas em ver em cada outro ser humano um inimigo potencial, a xenofobia contra os estranhos que já se verifica um pouco aqui e ali, os constantes apelos a que seja declarado o estado de emergência e que os países parem por completo, como se tal fosse possível ou desejável, são apenas sintomas de um mal mais geral que aparece sempre nas crises (por isso elas, tantas vezes, são artificialmente provocadas): o medo apela a medidas securitárias, desproporcionadas que, após as crises terem  passado, se vão manter e, em muitos casos, potenciar.

O exemplo da China, um estado totalitário, de partido único, mas com uma economia selvagem e de mercado, em que existe um controlo total, seja social ou individual, cada vez aparece como mais apetecível às elites de todo o mundo – e a ideologia do estado, seja comunista ou fascista, pouco importa desde que cumpra o desígnio de controlar totalmente a sociedade e os indivíduos que a integram. O “1984” de Orwell não se definia pela ideologia, mas pelos métodos utilizados para o controlo social.

Depois de superada a crise do novo corona vírus, de enterrados os mortos, o que menos precisamos é de uma sociedade que restrinja os direitos e liberdades individuais, que deviam ser “sagrados” e intocáveis, sobretudo em situação de crise – e é nesses momentos que se vê a sua resiliência.

Há dias num programa de TV (Eixo do Mal), só para dar um exemplo que se repete amiúde, um grupo de comentadores mais à esquerda ou mais à direita era unânime em que era preciso “uma voz de comando”, um estado forte”, que impusesse o que achasse melhor neste momento. Esta deriva securitária (agora face a uma questão epidémica) não é muito diferente das vozes que se levantam noutros contextos para exigir “uma voz forte e de comando”, seja durante catástrofes naturais, conflitos bélicos ou disputas nacionalistas, com os resultados nefastos que todos conhecemos.

O medo que está a ser induzido na sociedade, sobretudo junto dos mais idosos, e canalizado para os sectores da pequena e média burguesia (os funcionários de topo e quadros há muito que estão em casa, resguardados) está em crescendo e não auguro nada de bom para os próximos tempos quando começar a faltar o dinheiro nas casas e a tensão social cada vez for maior.

Se a alternativa fosse a construção de uma sociedade mais solidária e justa seria de olhar para esta tensão e para os conflitos que se vão gerar de uma forma positiva. Assim, pelo contrário, serão o terreno propício à génese de soluções autoritárias e totalitárias de que o estado de emergência que nos querem impor não é apenas senão um dos sinais. E nem sequer o mais visível e assustador.

Por isso, nos tempos que correm, há que reforçar a vigilância, combater o medo e o desespero e acentuar sempre que a liberdade de opinião, de circulação e de decisão individuais não podem ser postas em causa em nenhum momento. Seja em nome da “democracia”, seja em nome dos fascismos que se prefiguram no horizonte.

Raras vezes na história recente o pensamento libertário foi tão necessário como antídoto ao vírus do totalitarismo e das pulsões autoritárias e securitárias que grassam, neste momento, por todo o globo.

Luís Bernardes

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