(rede_libertária) Cenários para o pós Covid 19


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M. Ricardo de Sousa

Apesar de ainda estarmos na fase inicial desta pandemia, trágica e imprevista, predominam as incertezas e dúvidas sobre as suas consequências sanitárias, económicas e sociais. Até porque só agora está chegando aos EUA, Brasil, Índia e África. Podemos prever que a pandemia vai parar a economia de grande parte dos países por mais de um trimestre – já se fala um ano -, provocando, no melhor cenário, dezenas de milhares de mortos, encerrando milhares de empresas, gerando milhões de desempregados e introduzindo por muito tempo medo entre os cidadãos, consumidores, e capitalistas, o que vai travar investimentos, consumo, viagens etc. Uma crise só com paralelo nos anos 20 do século passado, com a Grande Depressão. Atrevo-me a apresentar dois, ou talvez três, cenários, possíveis:

1- As instituições multilaterais, BM, FMI, BCE, Reserva Federal Americana e governos do G7 e China, acertam um programa mundial, tipo New Deal e Plano Marshall, em grande escala, para salvar e relançar a economia capitalista, consolidando-se os mecanismos de governo global, mas assente ainda em governos regionais e nacionais fortalecidos e com maior poder sobre as sociedades. Neste caso as pessoas, atemorizadas, vão tornar-se ainda mais dependentes do Estado, conformistas, criando-se assim condições para um sistema mais regulado, mais uniformizado e estabilizado, mantendo, no entanto, um referencial formal de democracia representativa, no Ocidente, com um Estado Providência reforçado, mas com mecanismos de controle tecnológico que até hoje nunca existiram e agora ganham mais legitimação (supercomputação, grandes bases de dados, GPS, controle das comunicações, reconhecimento biométrico, meios de desinformação de massas etc. etc.). Se quiserem podemos usar o conceito de democracia totalitária, que alguém já usou embora noutro contexto.

2- As soluções económicas, com um perfil liberal, são aplicadas localmente, e de forma descoordenada, em cada país e região deixando que a crise que se vai instalar em força no segundo semestre deste ano liquide uma grande parte da economia, micro, pequenas e médias empresas, permitindo a reestruturação das grandes empresas e morte dos sectores ultrapassados da economia, seguindo o princípio da selecção natural. Neste caso abre-se uma grave crise social provocando o retorno em força da luta de classes, a guerra social, reaparecendo propostas radicais de alternativa ao Sistema com a possibilidade de mudanças profundas do sistema capitalista a médio prazo. Mas com riscos acrescidos de imposições de soluções totalitárias, a curto prazo, por sectores das classes dominantes apoiadas por segmentos conservadores e populistas da sociedade, tal como aconteceu nos anos vinte do século passado.

Estes cenários podem até ocorrer em paralelo, alguns países, e blocos, seguem o primeiro modelo, enquanto outros optam pelo segundo o que permitiria ao capitalismo atingir uma nova fase em alguns países deixando para trás outros países com economias e sociedades afundadas por muitas décadas no desastre. Distanciando ainda mais países que chamámos de ricos dos países empobrecidos, usando uma terminologia comum mas inapropriada.

Estes dois cenários são extremamente pessimistas e só no pior se contempla o ressurgir, a curto prazo, de uma oposição radical significativa ao Sistema…Isto apesar de termos assistido neste período que estamos a viver a manifestações extremamente positivas de cooperação, solidariedade e apoio mútuo, no sentido em que falava Kropotkin, e a um aparentemente reconhecimento do sentido da comunidade humana que calou, em grande parte, os discursos raivosos da direita xenófoba e nacionalista. Por estas últimas razões, penso (…) que esta crise pode ter um resultado indirecto positivo no sentido de as pessoas reflectirem sobre o tipo de sociedade em que vivem. Pode ser que esteja lançada uma semente libertária, ou se quisermos uma dúvida, na nossas sociedades capitalistas, consumistas, individualistas e de concorrência feroz. Se assim for, quem sabe, a médio prazo, talvez se recupere a ideia da necessidade de uma alternativa ao capitalismo. Isto já seria um terceiro cenário possível, com uma boa dose de optimismo. Mesmo sabendo que hoje, ao contrários dos anos vinte do século passado, estar ausente um significativo movimento social anti-capitalista e a presença libertária ser residual.

Março de 2020

M. Ricardo de Sousa

Ver também, noutra abordagem, Paulo Guimarães: O vírus subversivo: notas contra o medo e o tédio

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