Mês: Abril 2020

[rede_libertaria] Sobre o capitalismo verde


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M. Ricardo de Sousa

Li com atenção o texto do António Cândido Franco e concordo com ele em grande parte da análise. Mas tenho uma divergência importante que passo a explicar.

O texto em questão dá como um dado adquirido que a estratégia do capitalismo verde é a que as classes, e elites, dominantes pretendem implantar a curto prazo. Esta constatação penso ser precipitada. Nesta conjuntura da crise económica-social que se vai seguir à pandemia, há ainda muitas indefinições, sobre as quais tenho chamado sucessivamente a atenção. Há a possibilidade de diferentes cenários, e estratégias diferentes, por parte das classes dominantes.

Uma é a  meu ver assente na defesa do Estado providência, de uma maior intervenção na economia, de uma acção global concertada e que pode coincidir com uma reestruturação geral do capitalismo e eventualmente desse tal caminho do capitalismo verdes de que dei conta numa notícia do El Pais.

Outra será dos sectores ultra-liberais, nacionalistas e desenvolvimentistas (incluindo países como a China, Índia, Brasil e EUA, Reino Unido), dispostos a deixar morrer pessoas e empresas fracas, que vão tentar fazer recuar acordos ambientais, usar as energias fósseis, e seguir o velho caminho da economia industrial do século XX.

Este conflito está instalado e esta crise só o vai acentuar pois a reconversão capitalista, nesta fase, seria mais um complicador ao retomar rápido do chamado “crescimento económico”.

Se em termos do futuro de médio-longo prazo penso, tal como o António, que o caminho das classes dominantes vai ser numa direcção autoritária de um capitalismo verde, a curto prazo o conflito entre estas estratégias vai se acentuar. O que pode acontecer é que a Europa siga um caminho “futurista” e os EUA, China e parte dos G20, outro caminho mais convencional.

Mas com a profunda crise que vem por aí e os impactos sociais que vai ter, já está a ter, basta ver o que está a acontecer nos EUA, tudo fica ainda mais imprevisível, pois o ultraliberalismo corresponde a apagar fogos com gasolina. Nada que os exércitos e os bombeiros não saibam fazer, mas que exige muita técnica e algumas vezes sorte.

Nesta equação também devem caber o povo, as classes subalternas, os desempregados, assalariados pobres, excluídos e os chateados, que podem sair para as ruas.

Saúde e liberdade.

M. Ricardo de Sousa

24/4/2020

(Porto) Num mundo pandémico, o único vírus possível é a Revolta!


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Este texto nasce de uma necessidade de comunicação e discussão entre companheiros. Nasce de uma tentativa de combater a distancia física e a falta de debate cara-a-cara, procurando apenas pôr no papel uns tópicos de discussão e de análise sem qualquer pretensão de verdade absoluta ou de descoberta da pólvora, sendo antes demais um apanhado de certas discussões que se foram fazendo dentro de certos grupos e que nos parecem ser importantes de socializar a um coletivo mais alargado de companheiros.

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(#rede_libertaria)NOVAS NOTAS PARA A COMPREENSÃO DO ACTUAL ESTADO DE EMERGÊNCIA


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A. Cândido Franco

Regresso a duas noções do meu texto anterior – o bioterror e o ecofascismo – para melhor as esclarecer no seguimento das várias intervenções mais recentes e das interpelações feitas. Este é um diálogo em que nenhum de nós pode ter a certeza de estar certo nos termos que usa, nas indicações que dá e nas posições que defende. Tem porém a vantagem de ser um diálogo autêntico e um esforço em compreender o que se está a passar sem estar refém de pressas, de interesses de audiência e de doutrina feita. Acredito por isso que alguma coisa de interessante e de promissor para o entendimento do presente está a ficar desta troca de ideias.

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Não à Militarização da Saúde Pública!


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Falemos de algumas precauções a serem tomadas nas medidas de combate ao coronavírus. Comecemos por declarar que não podemos permitir que, com a justificativa de supressão do vírus, sejam suprimidas as nossas liberdades individuais e coletivas. A declaração do Estado de Emergência em vários países tem significado multas, detenções, retração dos direitos laborais, abusos policiais e até penas de prisão.

Por cá a população, de uma forma geral, tem demonstrado ser consciente da importância do isolamento social sempre que é possível,de ser capaz de pensar e pôr em prática diversas ações solidárias e de estar disposta a aprender sobre os cuidados sanitários necessários, muitas até antes da declaração de todas estas medidas restritivas.

Projetos populares como cantinas solidárias, pontos de recolha e partilha de alimentos e roupa, distribuição de máscaras e tantas outras iniciativas individuais de apoio às pessoas que configuraram grupos de risco ou em sufoco económico, espalham-se por todo o território nacional, o que evidência a existência do potencial reativo e organizativo das comunidades.

Então porque é que a abordagem dos estados para resolver um problema de saúde global passa por imposição de medidas repressivas e paternalistas? Porque é que parte da população aceita e encontra nestas normas a ilusória ideia que estas funcionarão como uma espécie de vacina anti-viral? E porque é que o foco real não está nem nunca esteve no reforço e proteção do sistema sanitário e de todos os individuos?

É certo que todas estas estratégias estatais já seriam espectáveis mas não podemos deixar de afirmar que o que deve ser fortalecido são os modos e as condições para ampliar a capacidade de responsabilidade individual e coletiva, e não aceitamos que a forma imposta pelo Estado de combater a pandemia esteja centrada no castigo, na precarização do trabalho e desproteção dos mais vulneráveis. Lembramos, também, que na administração de políticas públicas, não se pode não analisar quem serão os agentes que as executarão.

No caso de políticas repressivas, esta tarefa recai nos braços das forças policiais, como a PSP, que tem sido alvo de diversas acusações de racismo. Esta mesma PSP figurou nas notícias recentes com flagrantes espancamentos de pessoas negras e imigrantes, prática que infelizmente constata-se recorrente dentro da instituição. Ao delegar esta nova amplitude de poder a estes corpos de controle, em nome da saúde pública, é tornar mais vulnerável justamente a população não branca e a população imigrante que fica à mercê da arbitrariedade dos seus agentes.

Outra das principais imposições do estado de emergência é a suspensão do direito à greve, onde facilmente detetam-se várias contradições que por si só demonstram que em nada estas medidas pretendem ser eficazes no combate à pandemia. Deixar os direitos laborais totalmente à mercê dos patrões, é comprometer o livre acesso à quarentena e à escolha do isolamento social.

A saúde pública não pode ser tratada como um caso policial, nem como justificativa discursiva para a repressão.

Reclamamos a total possibilidade de organização e que as prioridades passem por garantir o acesso indiscriminado a formas de protecção e apoio seja no âmbito sanitário, habitacional, laboral e social.

Contra o estado de emergência! Contra a policialização da saúde pública! Queremos condições materiais para o distanciamento social, e não repressão e violência!

Assinam:
Disgraça – Lisboa
RELL Coimbra
RELL Lisboa
RELL Porto
RAM LX
STOP Despejos – Lisboa
Habita – Lisboa
Real República do Pra kys tão – Coimbra
República Ninho da Matulónia – Coimbra

aqui: https://www.facebook.com/RededeApoioMutuo/photos/a.120653782637576/246206143415672/?type=3&theater

(# rede_libertaria)Desemprego, doenças crónicas sem acompanhamento clínico, violência doméstica, fome: o mapa de um governo sem linha de rumo.


guiolhotina

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Um mês depois das medidas tomadas pelo governo de fechar as escolas, os cafés, restaurantes e um sem número de actividades e ter imposto o confinamento obrigatório começam a ver-se os seus efeitos. Estes efeitos reflectem-se, positivamente, por exemplo, no número relativamente baixo de casos graves atribuídos ao Covid19 nesta primeira fase e num SNS que passou, mais ao menos, incólume a esta primeira vaga.

No entanto, os efeitos sociais acumulam-se e por cada dia que passa são muitos os trabalhadores arrastados para o desemprego e para a maior miséria. Num país onde grande parte dos empregos (agricultura, turismo, restauração, construção civil, serviços) é precário e raramente ultrapassa o valor do salário mínimo, qualquer corte (seja de 1/3, seja de outro valor) nos rendimentos do trabalho afecta radicalmente a vida de muitas pessoas. Por outro lado, tendo a economia informal também um grande peso, os trabalhadores que dela vivem, neste momento, não têm qualquer tipo de alternativa .Não há biscates, nem outras formas alternativas de se ganhar a vida.

A actuação do governo nestes dias, prometendo mundos e fundos, mas com a máquina burocrática e administrativa quase parada e com os apoios prometidos a não chegarem à economia, parece ser a de um improviso total.

A ideia que passa é que, ainda com a memória fresca das mortes causadas pela incúria nos incêndios de há três anos, António Costa o que pretendeu com as medidas tomadas foi apenas impedir um elevado número de mortos a curto prazo e tentar que um SNS anémico e depauperado de profissionais e meios materiais não colapsasse num primeiro momento.

Este imediatismo, sem qualquer estudo a médio e longo prazo, e tomado a maior parte das vezes apenas como uma opção política, sem ser escudado pela opinião técnica de epidemiologistas e virologistas, poderá ter evitado algumas mortes e a ruptura do SNS nesta primeira vaga, mas trouxe um acumular de problemas e de questões ligadas ao desemprego e à falta de recursos que poderá, num saldo final, revelar que as medidas tomadas, o confinamento e o estado de emergência foram, pelo contrário, nefastas e que só vieram agravar os problemas.

Nesta fase, e mais uma vez, o governo parece não saber para onde vai, nem o que fazer. Mantém o estado de emergência, enquanto esboça tímidas tentativas de reabrir a economia. Só que a situação que se vive de medo, de pânico, e a situação criada a largos sectores da população que foram arrastados para a miséria de um momento para o outro, os casos de doenças graves que não têm sido tratados nem acompanhados, a depressão e os suicídios, bem como a violência doméstica, que têm crescido muito e se espera possam crescer ainda mais enquanto durar o estado de emergência, aliado à violação constante dos direitos e liberdades individuais, levam a crer que todo o esforço que o povo português fez neste último mês poderá ter sido em vão. O saldo final desta pandemia poderá não ser muito melhor do que o de outros países que tiveram outras posturas e preservaram melhor o seu tecido social.