Day: Abril 14, 2020

(rede_libertária) Apontamentos soltos sobre o debate em curso


viddeovigil

CEL / Jornal ‘A Batalha’

O texto do Viriato Porto toca em temas sensíveis que nos parecem muito pertinentes: se alguém ainda considerava que havia um reduto ou geografia que escapasse à vigilância e controlo, provavelmente esse alguém acordará para a “nova” dura realidade nos próximos tempos. Não que isto seja propriamente novo em nenhum aspecto. A cidade da peste e da quarentena manteve-se até meados do séc. XIX em França, com todo o aparato policial e de governação legitimado. A partir daí o modelo tornou-se obsoleto porque não era preciso ter as pessoas encarceradas para vigiá-las. É a velha história do panóptico ter forçado a entrada na fábrica, no hospital, na escola: todas as dimensões humanas e todos os locais podiam ser facilmente vigiados. Nos últimos anos, já nem o panóptico era necessário. A vigilância era feita uns pelos outros, cada sujeito a olhar para si e para o outro. No mundo do trabalho, o triunfo dos open spaces e dos espaços de co-work são isso mesmo: juntar uma precariedade laboral dos trabalhadores independentes à vigilância de todos sobre todos. Todos se observam e vigiam e garantem que a produtividade se desenvolve naturalmente. A juntar a isso há quem fale em apópticos na época neoliberal: enquanto o panóptico disciplina, o apóptico garante a segurança. O bolo está cozinhado há muito tempo e esta aparente desaceleração apenas acelerou esta tecnologia. Mas acho que é preciso sublinhar um ponto central de tudo isto: já não é só o Estado, nem as corporações económicas que vão formatar e modelar os comportamentos e a nossa vidinha nos próximos tempos; claro que eles continuarão a actuar nesse sentido, mas agora terão a colaboração preciosa dos próprios indivíduos-cidadãos. Afinal, não foi o excelso primeiro-ministro cá do burgo que disse que “o melhor polícia somos nós próprios”?

(mais…)