(rede_libertária) Apontamentos soltos sobre o debate em curso


viddeovigil

CEL / Jornal ‘A Batalha’

O texto do Viriato Porto toca em temas sensíveis que nos parecem muito pertinentes: se alguém ainda considerava que havia um reduto ou geografia que escapasse à vigilância e controlo, provavelmente esse alguém acordará para a “nova” dura realidade nos próximos tempos. Não que isto seja propriamente novo em nenhum aspecto. A cidade da peste e da quarentena manteve-se até meados do séc. XIX em França, com todo o aparato policial e de governação legitimado. A partir daí o modelo tornou-se obsoleto porque não era preciso ter as pessoas encarceradas para vigiá-las. É a velha história do panóptico ter forçado a entrada na fábrica, no hospital, na escola: todas as dimensões humanas e todos os locais podiam ser facilmente vigiados. Nos últimos anos, já nem o panóptico era necessário. A vigilância era feita uns pelos outros, cada sujeito a olhar para si e para o outro. No mundo do trabalho, o triunfo dos open spaces e dos espaços de co-work são isso mesmo: juntar uma precariedade laboral dos trabalhadores independentes à vigilância de todos sobre todos. Todos se observam e vigiam e garantem que a produtividade se desenvolve naturalmente. A juntar a isso há quem fale em apópticos na época neoliberal: enquanto o panóptico disciplina, o apóptico garante a segurança. O bolo está cozinhado há muito tempo e esta aparente desaceleração apenas acelerou esta tecnologia. Mas acho que é preciso sublinhar um ponto central de tudo isto: já não é só o Estado, nem as corporações económicas que vão formatar e modelar os comportamentos e a nossa vidinha nos próximos tempos; claro que eles continuarão a actuar nesse sentido, mas agora terão a colaboração preciosa dos próprios indivíduos-cidadãos. Afinal, não foi o excelso primeiro-ministro cá do burgo que disse que “o melhor polícia somos nós próprios”?

– Por essa razão, permitam-nos discordar do tom reinante na maior parte dos textos partilhados. Não nos parece que isto seja o regresso do fascismo, da ditadura, de uma especial “deriva autoritária”, como lhe chama o Luís Bernardes. Os regimes de governação têm aprimorado todo o seu aparelho autoritário e esta é mais uma instância. São precisas categorias novas, termos novos para pensar a realidade actual. Os fenómenos são muito diferentes dos do século passado. “Democracia totalitária” é certamente melhor do que esbracejar contra um conjunto de inimigos que mudou de nome porque criou discursos e novas práticas perversas. Pensar o contrário é partir do pressuposto que estamos num processo decadentista, o que prevê que houve uma era de ouro para as liberdades. Não houve e consideramos ingénuo partir dessa noção. O que claramente a pandemia veio possibilitar foi uma aceleração na introdução de novos mecanismos de organização social. Há vários exemplos nesse sentido: a vigilância através de apps em Israel e na Coreia do Sul; a modificação do sistema de educação, com a gradual automatização e distanciamento entre alunos e professores, que possibilitará homogeneizar os programas e a instrução, modelando eficazmente os futuros cidadãos a nível mundial, à medida que se eliminam os conflitos e se termina com a construção de um espaço comunitário embrionário, como era o recreio (os sistemas de ensino à distância, patrocinados pela banca e empresas, já estava em vigor em tantas universidades); o “teletrabalho”, a que muitos já estavam habituados, em que o espaço de lazer e descanso se confunde com o espaço de trabalho (toda uma economia da habitação que já estava a ser transformada há algum tempo). O que queremos dizer é apenas que nada disto é surpreendente ou novo, mas são transformações mais rápidas do que se contava. Mas o tempo do capitalismo tardio sempre foi este: aceleração continuada e ininterrupta. O neoliberalismo sempre se caracterizou por ser uma moeda com duas faces: laissez faire na economia, militarização na segurança.

– Quanto à entrevista ao Carlos Taibo, há claramente uma tensão entre respostas bastante boas e perguntas bastante problemáticas. Não é só a terminologia utilizada (“classe trabalhadora”, que identidade é esta e qual a sua relevância nos dias de hoje para pensar o mundo do trabalho?), mas o subtexto que premeia as questões. Se atentarem à pergunta sobre a “saúde pública”, que o Taibo apanhou bem, caímos numa das preocupações que o Eduardo já tinha expressado e que é de imensa importância para pensar em que lado da barricada estamos: perante uma pandemia, teremos de defender um regresso ao Estado Social? Esta é uma questão com a qual qualquer anarquista terá de se confrontar: se os sistemas de saúde entraram em ruptura com o neoliberalismo, devemos retomar o modelo do assistencialismo estatal, para que não se regresse a uma situação catastrófica como esta? Um anarquista terá de estar preparado para responder a estas questões e a solução abstracta da “autogestão dos serviços comunitários” tem de ser aprimorada e apresentar-se como uma resposta robusta e sofisticada. Receamos que, sem isso, só restem duas soluções: (i) a destruição dos pequenos mercados acelerará a acumulação pelas grandes corporações, que aproveitarão esta crise para espalharem ainda mais os seus tentáculos pela sociedade (ex: com o encerramento de restaurantes familiares, os franchises das grandes lojas ocuparão ainda mais as cidades; livrarias pequenas e de bairro a fecharem para aumentar a concentração da oferta cultural em FNACs e outros conglomerados); (ii) um reforço do estado social, com todo o seu aparato de controlo e vigilância e de gestão do capitalismo, ao mesmo tempo em que se dará o trade-off entre promessas de maior segurança na saúde, acompanhadas por um maior investimento na segurança e no policiamento. Possivelmente as duas soluções emergirão em conjunto, com um reforço do financiamento do estado nessas áreas, enquanto que todas as outras terão os seus orçamentos ainda mais reduzidos (educação, cultura). Chegaremos finalmente ao tão sonhado estado dos eugenistas e geneticistas: um estado forte e que garantirá a higiene social. Em troca, só será necessário que se prescinda de um conjunto de direitos, que na verdade não só são supérfluos como em tempos de crise e de falhanço do Estado podem ser absolutamente obliterados: aqui em Portugal, o direito à greve, por exemplo, foi suspenso sem qualquer oposição, a não ser com algumas notas de preocupação por parte da rapaziada do costume. A mesma rapaziada que, passadas duas semanas, foi proibida de entrar na reuniões da concertação social. Um fardo que só era suportável nos velhos tempos normais. Mas agora teremos de nos habituar a uma nova normalidade, que não vai ser assim tão diferente da antiga.

Saudações libertárias,

CEL (Centro de Estudos Libertários) / Jornal ‘A Batalha’

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