(#rede_libertária) A velha oposição trabalho/capital não morreu. Não acreditem em tudo o que as notícias dizem.


Pyramid_of_Capitalist_System

Luís Bernardes/Portal Anarquista

Sem pretender qualquer certeza de critérios ou de opiniões, julgo que o debate em torno da existência ou não de “classe trabalhadora” e do posicionamento libertário em torno dos “interesses de classe” poderá ser interessante. A questão foi levantada no texto do CEL/A Batalha, referindo-se a um texto meu, divulgado através do Portal Anarquista, em que eu me referia  à “classe trabalhadora”.

Para o CEL a expressão levanta dúvidas (“que identidade é esta e qual a sua relevância nos dias de hoje para pensar o mundo do trabalho?”), tal como as premissas em que se baseia, uma vez que o meu texto partia do pressuposto de que são exactamente as classes trabalhadoras as que mais estão e vão sofrer com esta crise. Por isso, sem qualquer constrangimento, bem pelo contrário, aceito o debate e agradeço. Dirimindo posições diversas encontraremos mais caminhos comuns do que partindo de verdades inabaláveis.

Ao contrário de alguns analistas de vários quadrantes políticos, considero que nesta sociedade dita “pós-moderna” não acabou a contradição entre o trabalho e o capital, ou seja, entre os que detêm os meios de produção e aqueles que são assalariados e vivem unicamente da venda da sua força de trabalho. Claro que aqui há muitas nuances, as fronteiras entre classes não são rígidas nem sequer é verdadeiro afirmar que a “luta de classes é o único motor da história”. Diria que é um dos motores, entre muitos outros também determinantes e significantes, mas que ela existe e é bem visível, opondo de forma clara interesses e posicionamentos diversos.

Também é verdade que definir hoje classe trabalhadora é diferente da definição que existia nos finais do século XIX, em que quem trabalhava no sector terciário claramente se diferenciava do trabalhador agrícola ou industrial. Hoje isso não acontece de forma tão clara, e ainda que subsistam trabalhos operários à moda antiga, muitos foram substituídos pelo uso de tecnologias modernas, menos invasivas (por exemplo, entre outros, os trabalhadores das lavarias das minas, antes um trabalho muito duro, é hoje essencialmente um trabalho que consiste em lidar com tecnologia e que necessita de uma elevada preparação técnica).

A meu ver o conceito de classe trabalhadora contém diversas camadas, desde os verdadeiramente de baixo, excluídos do processo produtivo pelas mais diversas razões, até aos que dominam as novas tecnologias – por exemplo, pilotos de aviões, médicos, etc., que estão integrados no sistema hierárquico de trabalho, cumprem ordens, mas não detêm a propriedade nem a direção global desses meios de produção ou serviços.

Parece-me também que o afastamento do mundo de trabalho – em cuja defesa ‘A Batalha’ durante muitos anos esteve praticamente sozinha, enquanto jornal anarcossindicalista dirigido expressamente para essa realidade, e que hoje abandonou – provocou a limitação do campo em que se move o anarquismo em Portugal, muito apontado para temas considerados mais fracturantes e actuais (e, certamente, do maior interesse) mas deixando ao abandono uma das áreas onde a conflitualidade está sempre presente: a dos assalariados, dos trabalhadores por conta de outrem, à margem dos mecanismos de decisão, face aos seus empregadores.

Talvez não seja por acaso que, no Estado Espanhol , onde essa ligação entre anarquismo e mundo do trabalho permaneceu mais viva, é também onde, ainda neste momento, existe o maior número de organizações libertárias e o movimento anarquista tem uma existência real.

Dizer isto não é centrar tudo nesta dimensão social e conflitual do anarquismo, enquanto elemento estruturante e arma do movimento de trabalhadores (por exemplo, através do anarcossindicalismo). Numa sociedade em rede, todas as questões são relevantes e a luta pela afirmação feminina, pelo clima, pelo decrescimento ou por uma saúde para todos não têm menor relevância do que o combate em torno das questões do trabalho ou do trabalho assalariado. Mas, também por isso,  as questões do mundo do trabalho e da existência de trabalho assalariado, com os seus problemas próprios e específicos, não podem ser totalmente afastadas do universo libertário como, em Portugal, tantas vezes tem acontecido.

A meu ver, a fraqueza do anarquismo em Portugal é marcada, também, por este facto e, por isso, também, enquanto trabalhador assalariado por conta de outrem, estou particularmente atento a esta realidade e considero que esta crise está e vai agravar esse fosso – entre os que detêm meios de produção ou de obtenção de rendas  e os que vivem apenas e exclusivamente da venda da sua força de trabalho.

Daí que esta seja, na minha opinião, uma área a que tenhamos que estar – em conjunto com muitas outras – particularmente atentos.

Luís Bernardes/Portal Anarquista

13/4/2020

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