(Porto) Num mundo pandémico, o único vírus possível é a Revolta!


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Este texto nasce de uma necessidade de comunicação e discussão entre companheiros. Nasce de uma tentativa de combater a distancia física e a falta de debate cara-a-cara, procurando apenas pôr no papel uns tópicos de discussão e de análise sem qualquer pretensão de verdade absoluta ou de descoberta da pólvora, sendo antes demais um apanhado de certas discussões que se foram fazendo dentro de certos grupos e que nos parecem ser importantes de socializar a um coletivo mais alargado de companheiros.

O processo desencadeado pelo aparecimento do coronavirus deixou o mundo e principalmente o hemisfério norte literalmente ligado às máquinas. Ligados às maquinas nos hospitais e ligados às máquinas em casa, sendo que até o próprio Capital encontrou a sua maneira de reprodução e sustento também através das máquinas.

O que se propõe com este texto é uma tentativa de abrir uma discussão partindo de uma análise um pouco sucinta, e talvez até mecanicista, de como se gerou e se está a gerir politicamente a redefinição da vida através da introdução de um agente perturbador no corpo social e eventuais consequências já perceptíveis no quotidiano.

Interessa-nos discutir como a declaração de pandemia permitiu pôr em prática um conjuntos de mecanismo de privação de liberdade e de condicionamento dos indivíduos e que instrumentos permitem a eficácia de tal programa político.

Achamos que é na passagem do momento biológico (a aparição de um vírus) ao momento da resposta política dada a esse fenómeno que se irá construir toda uma arquitetura do medo, que se em tempos passados se tinha alicerçado na construção de um inimigo externo mas percecionado como palpável (o terrorista), hoje se baseia num inimigo invisível, imprevisto e que pelo seu carácter biológico permite toda uma gestão baseada no imprisionamento dos corpos.

Sem querer aqui analisar a existência ou não do vírus e a sua maior ou menor perigosidade (não somos cientistas e não achamos ser esse o busílis da questão), parece-nos ser de extrema necessidade discutir os efeitos políticos da resposta por parte do Estado e da sociedade e as suas consequências quer no quotidiano imediato quer as alterações que provocará na percepção da vida e no modo de habitar o espaço social no futuro.

Logo no inicio da chamada crise do covid-19, assiste-se à posta em circulação de um discurso bélico por parte das autoridades, como uma guerra que se cria porque basta ser declarada através de discursos alarmistas. Esta belicosidade do discurso parece-nos ter várias funções, mais ou menos óbvias, para além de inculcar medo na sociedade. Em primeiro, justifica a adopção de medidas de excepção que em situações ditas normais muito dificilmente seriam aceites. Todo a prática do confinamento e de restrição da vida assenta nesse momento excepcional da guerra ao vírus.

Por outro lado, a percepção de estarmos em guerra leva ao aglomerar da sociedade à volta do Estado e por consequência dos governos, como únicos garantes da vida terrena e de proteção do individuo. Parece-nos a nós que este facto existe mesmo quando os sistemas nacionais de saúde colapsam como foi o caso de Itália ou Espanha. Apesar da gestão catastrófica da situação, o Estado continua a ser o único ponto cardeal para onde a sociedade se vira.

Por último, a socialização do discurso bélico, coletivizado na frase “ESTAMOS em guerra contra o vírus”, permite também a transformação da percepção daquele que se revolta contra o estado de excepção, que aparece agora não como inimigo do Estado (por quebrar as suas leis) mas como inimigo da sociedade e potencial agente infeccioso. Dá- se então a criação de um novo inimigo interno, já não como inimigo do Estado mas como inimigo da sociedade e potencialmente da Vida mesma.

Em relação às medidas de confinamento e à chamada “obrigação moral de permanência em casa” parece-nos óbvio que tal só é possível a nível massivo devido a todo o aparato tecnológico que nos rodeia. A Internet e os gadgets electrónicos tornam o ficar em casa mais suportável através da sua função lúdica e permite ao individuo permanecer em contacto com os seus e assim abstrair-se de certa maneira da sua situação de isolamento mas, e aqui parece-nos residir a sua função principal, estes gadgets têm servido principalmente para a exponenciação de um sentir coletivo do pânico.

É através das redes sociais e da Internet que a política do medo consegue a sua implementação depois de ter sido posta a circular pelos media tradicionais. Todos os discursos do “Fica em casa” e de policiamento do outro encontram nestes aparatos o meio por excelência de propagação, possibilitando um discurso fabricado pela instituições ser sentido como uma coisa vinda de população e ser defendido com unhas e dentes por quem é “atingido” por ele.

A quarentena e o proclamado Estado de Emergência provocam um duplo movimento, por um lado, de atomização através da redução da vida do individuo ao seu espaço mais
restrito (a casa) e, por outro, de socialização massiva do pânico através do discurso belicista por parte do Estado e de amplificação do medo através dos mass media e redes sociais.

Parece-nos a nós que é nestes dois movimentos que se joga realmente o projecto político de medo posto em circulação pelas autoridades. A vida real baseada no confinamento do indivíduo e a experiência social gerida por e vivida através dos gadgets tecnológicos conduzem, simultaneamente, a um ser e estar esquizofrénico e paranóico.

Achamos que é nesta dualidade que se baseará a vida nos próximos tempos, mesmo após o fim “hipotético” das medidas restritivas que se nos impõem. A transformação do espaço público como foco de doenças e a atomização do quotidiano já não baseada no atomismo capitalista clássico mas numa nova forma de perceber o outro e o espaço como potenciais perigos à vida do individuo.

Não nos interessa muito entrar aqui na discussão da hiper-vigilancia tecnológica que se seguirá ao fim da crise do Covid-19, porque parece-nos que essa vigilância e os meios para a pôr em prática já cá estão. E parece-nos que essas discussões se têm baseado mais num pessimismo distópico do que numa vontade de analisar as causas e os mecanismo que são “injectados” no corpo social que fazem com que sejam os próprios indivíduos a pedir essa vigilância ou no mínimo a ser complacentes com ela.

A vigilância e o controlo há muito que aí estão e não foi o vírus que as trouxe. É óbvio que se assistirá a um incremento da robotização da vida e à expansão dos mecanismos de vigilância mas parece-nos que esses fenómeno aconteceriam com ou sem crise pandémica, podendo quanto muito, terem sido acelerados por ela.

Gostaríamos sim é de debater a maneira como os anarquistas percepcionaram a crise e as possibilidades de ação dentro da paralisação social que nos foi tocada viver.

Obviamente que o pânico e o medo também nos atingiram de uma maneira ou de outra, a uns mais do que a outros, e talvez fosse inevitável ser de outra forma. Por muito que nos custe, os anarquistas não são uma categoria à parte da sociedade e impermeáveis ao que acontece fora dos nossos círculos e são momentos de excepção como este que melhor mostram as nossas falhas enquanto movimento e a falta de mecanismos de que dispomos para contrariar as situações que nos são impostas.

Prova disso é que, mais ou menos por todo o lado, a resposta maioritária dos diferentes grupos anarquistas não passaram de respostas a roçar o caritativo. Esta crítica é tão válida para os grupos que puseram de pé estruturas recolha e distribuição de comida cujo resultado é apenas uma substituição do papel caritativo do Estado, como a todos os outros grupos, nos quais nos incluímos, que por inoperância não conseguiram delinear ou sequer debater estratégias de acção para afrontar o confinamento.

A incapacidade de combater o discurso que se tornou dominante e de passar cá para fora uma outra versão das coisas, uma outra visão do processo, revelou mais uma vez a nossa falta de coordenação e como a ausência de debate e práticas continuas entre companheiros se tornam nestes momentos falhas que eventualmente se pagam caro.

Aproveitemos pois que esta situação excepcional nos leve a repensar as nossas práticas até hoje e que nos permita encontrar formas mais eficazes de comunicação e ação política de maneira a que quando a fatura dos meses de confinamento começar a ser passada, os anarquistas possam ter uma intervenção que aponte a caminhos e práticas diferentes.

O assegurar dos nossos espaços que serão de extrema importância num futuro próximo, a criação de redes de produção e consumo que apontem a uma maior independência em relação aos circuitos tradicionais de consumo; e uma produção e ação coletivas que permitam vislumbrar uma centelha de revolta criando estruturas políticas que permitam um ataque a um novo mundo que já cá está, são propostas que a nosso ver devem desde já começar a serem trabalhadas colectivamente e este texto é uma chamada a metermos mãos à obra.

Porque num mundo pandémico, o único vírus possível é a Revolta!

Alguns Anarquistas do Porto

20 de Abril de 2020

2 comments

  1. É interessante o artigo mas focaliza, até certo ponto, nos aspetos negativos da pandemia e da ação dos Estados. Onde eu moro (Inglaterra), não é tudo diferente, mas a ação dos cidadãos tem sido, em parte, comunitária e solidária com a formação de grupos de Apoyo Mútuo Covid-19, redes de apoio que levam comida a pessoas que não podem sair e uma reconsideração de o que é “a normalidade” com muitas pessoas a rejeitarem o neoliberalismo e as “lógicas” do mercado. Não posso falar dos grupos anarquistas mas o anarco-sindicalismo aqui é ativo, ganha conflictos até nest periodo, se organiza por meio de reuniões virtuais e mantem as suas estruturas.

  2. O vosso texto é interessante e coloca questões relevantes. Discordamos no entanto, da passagem em que criticam os colectivos e grupos libertários que têm encontrado saídas de solidariedade e apoio mútuo no decurso desta crise para apoiarem pessoas em estado de pobreza ou carência alimentar, agravadas pela falta de recursos numa altura em que grande parte da economia está paralisada. Dizem vocês que “Esta crítica é tão válida para os grupos que puseram de pé estruturas recolha e distribuição de comida cujo resultado é apenas uma substituição do papel caritativo do Estado”. Discordamos que seja uma substituição do “papel caritativo” do Estado, tratando, antes, de pôr em prática a solidariedade, a acção directa e a propaganda pelo acto, práticas essencialmente anarquistas, junto de sectores da população mais necessitados e que estão passando mal. Esta prática de ajuda mútua é uma caracteristica dos anarquistas que nunca esperaram pelo Estado para meter de pé estruturas de apoio mútuo, de solidariedade e de inter-ajuda, como caixas de solidariedade, cantinas comunitárias, bibliotecas sociais ou redes de auxílio em situações de emergência. Os companheiros que o têm estado a fazer em Portugal (Lisboa, Porto, Almada) e noutros países (Grécia, Espanha, etc.) não merecem que os confundam com qualquer tipo de assistencialismo caritativo, estatal ou não. Pelo contrário, merecem todo o nosso apoio, solidariedade e aplauso. Que o seu exemplo frutifique e a sua ajuda se estenda a muitos mais que dela necessitem (claro que o óptimo era ninguém necessitar) é o nosso, enquanto anarquistas, mais profundo desejo.

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