Day: Setembro 23, 2020

David Graeber deixou-nos um Presente de Despedida – Os Seus Pensamentos Sobre o livro “Ajuda Mútua” de Kropotkin


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Por Andrej Grubačić (aqui)

David Graeber foi o meu mentor e o meu amigo mais próximo nos últimos 20 anos. Participamos em dezenas de projetos políticos e escrevemos diversas coisas juntos. Ele foi, de longe, a pessoa mais brilhante que eu já conheci. Todos nós temos uma boa ideia ou outra, mas o David era sempre capaz de encontrar muitas, às vezes até na mesma frase. Eu não tenho dúvidas de que ele foi o pensador anarquista mais importante da minha geração.

Eu tenho ainda menos dúvidas de que ele foi um dos mais importantes antropólogos do nosso tempo. O seu primeiro livro, Toward an Anthropological Theory of Value (Para uma Teoria Antropológica do Valor), mudou a forma como nós teorizamos o valor. Inspirado pelo trabalho do seu falecido mentor, Terry Turner, e a sua contínua inspiração intelectual, o antropologista francês Marcel Mauss, este livro mostrou o caminho para lá dos debates substantivistas e ofereceu uma síntese entre Marx e Mauss. O seu livro-panfleto Fragments of An Anarchist Anthropology (Fragmentos de um Antropologia Anarquista) foi um trabalho pioneiro e criador de um género (genre-making) que estabeleceu a antropologia anarquista como um campo de investigação legítimo. Neste sentido, os seus livros Possibilities, Revolutions in Reverse (Possibilidades, Revoluções ao Contrário) e Direct Action: An Ethnography (Ação Direta: Uma Etnografia) forneceram ferramentas a jovens antropólogos para estudar os movimentos sociais “por dentro”. Como um colega uma vez comentou sobre o livro Possibilities, cada capítulo deste livro fenomenal podia ter sido uma inovadora monografia académica. Este livro e alguns outros dos seus principais trabalhos antropológicos foram publicados por uma editora anarquista em vez de por uma imprensa académica. É um paradoxo amargo que o melhor teórico antropólogo da sua geração nunca se tenha sentido bem em casa nos círculos antropológicos estabelecidos. Ele odiava profundamente conferências académicas. Não era apenas por causa da decisão vergonhosa de Yale de se ter livrado dele pelo seu ativismo político; o David era uma pessoa da classe trabalhadora que detestava, com cada pedaço do seu ser, qualquer indício de elitismo académico, networking ou conversa fiada. Com muito custo pessoal, ele rejeitou estes estranhos rituais sectários da vida académica. Ele era o amigo e colega mais generoso que alguém poderia esperar ter, e o mais formidável oponente do snobismo académico.

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