Month: Dezembro 2020

NA MORTE DE ALEXANDRE SKIRDA, HISTORIADOR E MILITANTE ANARQUISTA


Por Serge (aqui)

Após uma longa doença morreu, na quarta-feira, 23 de dezembro, o nosso amigo e companheiro Alexandre Skirda, aos 78 anos. Terá ido para junto do Dnieper para se juntar a Nestor Makhno, um descendente, como ele, de cossacos zaporogues?

O seu interesse por esta região e o seu domínio do idioma permitiram-lhe conhecer o movimento camponês revolucionário do sul da Ucrânia, herdeiro de séculos de prática da democracia direta. Em livros como “Nestor Makhno, o Cossaco Libertário, A Luta pelos Sovietes Livres na Ucrânia 1917-1921”, ele demonstra como, neste período, a criação de comunas livres teve como objetivo estabelecer uma sociedade sem Estado, e a forma como o Estado Bolchevique os destruiu, após ter eliminado o exército revolucionário insurrecional ucraniano, que, contudo, tinha tornado possível derrotar os exércitos brancos.

Ainda hoje o nome de Alexander Skirda irrita muitos militantes trotskistas, que não lhe perdoam ter revelado a forma como o Exército Vermelho, enviado por Trotsky, esmagou a comuna de Kronstadt, que lutava para que a Rússia tivesse uma democracia direta, federalista, e que declarava em 8 de março de 1921: “É aqui em Kronstadt que foi lançada a primeira pedra da Terceira Revolução que se opõe à ordem burocrática dos bolcheviques, deixando para trás a ditadura do Partido Comunista, das Tchekas (politica política) e do capitalismo de Estado ”. Ao publicar “Kronstadt 1921: os Sovietes Livres contra a Ditadura do Partido”, ele fazia sua, muito tempo depois, a afirmação de Stépan Pétrichenko, presidente do Comitê Revolucionário Provisório de Kronstadt: “Eles podem fuzilar os kronstadianos, mas nunca poderão fuzilar a verdade sobre Kronstadt”.

As suas investigações permitiram-lhe escrever vários livros sobre este acontecimento histórico, que foram objeto de traduções em vários países e tiveram inúmeras reedições, enriquecidas por novos documentos. Recentemente traduziu e apresentou “Kronstadt na Revolução Russa” de Efim Yartchouk, até então inédita. Este, que foi um dos principais animadores dos anarquistas de Kronstadt, descreve o que viveu e dedica a sua obra “àqueles que derramaram o seu sangue durante a revolução de 1905 pela emancipação completa do proletariado do jugo do capital e do autoridade. Aos que lutaram em fevereiro e julho de 1917 contra os donos do mundo. Àqueles que se tendo deixar enganar pelas palavras de ordem do estado proletário e que, de imediato,  ergueram as armas contra os novos senhores, os bolcheviques. Em memória daqueles que morreram no caminho para a Sociedade dos Homens Livres: a Anarquia ”.

Tendo tido a oportunidade de nos aproximarmos da montanha de documentos que alimentam os seus livros, sendo os aqui citados apenas uma parte, pudemos medir a importância da sua obra histórica ao revelar o que há muito tempo estava oculto – quer pelos “brancos” , quer pelos “vermelhos” – sobre uma revolução que teve reflexos, durante décadas, no movimento operário em muitos países.

Não esqueceremos Alexander Skirda, o historiador essencial da Revolução Russa, e também o ativista anarquista que, a partir dos anos 1960, animava o Grupo de Estudos e Ação Anarquista.

“Os mortos vivem e com eles os sonhos que transportaram”, Gustav Landauer.

(memória libertária) Vivaldo Fagundes, um anarquista algarvio


Publicado originalmente em “A Ideia”, nº 26/27, de Dezembro de 1982. Memória libertária da autoria de Adriano Botelho, um militante anarquista, falecido em 1983, aos 90 anos, depois de décadas de luta pelo ideal libertário. Nos últimos tempos do fascismo, já com idade avançada, escrevia textos anarquistas, à mão, que depois ia deixando pela cidade de Lisboa, nomeadamente nos transportes públicos. Pacifista, defensor da acção directa, Adriano Botelho foi uma referência para muitos jovens anarquistas do pós-25 de abril de 74.