(memória libertária) Vivaldo Fagundes, um anarquista algarvio


Publicado originalmente em “A Ideia”, nº 26/27, de Dezembro de 1982. Memória libertária da autoria de Adriano Botelho, um militante anarquista, falecido em 1983, aos 90 anos, depois de décadas de luta pelo ideal libertário. Nos últimos tempos do fascismo, já com idade avançada, escrevia textos anarquistas, à mão, que depois ia deixando pela cidade de Lisboa, nomeadamente nos transportes públicos. Pacifista, defensor da acção directa, Adriano Botelho foi uma referência para muitos jovens anarquistas do pós-25 de abril de 74.

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  1. QUESTIONÁRIO APRESENTADO POR ADRIANO BOTELHO AO ANARQUISTA PORTUGUÊS VIVALDO FAGUNDES, COMBATENTE NA GUERRA CIVIL DE ESPANHA

    Documento transcrito no livro “A Resistência Anarco Sindicalista à Ditadura, Portugal 1922-1939”, Edgar Rodrigues, editora Sementeira, pp. 312-319, Lisboa, 1981.

    P. – Foram consultados previamente os organismos aderentes à C.N.T., quando esta resolveu comparticipar no Governo?

    R. – Não. Os militantes interessados em que a organização confederal desse esse passo suícida-se – que tão mal fes à revolução espanhola, às ideias e ao movimento operário revolucionário internacional – para o colaboracionismo estatal sabiam de antemão que se sujeitassem às normas dos estatutos da Organização, convocando para tal efeito um Congresso Nacional, saíriam derrotados, eles e a tendência revisionista, que tão ridiculamente representavam.
    A imensa maioria dos militantes confederais, a imensa maioria doa afiliados à C.N.T., eram antes de 19 de Julho de 1936, foram durante todo o período da guerra e são hoje no exílio e em Espanha, com mais convicção do que nunca pelos exemplos vividos, anti-colaboracionistas, anti-estatais, numa palavra: Revolucionários, tal como o foram sempre sindicalistas revolucionários, os comunistas libertários e os anarquistas. Há exemplos e documentos que o provam de sobejo, passados e publicados em Espanha durante a guerra, e depois no exílio, em França, na Inglaterra, e mais abundantemente nos países da América Latina e também do Norte.
    Depois da derrota, e dos muitos males que contribuíram grandemente para a sua rapediz, vieram as desculpas e os tardios arrependimentos dos mais categorizados militantes que arrastaram com a sua conduta pessoal e ideológica, em Espanha, as ideias para o lodo, levando as nossas organizações sindicais, específicas e juvenis ao ridículo, ao desprestígio e à derrota final sem honra.
    As conferências habilmente preparadas para tal efeito, não tiveram outro objectivo senão consentir que se fizesse descaradamente, publicamente, o que se vinha fazendo às escondidas, por detrás da organização e em seu nomeAntes de haver ministros “anarquistas” no Governo, já a Organização participava nas tarefas governamentais, por meio de cargos políticos, militares, económicos, de polícia ou simplesmente burocráticos.

    P. – Houve discordâncias individuais e de organismos aderentes? Essa discordância manifestou-se só em palavras ou foi até ao rompimento?

    R. – Desde os primeiros dias do movimento as discordâncias apareceram no seio dos militantes confederais e específicos, ao notar uma parte dela, a mais inquieta e a mais culta, as directrizes que iam dando ao movimento revolucionário os Comités superiores da Organização, que permitiam o ressurgimento dos partidos políticos, mortos pela própria razão dos acontecimentos. Formou-se na Catalunha, por iniciativa dos nossos militantes um “Comité de Milícias”, uma espécie de “Governo Revolucionário”, de que faziam parte os partidos políticos, organizações sindicais, e incluso a F.A.I.. Para mim, a constituição deste Comité com a participação da burguesia e dos políticos profissionais foi o 1º golpe de morte dado à Revolução em marcha. A conduta dos representantes anarquistas neste Comité foi desastrosa.
    Assisti a um pleno de grupos de Barcelona, representando com outro amigo nosso grupo N.R., e pude ouvir, entre outras coisas, acusar Santillan de, quande esteve no Comité de Milícias, entregar armas aos elementos republicanos e nepelas suas respectivas organizações, a gá-las aos camaradas. Esta acusação não foi desmentida por nenhum dos presentes. O próprio Santillan só balbuciou desculpas. A acusação havia sido feita por Merino, destacado e velho militante da F.A.I., de Barcelona.
    Se no decorrer do movimento revolucionário e da guerra não se dividiram organicamente as nossas organizações, isso não quer dizer que havia harmonia nos objectivos a alcançar e nas tacticas e meios a empregar.
    Os organismos superiores da C.N.T. e da F.A.I., Comité Nacional e Peninsular respectivamente, tinham amplas atribuições para actuar, dadas pelas suas respectivas organizações, a-fim-de que nos tormentosos instantes que viviam o seu labor não fosse dificultado com a necessidade de consultar a cada momento a base das mesmas sobre cada incidente e detalhe da luta. Mas essas atribuições não eram ilimitadas nem com carácter ditatorial, nem permitiam a esses Comités passar por cima dos princípios fundamentais pelos quais se regiam essas organizações, nem desvirtuar com as suas criações e o seu trabalho os objectivos que lhe deram e lhe davam vida, e arvoravam como bandeira de combate.
    O temor a um intenso bloqueio do capitalismo internacional era o argumento que audaciosamente empregavam a cada instante os partidários do colaboracionismo dos Comités Nacional e Peninsular da C.N.T. e da F.A.I., a fim de justificarem os seus passos, para o governamentalismo, e para responderem à avalanche de protestos dos militantes confederais e específicos.
    Mas senhores já da engrenagem repressiva do renovado Estado republicano, fácil lhes foi calar esses protestos e seguir em frente. Além disso, os protestantes não se dedicavam, – isso é verdade – a elaborar um programa prático de realizações, nem a assimilar de acordo com os instantes que se viviam as admiráveis doutrinas afirmadas fortemente pelos melhores pensadores do anarquismo militante. A audácia, a valentia física, as pistolas não bastam numa revolução social. Precisa-se, ao mesmo tempo, que a agilidade de movimento seja bem temperada de energia para cortar dum golpe rapidamente os raios opressores do capitalismo, agilidade de pensamento na actuação e um pensamento, criador, activo, que sirva de garantia, de base ao triunfo da Revolução violenta.
    A Revolução começa a realizar-se desde o primeiro tiro. Esperar o triunfo da Revolução armada, para depois iniciar a Revolução política, social, económica, espiritual é um erro fundamental.
    O rompimento, a cisão esteve suspensa por um fio muito fino e muito débil. Se não se levou a efeito foi porque a derrota de todos se lhe adiantou, e porque os que discordavam e sofriam já as injustiças do renovado e restabelecido Estado republicano viam na sua frente as armas do fascismo internacional dispostas a arrasar ao primeiro momento de indecisão ou de suspensão de luta nas frentes. O rompimento nos últimos tempos o teria permitido a todos tinham a esperança de que vencido o inimigo nas frentes, se voltaria a dar impulso à Revolução. Pobre e ingénua esperança!
    O rompimento teria sido possível, lógico, natural, honrado e necessário depois tristes experiências dos primeiros meses, e no dia 3 de Maio de 1937, quando os comunistas ligados com os fascistas do “Estat Catalá”, – partido nacionalista, reaccionário da Catalunha, que subsistia e também marcava directrizes à Revolução dos proletários e dos anarquistas, – pretenderam anular a nossa importantíssima influência, assassinando-nos sem piedade e em massa.
    Mas os Comités Superiores da C.N.T. e da F.A.I. nas fráguas da luta, e quando os nossos provocadores, fidigais e eternos inimigos já estavam materialmente vencidos, deram o “Alto el fuego”, pela Rádio, por boca dos Srs. Ministros Frederica Montseny e Garcia Oliver, “em nome da vitória final, em nome da unidade de todos os anti-fascistas, etc., etc.”.
    Não se chegou à divisão orgânica, mas chegou-se ao ócio, à morte no seio das nossas organizações. E se alguém tentou praticamente dividir o movimento foram os partidários da colaboração, pretendendo que a F.A.I. também fosse aos ministérios e se transformarsse, orgânica e doutrinariamente, num partido público, com público conhecimento e pública actuação, a fim de que o Governo, ressuscitado por eles, se ouvisse também a voz dos anarquistas, e que estes fossem defendidos (depois de terem eles feito a Revolução e terem salvado a República …), pelos seus própros companheiros e “representantes”.
    Criaram-se as “Agrupações Anarquistas” locais, em 1938, e apresentou-se nos Plenos a dissolução dos grupos e das Federações Locais por antiquadas e não corresponderem às circunstâncias em que se vivia!!!
    DEpois de muitos desgostos, de muitas lutas, conseguiram que ficassem as duas coisas, fazendo ambas parte da F.A.I. (ridículo absurdo): os grupos com as suas Federações Locais, e as “Agrupações Locais”, não se podendo estar filiado senão num dos dois tipos.
    Muito interessante seria para os camaradas portugueses conhecerem a declaração de princípios destas “Agrupações Locais” e a sua estrutura.
    Então veriam que os seus fundadores e pais espirituais tinham deixado de parte a ideia da Revolução para sí pensarem nos mesquinhos interesses de Partido e no fortalecimento das ideias e dos orgãos estatais.

    ATENÇÃO! O TEXTO CONTINUA

  2. QUESTIONÁRIO APRESENTADO POR ADRIANO BOTELHO AO ANARQUISTA PORTUGUÊS VIVALDO FAGUNDES, COMBATENTE NA GUERRA CIVIL DE ESPANHA

    Documento transcrito no livro “A Resistência Anarco Sindicalista à Ditadura,
    Portugal 1922-1939”, Edgar Rodrigues, editora Sementeira, pp. 312-319, Lisboa, 1981.

    ATENÇÃO! CONTINUAÇÃO DO TEXTO

    P. – Qual era a atitude da F.A.I. e das Juventudes Libertárias perante o ministerialismo? E a atitude dos democratas, dos socialistas e dos comunistas para com os libertários?

    R. – A atitude da F.A.I., e do Comité Peninsular, foi de seguir os passos, como foi dito atrás, do Comité Nacional da C.N.T., e de se preparar a gozar as delícias do poder estatal.
    Muito havia que dizer a este respeito. Já se está dizendo alguma coisa nas Américas, onde puderam chegar bons amigos nossos, categorizados de há muito como militantes da F.A.I. e da C.N.T., que não se arrependeram nunca de ser anarquistas. Muito havia que dizer, repito, da obra desagregadora do Comité Peninsular da F.A.I. com a Frederica Montseny à frente.
    A F.A.I., como a C.N.T. e as Juventudes Libertárias faziam parte da Frente Popular, obra e instrumento comunista.
    As Juventudes, – arrastado o movimento libertário para a política, – necessitavam do apoio da C.N.T. e da F.A.I., as quais lhes exigiam em pagamento também apoio moral, material e espiritual em todas as suas aberrações e cambalhotas politiqueiras.
    No entanto, é preciso deixar bem assente que tanto as organizações da F.A.I. como das Juventudes da Catalunha, muito especialmente as últimas, foram quem mais combateu no seio dos Plenos e na imprensa o ministerialismo e a acção bolchevista, chegando a separar-se da Frente Popular e da Frente da Juventude, sofrendo por tão honrada e enérgica atitude a repressão mais odiosa e canalha, desde a morte e prisão dos seus militantes atá à suspensão dos seus órgãos na imprensa, encerramento dos seus Locais e Ateneus, assim como a destruição do seu mobiliário e bibliotecas.
    Há documentos orgânicos e públicos que certificam isto. Camaradas portugueses, actualmente em França e noutros países, pertencentes aos grupos e sindicatos da F.A.I., C.N.T. e Juventudes sofreram esses vexames.
    Alguns deles estiveram detidos até ao último instante juntamente com os fascistas, e só escaparam de ser fuzilados pelos comunistas, graças à sua audácia na evasão. Tudo isto é conhecido publicamente.
    A Juventude e grupos da F.A.I., (Grupos e Federações Locais, comarcais e regionais), lutavam com imensa dificuldade na propaganda, porque mantendo a sua posição anti-estatal, negava-se-lhes papel e outros meios necessários, tanto nos Comités Superiores da F.A.I., e da C.N.T. como nas repartições governamentais, uns e outros de comum acordo no combate aos anarquistas e empenhados no seu desaparecimento definitivo.
    Isto vos causará profunda surpresa e é possível que vos magoe grandementente, mas é a verdade vivida. É preciso conhecer-se a verdade do passado, para melhor sabermos proceder no presente e no futuro.
    Ocultar ou dulcificar a Verdade nada traz, absolutamente nada, de benéfico à nossa causa, que é a causa dos oprimidos.
    A atitude dos políticos para com os libertários foi a de todos os tempos: nem mais nem menos. Nem se podia esperar outra coisa, pois os seus interesses estão sempre em oposição aos nossos. A conduta dos bolchevistas merece sempre capítulo à parte, quando se trata de julgar os partidos políticos, pela ruindade que manifestaram, pela infâmia do seu procedimento, pelos autênticos instintos criminosos que revelam, quando desde o alto poderam dar ordens. Milhares de combatentes e de militantes anarquistas da C.N.T. da F.A.I. e das J.L. caíram nas frentes e na rectaguarda sob o chumbo das armas da III Internacional. Estes senhores que a cada instante pediam uma “unidade de ferro” para ganhar a guerra, sabotavam-nos em todos os pontos com as armas do Governo nas suas mãos, e só pensavam na nossa morte política, ideológica, como movimento e como seres humanos. Tanto no terreno da economia, como no militar, policial ou administrativo, os comunistas não faziam mais do que prejudicar-nos, para que o nosso aniquilamento fosse completo.
    Nas Américas está-se tratando amplamente deste ponto com documentação importantíssima e em todos os sectores, pois o ódio e a repugnância pelo estalinismo é geral, e nisso coincidimos quase todos.
    Eu guardo o extracto duma carta de Indalécio Prieto, ministro, a Fernando de los Rios, que estava então como Embaixador em Washington, América do Norte, na qual lhe comunicava o trabalho que estava realizando, a fim de anular o anarquismo. Dizia-lhe que já havia realizado captar o melhor dos seus militantes, interessando-os na política governamental, e que os mais obstinados, “os incontrolados” seriam aniquilados pela militarização, – instrumento anti-revolucionário e nitidamente anti-libertário nos seus objectivos, – enviando-os para as frentes onde seriam liquidados, enquadrados nas brigadas ou batalhões de choque. Terminava a carta, declarando com toda a cínica clareza que aqueles que escapassem das balas pelas costas dos seus sicários e dos comunistas, não escapariam às dos fascistas.
    Este documento foi publicado em Buenos Aires pelo órgão da Agrupação “LA BATALLA”.
    A guerra de todos em todos os terrenos contra as organizações libertárias e os seus homens foi a mais infame e a mais dura.

    P. – Houve tentativas de realizações de carácter comunista libertária?

    R. – Houve, que demonstraram plenamente a praticabilidade das ideias libertárias. E foram os camponeses de Aragão e Catalunha, particularmente os que melhor souberam interpretá-las com as suas famosas colectividades.
    Foram as Colectividades de Aragão as que abasteceram com os seus produtos as milícias, com aquela generosidade que foi sempre proverbial aos aragoneses.
    Há documentos, livros, folhetos e mesmo documentos oficiais que demonstram largamente a eficácia das Colectividades. Havendo entre eles um livro publicado em grosso volume, por um camarada que veio da Argentina, mas que é de nacionalidade francesa e que actualmente está preso e condenado por desertor, (foi preso ao entrar em França em 1939), que contém documentos e fotografias das Colectividades de Aragão. É o melhor do publicado.
    Souchy também publicou uma reportagem em folheto sobre as Colectividades de Aragão.
    Após a militarização o Governo Central mandou a Aragão a Divisão Comunista Lister para restaurar a ordem alterada pelos Anarquistas, e tudo, tudo foi destruído. Assaltaram-se os locais dos Sindicatos e das Colectividades e com uma senha feroz destruíram móveis, e até a tiro à baioneta partiram os quadros com os velhos militantes internacionais, que ali estavam sempre presentes recordando aos de hoje que o pensamento e a acção devem andar em harmonia.
    Assassinaram em massa os camponeses e os militantes confederais.
    Aquilo foi simplesmente terrível, vandálico, infamante. Os Comités Superiores da C.N.T. – F.A.I. protestaram, mas não reagiram. Os comunistas continuavam proclamando a necessidade da unidade de todos os anti-fascistas! Criminosos!!!
    Lister foi enviado e a sua Divisão para Aragão, – o Aragão libertário e emancipado pelos anarquistas que vivia feliz e entusiasmado pelos ideais da Revolução -, não para irem para as Frentes, onde não foram combater, mas para a rectaguarda e matar os anarquistas e a destruir as suas obras admiráveis. Durruti havia muito que jazia sepultado.
    A invasão destruidora dos comunistas no Aragão e depois em toda a Espanha libertada começou e acentuou-se depois dos feitos de 3 de Maio de 1937.
    Nas cidades e nas aldeias houve experiências. A massa aí demonstrou mais capacidade, mais visão, mais honradez, mais espírito e carinho libertário do que os militantes de nome. Mas o que era pura e simplemente a revolução em marcha, uma consequência natural dos acontecimentos e da educação histórica, foi considerado pelos governantes, apoiados pelos anarquistas ministeriais como um perigo para a Espanha, um obstáculo para ganhar a guerra.
    E a C.N.T. por boca e punho dos seus representantes na “Generalidad”, decretou e impôs a legalização das criações revolucionárias, e submissão das mesmas aos caprichos dos estatolatras e às necessidades do Estado renovado. E a morte e a mascarada mais ignóbil do que significava a base da Revolução, a pedra angular da vitória, o orgulho do anarquismo espanhol e internacional, o princípio de felicidade de um povo, não se fez esperar.
    Hoje ainda ao recordar o que vi, sangra-me o coração de dor, de raiva, e a indignação faz vibrar todo o meu ser. Jamais me cansarei de vituperar os causadores desse crime imperdoável. O “revolucionarismo ministerial” não nos podia conduzir senão à derrota, a desonra final. Hoje estou mais convencido do que nunca da necessidade de ser-se anarquista não somente antes da Revolução, mas principalmente durante o seu desenvolvimento.

    P. – Acção das milícias de Durruti. Comparticiparam estas voluntariamente na guerra durante todo o tempo que ela durou?

    R. – A acção destas milícias foi do melhor e do mais exemplar em todo o período da guerra. Graças a elas a Catalunha ficou desde o primeiro momento longe dos tiros nacionalistas. E se não foram mais adiante, conquistando para a Espanha a liberdade ansiada, isso só se deve à falta de munições que a “Generalidad” da Catalunha e o Governo Central lhes negavam. Em Ambos os organismos haviam “anarquistas”. No primeiro estavam entre outros, Santillan …
    Durruti gritou, protestou, foi a Barcelona e a Madrid, e num lado e noutro, lhe prometeram o envio de armas, especialmente munições, que era o que mais faltava. Os milicianos do Aragão chegaram a não ter durante meses e meses nas suas armas libertadoras munições para mais de 3 ou 5 tiros, não podendo realizar nenhuma ofensiva por tal motivo. Saragosa não foi tomada por essa criminosa sabotagem. A tomada de Saragosa significaria a vitória de relevo das milícias, que era como dizer da C.N.T., e isso não convinha aos políticos e à burguesia espanhola. Que diriam, então, as Chancelarias e o capitalismo, democrático nternacional, – de que só se receberam promessas de auxílio e nada mais -, em face dessa vitória das forças anarquistas em Espanha?
    Assustar-se-iam, – pobrezinhos! – e não nos ajudariam mais! E a Revolução não poderia truinfar! Assim falavam com muita manha os políticos e faziam-lhes o coro os anarquistas que lhes serviam de assessores e de criados!
    Durruti voltou de Barcelona com a promessa, mas as armas e as munições nunca lhe foram enviadas, Madrid também nunca mais se recordou de que na frente de Aragão um grande punhado de valentes só esperavam essas munições e essas armas, para arrasar os redutos inimigos. A palavra de ordem comunista era já sentida, compreendida e praticada entãi pelos inimigos da Liberdade: “Antes perder a guerra do que fazer a Revolução”.
    Quando foi decretada a militarização, as milícias resistirama aceitá-la, pois que sem ela eles tinham ido para as frentes voluntariamente, e estavm dispostos a dar a vida atá à vitória final. Resistiram naturalmente e centenas de camaradas abandonaram-nas e voltaram à actividade da rectaguarda. Eles tinham submetido desde o primeiro instante à disciplina necessária nas frentes, acatando e respeitando os seus velhos camaradas de luta anti-capitalista. Mas não aceitariam a disciplina militar com todos os seus prejuízos autoritários e de casta. Queriam lutar como homens no meio de camaradas e não como rebanhos de ovelhas.
    Mas a militarização foi decretada com o consentimento dos Comités Superiores da Organização, e depois de um prazo dado pelo Governo para o alistamento voluntário, todo aquele que, estando em idade militar, era agarrado na rectaguarda, foi fuzilado ou condenado como desertor, (há documentos que o demonstram), ou enviado para as frentes, para os lugares de mais perigo, como castigo.
    Não podeis imaginar as injustiças cometidas contra camaradas, após a militarização, injustiças que não eram contrariadas pela influência dos nossos organismos e “ministros”, mas que até eram consentidas e aprovadas por eles. É duro, mas é a verdade!
    Durruti nunca aceitou a militarização. Nem ele, nem os nossos camaradas da frente de Aragão. Depois de assassinado da maneira mais cobarde, ele que estava servindo de obstáculo às baixas ambições políticas, (sobre a sua morte serão mais tarde feitos esclarecimentos, obtida a necessária documentação), as organizações confederal e específica (Comité Nacional e Peninsular) fizeram uma forte campanha de imprensa, nos órgãos oficialmente seus, para que Durruti fosse nomeado Coronel do Exército da República, e como tal honrado e sepultado …
    Os “anarquistas governamentais” ficaram convencidos de haver conseguido com essa aviltante cerimónia uma vitória. E os políticos e a burguesia ao dar essa esmola riu-se de gosto e de mofa. Durruti, no caixão que o levaria para sempre, suportava impotente a afronta de uns e de outros.
    Os que estavam com ele de alma e coração morderam os punhos de raiva e de vergonha.
    Em certas regiões, porém, houve milícias confederais que aceitaram a militarização, ainda que não na totalidade. Por exemplo, as comandadas por Mora e por Del Rosal.

    P. – Porque não foi Barcelona defendida como Madrid?

    R. – Dada a evolução dos acontecimentos motivada pela obra de ódios profundos realizada pelos comunistas no seio dos grupos anti-fascistas e nas multidões da parte libertada, todos sabiam que uma vez triunfante a República as lutas intestinas recrudesceriam com mais intensidade e violência.
    As massas confederais e libertárias só esperavam o final da guerra, para romperem os compromissos tomados com a burguesia democrática, com os pseudos partidos proletários (socialistas e comunistas), em virtude das duras experiências vividas.
    As desilusões foram muitas, as injustiças aos montões, as traições evidentes e descaradas. Por isso a guerra já não entusiasmava.
    Os políticos sabiam que já não podiam ganhar militarmente a guerra. Franco e as suas hostes tinham avançado demasiado. Além disso a Rússia e a Inglaterra não chegavam a um acordo, se a Espanha devia ser colónia duma ou doutra. A guerra também estava dando muito que falar no mundo inteiro, dando incentivos aos proletáris, razões e argumentos aos militantes internacionais.
    A Rússia não mandava armas, o “Comité de não Intervenção”, com Blum à frente, não deixava passar armas para a Espanha libertada.
    Armas, munições, víveres, tudo que vinha era contrabando, à força de montões de ouro.
    A desmoralização era enorme, tanto nas frentes como na rectaguarda. Os soldados nas frentes andavam mal abrigados e miseravelmente alimentados, e continuamente sujeitos ao código militar, às brutalidades dos superiores, na maioria seus camaradas e mestres de ideias de ontem. A imoralidade dos chefes era descarada.
    Na rectaguarda assava-se fome e os armazens do Governo e das Cooperativas do partido estavam abarrotadas de víveres. (Há documentos comprovativos), e a ditadura comunista acentuava-se cada dia com mais severidade sobre os verdadeiros anti-fascistas.
    Os fascistas por seu lado já não se ocultavam quase. A imprensa desafecta a Negrin e aos seus patrões do partido comunista estavam suspensos e presos os seus redactores ou administradores (há documentos publicados). Enfim Barcelona, que não sentia como Madrid os rigores da guerra, quando acordou estava perdida. Fortificá-la no fim da guerra? Com quem e por quem? Não havia tempo, nem moral, nem vontade.
    Os únicos que o podiam fazer comos seus corpos e as suas audácias de sempre eram os anarquistas, a Juventude libertária, a massa confederal. Nada conseguiria, a não ser o de liquidar para sempre o pouco que ficava de bom do anarquismo. As prisões estavam cheias de camaradas nossos.
    O Governo e as direcções dos partidos e de organizações fugiram para Figueras e Gerona, perto da fronteira, enganando uma vez mais o povo, traindo-o.
    Não houve nenhuma organização séria para a evacuação. Fugiu o que pôde e como pôde, roubando-se os carros uns aos outros, enganando-se mutuamente para se não estorvarem. Foi vergonhoso, foi horrivelmente trágica a evacuação da Catalunha. Nem dos feridos, nem dos inválidos e mutilados hospitalizados se recordaram os senhores do Governo e dos Comités Superiores das Organizações e dos Partidos Políticos. Pelas estradas, a pé, em carros, automóveis ou camiões fugia-se, tinha-se pressa de abandonar Espanha, pois com ela ficava atrás o pesadelo terrível de três anos de luta incessante e infrutífera.
    Os Senhores do Governo, dos Partidos e Organizações Sindicais decidiram continuar a luta no Centro, na frente de Madrid … Bandidos! Eles sabiam que tudo seria inútil!
    Mas Negrin a soldo de Moscovo convinha-lhe dar ainda que falar internacionalmente, e facilitar argumentos à imprensa da III Internacional: “Os valentes soldados da liberdade e do anti-fascismo continuam na luta”. Espanha ainda não está vencida! Proletários do mundo uni-vos, dai o vosso apoio para que a luta continue. “Viva o proletariado de espanha, viva Estaline”.
    Miseráveis, são os piores de todos os políticos e de todos os nossos inimigos.

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