Kropotkin, 100 anos depois


JOSÉ ALEGRE GARCÉS*

A 8 de fevereiro de 1921 morria em Dmítrov, Pyotr Alekséyevich Kropotkin,  conhecido como o “Príncipe” anarquista.

De família nobre, tornou-se um dos mais influentes teóricos do anarquismo do século XX, considerando-o o pai do anarcocomunismo. Embora a sua faceta como pensador anarquista seja a mais conhecida, os seus estudos e pesquisas no campo científico e econômico tornaram Kropotkin num pensador muito versátil. Na minha opinião, as suas obras mais marcantes para são: “Campos, Fábricas e Oficinas: Indústria combinada com a agricultura e trabalho manual com o intelectual” e a sua obra-prima; “Apoio mútuo: um fator de evolução”. Ambos os textos foram o resultado de grandes estudos e pesquisas de campo. Pode parecer que são obras antigas, mas apesar dos anos, estão mais na moda do que nunca.

Numa sociedade cada vez mais individualizada, desenraizada da natureza, onde o despovoamento das zonas rurais e a desumanização das cidades é preocupante e em que as relações laborais onde os nossos direitos estão cada vez mais reduzidos, com empresas multinacionais que não se instalam no território, mas que têm a sua sede a milhares de quilômetros do local de produção; em suma, numa sociedade onde prevalece um sistema que coloca o capital à frente das pessoas e do meio ambiente, os estudos de Kropotkin mostram-nos o caminho que podemos seguir para reverter esta situação e transformar o sistema num sentido mais humano e ecológico.

Não é preciso ser-se anarquista para ler Kropotkin, ou mesmo para pôr em prática as suas ideias. Como ele próprio observou, o apoio mútuo é uma característica inata de muitos seres vivos, inclusive do ser humano. O apoio mútuo é um fator relevante para muitas espécies sobreviverem a longas jornadas, ou simplesmente para se alimentarem; um exemplo claro disso temo-lo nas aves migratórias ou nas matilhas de lobos quando caçam.

E na espécie humana? O ser humano é o exemplo mais claro de um ser social e que precisa  de apoio mútuo. Não é necessário voltar às tribos antigas nem às corporações medievais, como Kropotkin faz, para percebermos que os humanos precisam de apoio para seguir em frente. A situação de pandemia que vivemos ou as alterações climáticas demonstram-no-lo dia após dia. As redes de apoio mútuo que foram criadas nos bairros durante os meses de confinamento para ajudar os mais necessitados, o trabalho dos cidadãos limpando a neve nas suas povoações quando a administração não intervém, ajudando na extinção de incêndios florestais e um longo etc. de outras situações mostram que o apoio mútuo é uma necessidade.

Por outro lado, em “Campos, Fábricas e Oficinas” encontramos a chave para desenvolver uma sociedade que volte às suas raízes, que possa repovoar o que chamaram de “Espanha (Europa) vazia” e até humanizar as cidades. A descentralização da indústria, a combinação do trabalho manual e intelectual são fundamentais. Não devemos esperar que uma empresa venha se instalar na nossa aldeia ou na nossa pequena cidade, pois, como já sabemos, a economia de escala não permite rentabilidade financeira nesses locais, pelo que não se instalarão ali por iniciativa própria. A iniciativa deve partir dos próprios cidadãos, organizando-se de forma cooperativa (descarto aqui as atuais sociedades cooperativas que fazem parte do sistema) e articulada entre vários setores. Alguns podem dizer que é uma utopia, mas já existem exemplos de trabalho de jovens empreendedores com uma mentalidade que introduz uma visão diferente nos seus negócios e em Aragão temos vários: Empenta Artieda, Ecomonegros, Ecotambo, Ebronautas, Sabores Próximo, etc.

O crescimento da Economia Social, da Economia Ecológica, da coordenação dos cidadãos nas suas regiões, nos seus bairros; soberania alimentar … são expressões que corroboram os estudos realizados pela Kropotkin há mais de 100 anos e que estão mais atuais do que nunca.

Com tudo isso dito, atrevo-me a dizer que Kropotkin não foi apenas um excelente cientista e um teórico anarquista muito popular, mas também um visionário com ideias atemporais.

* aqui: https://arainfo.org/kropotkin-100-anos-despues/

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