Num ano os portugueses passaram seis meses em estado de emergência. De que serviu?


Quando no dia 16 de Março se completar este 12º estado de emergência imposto por Marcelo e pelo Governo, os portugueses sofreram na pele 6 meses de confinamento rigoroso em nome de uma situação sanitária complexa que nas mãos dos politicos rapidamente se transformou numa “questão securitária” em que foram proibidos actos tão “perigosos” como a abertura do pequeno comércio de proximidade, o usufruto das centenas de quilómetros de praias ou de passeios à beira-mar de que o país dispõe, as mais simples deslocações e a arbitrariedade de um descontrolo policial, qual tropa de choque, usada para criar o medo entre os cidadãos e a trancá-los em casa.

Tratando-se de uma questão de saúde como tal devia ser tratada pelo Governo- e não deixando o SNS ir à ruptura, por falta de precisão e planeamento, como aconteceu a partir de Novembro até inícios de Fevereiro. Ao invés, as medidas que têm sido tomadas situam-se ao nível das proibições, sem qualquer evidência da sua necessidade.

É verdade que o confinamento absoluto impediria a circulação do vírus, mas essa é uma medida impossível. O governo coloca parte dos funcionários do Estado em teletrabalho, fecha as escolas e proíbe o pequeno comércio de estar aberto. No entanto, grande parte da população continua a ter que trabalhar e a deslocar-se diariamente e, apesar das dificuldades de circulação e dos transportes públicos apinhados, todos os dias estão presentes nas mais diversas actividades, da construção civil à grande distribuição, da agricultura à saúde.

Dados revelados recentemente indicam que a circulação actual , durante a semana, (e que tem vindo a aumentar dia após dia) representa já 72% por cento da actividade habitual – ou seja, apenas 28 por cento das pessoas permanecem confinadas e, entre estas as que estão ligadas ao sistema escolar, que em termos númericos são bastante signficativas.

E, apesar do presidente e do Governo continuarem a bater na tecla de que só haverá “abertura” depois da Páscoa, a verdade é que muitas das lojas já estão a funcionar e muitas das actividades, antes interditas, já estão a acontecer, ainda que de forma clandestina ou contornando a lei – cabeleireiros vão a casa, as lojas de proximidade estão abertas para “arrumações”, os cafés vendem bebidas de forma oculta, etc.

O país que está confinado – no momento em que a crise aperta e os apoios prometidos pelo Estado nunca mais chegam – é o país que tem alguns recursos, seja devido às reformas, ao teletrabalho (sobretudo no sector público) ou a rendas que permanecem intocáveis. Todo o resto da população vive a agrura da falta de trabalho (só no Algarve o número de inscritos nos centros de emprego subiu mais de 60 por cento no último trimestre).

Por isso, cada vez é mais difícil explicar à população porque é que todos os movimentos dos cidadãos estão sujeitos a limitações e proibições e o comércio e a restauração encerrados, quando os números de contágios e de internamentos estão a descer dia após dia e quando, por exemplo, num destes dias, um dos maiores concelhos do Algarve, com mais de 50 mil habitantes, registou apenas um contágio devido a Covid e o próprio hospital de retaguarda há muito que foi desactivado. Toda a vida parada por um só e único contágio?

A birra de Marcelo e de Costa em não abrir as escolas (creches, infantários e primeiro ciclo) já esta quinzena e remeter tudo para depois da Páscoa é, por isso, incompreensível – ou só se compreende se se mantiver a mistificação de que o surto de Janeiro teve apenas e só a ver com as “facilidades” do Natal.

A realidade é que Portugal, com seis meses de confinamentos e proibições, escolas fechadas e polícia nas ruas, multando a torto a e a direito e usando de todas as prepotências face à liberdade de circulação e movimentação, que deveria ser um dos direitos mais básicos, constantemente violada pelos estados de emergência, tem hoje mais mortos do que a Suécia (com menos cerca de 3.400 mortos que Portugal e sensivelmente a mesma população), onde os níveis de ensino para os mais jovens nunca fecharam, os parques de lazer e os restaurantes estiveram sempre abertos, nunca houve confinamento e o uso da máscara, na maior parte das situações, nunca foi obrigatório.

É caso para nos questionarmos: de que vale este confinamento e este estado de emergência que nos têm tornado a vida insuportável neste último ano e cujas consequências, na sua totalidade, ainda não somos hoje capazes de prever? A nosso ver, muito pouco. Mas sabemos que governar em estado de excepção sempre foi, para quem governa, um “obscuro” objecto de desejo.

2 comments

  1. Seis meses de encarceramento servem para justificar o desmantelamento do estado, algo que para um anarquista seria o desejo ou o sonho idílico. Os anarquistas ainda não se organizaram, há muito caminho a percorrer há também esperança mas essencialmente pouca humildade.
    Espero o dia em que os ingredientes se venham a juntar. Saúde!

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