(REDE_LIBERTÁRIA) A crise reforçou as tendências estatistas da direita e da esquerda


M. Ricardo Sousa

Há cerca de um ano, no começo da pandemia, especulei nesta lista sobre os vários cenários que estavam a definir-se face a uma crise sanitária, económica e social sem precedentes para as gerações nascidas depois da II Guerra Mundial.

Escrevi então:

“Apesar de ainda estarmos na fase inicial desta pandemia, trágica e imprevista, predominam as incertezas e dúvidas sobre as suas consequências sanitárias, económicas e sociais. Mas atrevo-me a apresentar dois, ou talvez três, cenários, possíveis: A pandemia vai parar a economia de grande parte dos países por mais de um trimestre – já se fala um ano -, provocando, no melhor cenário, dezenas de milhares de mortos, encerrando milhares de empresas, gerando milhões de desempregados e introduzindo por muito tempo medo entre os consumidores, e capitalistas, o que vai travar investimentos, consumo, viagens etc. Uma crise só com paralelo nos anos 20 do século passado, com a Grande Depressão.

1- As instituições multilaterais, BM, FMI, BCE, Reserva Federal Americana e governos do G7, acertam um programa mundial, tipo New Deal, Plano Marshall em grande escala, para salvar e relançar a economia capitalista, consolidando-se os mecanismos de governo global, mas assente ainda em governos regionais e nacionais fortalecidos e com maior poder sobre as sociedades. Neste caso as pessoas, atemorizadas, vão tornar-se ainda mais dependentes do Estado, conformistas, criando-se assim condições para um sistema mais regulado, mais uniformizado e estabilizado, mantendo, no entanto, um referencial formal de democracia representativa, mas com mecanismos de controle tecnológico que até hoje nunca existiram (supercomputação, grandes bases de dados, GPS, reconhecimento biométrico, meios de desinformação de massas etc. etc.). Se quiserem podem usar o conceito do João Bernardo, de democracia totalitária (…)”

Ao que podemos constatar agora este cenário descrito é o dominante. Tudo leva a crer que o “neo-liberalismo”, que vinha numa ofensiva vitoriosa desde os anos 80, não pode oferecer soluções ao Sistema neste momento. Saindo assim reforçadas as tendências estatistas da direita e da esquerda. Não só em sectores básicos da saúde, educação e segurança social, mas na economia em geral onde o Estado está a intervir por todo o lado para salvar o capitalismo de uma crise sem precedentes.

Por essa razão a crise social e económica que previa não se concretizou integralmente pois foi adiada com todas as medidas económicas adoptadas para sustentar empresas e empregos. Falta saber se o prolongamento desta crise, que ainda está aí para durar, vai continuar a ser amortecida pela sistemática injecção de recursos por parte dos Estados de forma a relançar a economia em força logo que a crise sanitária esteja controlada. Se assim for a crise económica e os conflitos sociais previsíveis poderão não se agravar de forma perigosa para o Sistema, apesar da destruição de muitas pequenas empresas e de um aumento substancial do desemprego.

Também é certo que a estratégia global vai ser de acelerar as transformações da economia numa direcção da sua digitalização e da chamada transição energética que pode representar um novo fôlego para o capitalismo ultrapassando de vez o modelo da velha revolução industrial.

A meu ver uma coisa é certa: a esperança de um agravamento dos conflitos sociais e da clivagem profunda entre a sociedade e o Estado não se deu, a cultura dominante de uma dependência das pessoas face ao Estado só se agravou, pelo que continuamos num grave impasse em relação a uma transformação profunda da sociedade capitalista. Como dizia Marcuse “a revolução necessária é a mais improvável”.

O combate dos anarquistas, a minoria das minorias nesta sociedade de massas e de rebanhos, é, mais que nunca, o combate pela difusão de uma cultura libertária, entendida num sentido amplo, na nossa sociedade, pois sem essa cultura a sociedade fica indefesa face ao capitalismo e ao Estado. E não há transformação social radical, ou revolução social possível, sem que a absoluta maioria das pessoas, a começar pelas classes e grupos subalternos destituídos de poder e riqueza, a desejem.

Saúde e liberdade

(Outros artigos em Rede Libertária sobre a Covid-19)

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