(#REDE_LIBERTARIA)Em que pé estamos?


M. Ricardo Sousa

Caros companheiros,

Esta lista que iniciou as suas actividades a partir do debate da crise sanitária provocada por um vírus há muito ficou silenciosa quanto a esse tema. No entanto, já passou tempo suficiente para que se tirem algumas conclusões desta crise sanitária-política-social. Embora o processo ainda esteja em curso e com um grau acentuado de imprevisibilidade pelo menos nos seus aspectos de saúde pública, o modelo de gestão está consolidado e as consequências económicos e sociais não parecem poder surpreender nos tempos mais próximos.

Mesmo que a crise social e económica tenha sido profunda e com aspectos inéditos de uma quase paralisação de grande parte da actividade produtiva  nas principais sociedades capitalistas as consequências económicas e sociais não chegaram a ser catastróficas, como se esperava inicialmente, embora tenha aprofundado, por todo o lado, a fome, a pobreza e as desigualdades sociais. Isso deve-se ao facto que as respostas políticas e económicas adoptadas pelos Estados, e pelas principais instituições da economia mundial, foram no sentido de apoiar e subsidiar empresas e pessoas no sentido de conter os impactos destrutivos da paralisação económica causada pela pandemia. As políticas neoliberais e o darwinismo social tiveram que dar lugar a intervenções estatais acentuadas seja na Europa, nos EUA, na China e nos países asiáticos, mesmo em países da América Latina. Até em países governados por políticos negacionistas (Trump, Bolsonaro e Boris Johnson) essas medidas foram sendo adoptadas, mesmo contra as  suas vontades, pois nenhum governante fica imune à queda da popularidade nem consegue bloquear a informação e o discurso hegemónica que se vai difundindo numa situação como esta. As teorias conspirativas, negacionistas, paranóicas, mesmo que se popularizem alguns sectores sociais, não conseguem deter um discurso hegemónico científico e político que se foi construindo globalmente.

Uma política global para enfrentar a pandemia foi sendo tecida pelos diversos estados e instituições incluindo um discurso e uma estratégia de intervenção sanitária, política e económica. Fomos vendo ao longos destes muitos meses como de um país para outro, de um continente para outro, se foram definindo, e uniformizando, essas políticas de tal forma que bastava, e basta ainda, ler sobre o que vai acontecendo num país para perceber o que irá ocorrer nos outros, logo em seguida ou algum tempo depois.

Não encontramos variações substanciais independentemente de quem detém o poder ou das características dos regimes. Obviamente que os sistemas mais autoritários, desde logo a China, pode aplicar medidas sanitárias ou tomar decisões económicas que outros não podem fazer usando o mesmo modelo. Mas é uma diferença de grau.

As medidas de controlo social excepcionais sob a capa de uma racionalidade científica foram sendo adoptadas sem grande resistência social mesmo quando se mostravam pouco claras e contraditórias. Pela primeira vez nas nossas sociedades os especialista, técnicos, médicos e cientistas, tiveram um papel central na determinação das políticas públicas de curto prazo com implicações claras na liberdade individual e no direito.

Podemos assim dizer que esta crise ajudou também a delinear o cenário de uma futura crise global ambiental catastrófica e perceber como o capitalismo global irá gerir essa situação, ou outras de pandemia e desastre natural, e de como a sociedade poderá delegar nas instituições a busca de soluções, mesmo autoritárias, em nome da sua saúde, segurança ou sobrevivência.

Resumindo:

Esta crise aprofundou a presença do Estado, legitimando a sua necessidade a partir da justificativa da saúde pública, as sociedades em nome da sua segurança abdicaram ainda mais da sua capacidade de auto-organização e de crítica, o capitalismo global reforçou os seus laços e as classes dominantes foram capazes de definirem em comum estratégias económicas, políticas e sanitárias acentuando-se os mecanismos de gestão global do sistema. A  crise acelerou também mudanças tecnológicas na economia e novos mecanismos de controlo social. Apesar da crise o sistema político foi gerido dentro da rotina habitual do sistema representativo sem haver sequer o aumento descontrolado da conflitualidade mesmo em países como o Brasil e os EUA que traziam detrás graves fracturas causadas por governantes populistas conservadores. Neste cenário os partidos ditos de esquerda e os sindicatos não foram capazes de definir estratégias alternativas, demonstrando como hoje são cogestores deste sistema.

Não me parece ser possível tirar conclusões optimistas destes largos meses de pandemia mesmo que muitas manifestações espontâneas de solidariedade e soluções auto-organizativas de entreajuda permitam perceber que há muitos indivíduos e grupos que continuam a tentar eles próprios buscar autonomamente soluções para os seus problemas. A questão central é que continuam a não existir alternativas sociais e políticas que sejam reconhecidas como tal por uma parte significativa das sociedades e sendo assim o cenário da transformação social profunda parece não estar presente no futuro próximo…

Por tudo isso podemos dizer que hoje, mais que nunca, faz falta o pensamento e a acção libertária.

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