O prisioneiro 94250 de Dachau era um anarquista português


José Agostinho das Neves. Jornalista. Anarquista. Deportado pelos alemães de França durante a II Guerra Mundial, esteve preso no campo de concentração de Dachau. Sobreviveu às sevícias nazis e manteve-se libertário até ao fim da vida.

Segundo a referência biográfica inserida no Projecto MOSCA (Arquivo Histórico-Social) foi “membro do Grupo Anarquista “Pão e Liberdade” (Lisboa, 1921). Ferido na explosão de 29-12-1921. Preso em 1922/24. Militante da UAP (União Anarquista Portuguesa). Preso em 1927 em Coimbra e Leiria, por suspeita de pertença à Legião Vermelha. Preso em 1928 e deportado para a Guiné. Fugiu. Espanha e FAPE (Federação Anarquista dos Portugueses Exilados). Expulso de Espanha para França em 1934. Animador do jornal “Liberdade”, (Paris, cerca de 1937) com Jaime Brasil, Abílio Faria. Trabalha na rádio francesa [(deportado pelos alemães (?)] e posteriormente em jornais ligados à emigração portuguesa e consulado.”

Entrevistado em 1945, depois do fim da II Guerra Mundial, em Paris, para o “Diário Popular” (I, II, III, IV), pelo Jornalista Fernando Teixeira, conta as atrocidades do campo de concentração. Mantém-se anarquista até ao fim da vida e o seu percurso biográfico foi traçado no número 66 da revista “Jornalistas & Jornalismo”, pelo jornalista Gonçalo Pereira da Rosa, entrevista que (re)publicamos de seguida.

A figura de José Agostinho das Neves vai ser também objecto de análise por parte da investigadora Cristina Clímaco no decurso do Colóquio “Socialistas, Republicanos, Anarquistas, Radicais…”, a decorrer em Lisboa nos próximos dias 23 e 24 de setembro, numa intervenção intitulada: “Figuras esquecidas e trajectórias desmemorializadas: o percurso de José Agostinho das Neves e outros no exílio europeu no entre-guerras”.

No mesmo colóquio participa ainda, no painel sobre Anarquismo, o investigador Paulo Guimarães com uma comunicação sobre “Os anarquistas portugueses nos anos ‘40: tempos de esperança e desilusão”.

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3 comments

  1. … “libertário até ao fim”, é uma situação que hoje não podemos verificar. No entanto, leia-se o livro do ex-anarquista João Freire «Pessoa comum no seu tempo – Memórias de um médio-burguês de Lisboa na segunda metade do século XX». O autor da autobiografia refere a pp. 427- 428: “O José Agostinho das Neves, que estava em contacto com o anterior (Reis Sequeira) e vivia há longos anos na capital francesa. Era um militante histórico, que perdera um olho em 1923, creio, numa explosão na Calçada do Combro, quando procedia à fabricação de bombas. Porém, apesar das insistências do Sequeira, sempre me recusei – porventura, intrasigência minha – a encontrar-me com ele. Motivo: o homem colaborava com o consulado de Portugal em Paris, dirigindo um jornal para imigrantes, com o apoio financeiro de um banco português. Para mim, era demais! O homem podia ter um valoroso passado de lutador, mas, naquela época, só podia ser visto como um «vendido», um serventuário das autoridades portuguesas.” Desnecessário será dizer que não me proponho a engrossar este estapafúrdio assunto. No seu exílio em território espanhol, onde permaneceu durante 15 meses, na sequência da repressão policial que se abateu sobre os activistas anarquistas envolvidos no movimento inssurrecional do 18 de Janeiro de 1934, José Correia Pires encontrou entre companheiros, o José Augusto das Neves, em Madrid. Na verdade, José Correia Pires, nas suas «Memórias de Um Prisioneiro do Tarrafal», livro editado em 1975, refere na página 107, em breve passagem uma recordação sucinta: “Muitos se envolveram na luta, mas a polícia espanhola não lhes relevava tal ousadia e, aí por fins de 1934, quantos em Madrid apanhou, prendeu-os e expulsou-os para França, dos que me lembro foram: M. da Costa, J.A. das Neves, e E. Pinto Mateus, Custódio e não sei quem mais.” Portanto, José Augusto das Neves é mencionado por José Correia Pires em concordância com um período em que o anarquismo afirmado por portugueses posicionava-se, porventura em maré alta.

  2. E no entanto, sabe-se que Edgar Rodrigues, que passou uma boa parte da sua vida a coligir informações dispersas, no livro “Deus Vermelho”, pg. 68, associa José Agostinho das Neves ao atentado a Salazar, em 1937. Nesse tempo, o anarquista José Agostinho das Neves, em França, desenvolvendo actividade profissional com programas na rádio francesa, paralelamente, mantinha ligações com o meio libertário. É afirmado, inclusive, pela historiadora Cristina Clímaco que, “… é por Paris, através da delegação da CGT e de José Agostinho das Neves, que o movimento anarquista em Portugal se mantém ligado ao exterior.” Todavia o seu nome não consta na lista dos incriminados inserida no livro “O Atentado a Salazar”, pg. 193, de Emídio Santana. De entre tantos companheiros activos envolvidos directamente na luta, como conseguiu ele permanecer nos bastidores? Na verdade, inicialmente os contactos para prepararem algumas acções violentas (no Consulado de Espanha, no Ministério da Educação, no emissor do Rádio Clube Português, nos depósitos de combustível em Alcântara, com diversas sabotagens em comboios), como disse, vieram de França com o João Ferreira da Costa e Silva, e com o Silvino Ferreira. Ambos se deslocaram para Portugal com meios financeiros e técnicos (esquemas para as bombas de relógio, como o material detonante). Neste quadro, é óbvio que as relações do João Ferreira e do Silvino Ferreira, circunscrevem-se a um âmbito internacional de influência comunista. Resumindo, é a esta solução clandestina, indispensável a uma acção violenta e ilegal, a que os obstinados bolchevistas se referem como um tipico caso da «Frente Popular» portuguesa? Não deixa qualquer duvida que se trata de um nível de intervenção de um organismo «secreto» que não dependia da componente nacional representada pelo PCP. Pouco tempo depois do atentado, o José Agostinho das Neves sugere a Santana a sua saída para o estrangeiro: “O Agostinho das Neves informa-nos de Paris que a Associação Internacional dos Trabalhadores propunha que fosse um delegado da CGT para um encontro”, in “Memórias de Um Militante Anarco-Sindicalista”, pg. 259. Qual é o papel representado por José Agostinho das Neves, ao longo da sua vida com a cobertura cívica que o jornalismo lhe ofereceu? A prisão de Emídio Santana resultou de um mero acidente de percurso da sua actividade militante ou foi devido a uma tramóia que o próprio nunca suspeitou? De facto, o João Ferreira da Costa e Silva tal como o José Agostinho das Neves tiveram uma importância maior na circunstância da fuga de Santana do país. Como explicar a situação? Segundo o que Santana exprime no seu testemunho: “de bordo, telegrafei para o José Agostinho das Neves para comparecer em Cherburgo e tratar do meu desembarque. Quando o barco entrou em Cherburgo, o Neves não apareceu e o Silva não encontrou maneira de salvar a situação”, in “História De Um Atentado”, pg. 79, as coisas tornam-se mais difíceis de se compreender. Acresce que desde essa data, José Agostinho das Neves prestou-se a colaborar ou esteve ininterruptamente envolvido a partir de Paris com os comunistas, no plano internacional. Pergunto-me o que faz um «anarquista», em 1952, nas Jornadas Internacionais da Paz? Procurará uma conexão de equilíbrio tal como o realizado anteriormente por Victor Serge, em 1919, quando abandonou o anarquismo para se dedicar à propaganda e agitação da III Internacional? Há muita coisa a salvar do anarquismo, é preciso escavar, escavar, ir mais fundo!

  3. RESUMO BIOGRÁFICO DE JOSÉ AGOSTINHO DAS NEVES

    Muito novo ingressou nas Juventudes Sindicalistas de Lisboa, estava presente, quando se deu uma explosão de bombas na Calçada do Combro, na sede da C.G.T., sede da Construção Civil e instalações d’A Batalha. Bastante ferido, deu entrada na prisão com outros camaradas, que ali se encontravam. Passado algum tempo escreveu uma carta, manifestando-se a favor do ideal anarquista e pedindo livros dos seus doutrinários. Essa carta foi lida por Virgílio de Sousa, numa reunião em casa de José de Sousa, a que eu assisti, assim como Augusto Carlos Rodrigues e Pinto Quartim. Todos a escutaram com muito interesse e simpatia, prontificando-se a emprestar-lhe alguns livros desses autores. Foi posto em liberdade antes do 28 de Maio de 1926 e começou logo a exercer actividade no movimento anarquista. Por dificuldade de trabalho, esteve algum tempo para os lados de Leiria, onde foi preso, mas fugiu audaciosamente da prisão daquela cidade, voltando a Lisboa. Aqui continuou a sua actividade, entrando para o Comité da Federação Anarquista do Centro, de que eu fazia parte, assim como Manuel Joaquim de Sousa e Constantino Figueiredo. Nessa altura falava longamente comigo sobre o nosso ideal, acompanhando-me por vezes quando me encontrava na rua. Foi novamente preso em Lisboa e dessa vez deportado para a Guiné. Dali fugiu e foi fixar residência em Paris, onde se relacionou com os Badessi, que tinham antes vivido no Porto, e casou com uma irmã destes. Veio por duas vezes a Lisboa, de visita. Regressou a França, passando por Madrid onde esteve algum tempo com Reboredo e Marques da Costa. Aqui manifestou certas simpatias pelos bolchevistas. Durante a guerra de Espanha pôs-se ao serviço dos “anarquistas” colaboracionistas de Espanha, e actuou em Paris como seu representante para Portugal. Recebeu para nosso auxílio muito dinheiro que só nos enviou por conta-gotas. Nestas circunstâncias conta que se “abotoou” com bastante dinheiro. Afastou-se do movimento libertário e passou a viver noutros e doutros meios. Casou com uma jornalista francesa, sua segunda mulher, e visitou Portugal por várias vezes. Pretendeu, em correspondência com Emídio Santana e outros, uma credencial como delegado junto da A.I.T. e a adesão da C.G.T. à Frente Popular! A credencial foi-lhe ainda enviada por mim mas a adesão à Frente Popular foi recusada.

    (Depoimento de Adriano Botelho)

    Texto extraído do livro de Edgar Rodrigues, “A Oposição Libertária em Portugal – 1939-1974”, pp. 182-183, Editora Sementeira, Lisboa, 1982.

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