Da necessária recuperação histórica da memória anarcosindicalista no movimento operário português


No colóquio “Socialistas, Republicanos, Anarquistas, Radicais, Velhas Resistências, Novos Estudos e Memória” que está a decorrer em Lisboa e via internet, o historiador Fernando Rosas, que abordou esta manhã os “silêncios que falam” durante a história da resistência ao Estado Novo, disse que a “instalação dos museus mais recentes” mostra essa tentativa de omitir da história tudo o que ponha em causa o papel de hegemonia do PCP na luta contra o fascismo.

Segundo este historiador, entre as principais omissões da história criada pela historiografia vigente – e que só foi quebrada com os trabalhos de investigação de jovens universitários de inícios dos anos 70, depois pelas memórias dos militantes libertários e depois pela investigação académica -, consta o apagamento da história do movimento operário até aos anos 30, quando o anarcosindicalismo desempenhou um papel hegemónico no movimento operário, nomeadamente através da CGT.

Rosas recordou ainda que o PCP nunca comemorou nem reivindicou para si o 18 de janeiro de 1934, a não ser após o 25 de Abril de 74 e depois dos anarquistas e dos maoistas darem a esta greve geral insurreccional um lugar especial na memória da luta operária.

Por seu turno, a historiadora Luísa Tiago de Oliveira desmistificou a Revolta dos Marinheiros de 1936, que o PCP reivindica como uma data histórica de solidariedade com a Republica Espanhola, organizada pela organização revolucionária da armada, que controlava. Luísa Tiago de Oliveira, baseada na documentação existente, considera que apesar da existência de uma presença forte do PCP na Marinha, a revolta teve a ver com a reivindicação de reintegração de 17 marinheiros afastados depois de terem mantido contactos não autorizados em portos controlados pelos republicanos espanhóis.

Muitos dos presos nesta revolta foram punidos com penas bastante severas, tendo mais de trinta sido deportados para o campo de concentração do Tarrafal.

Segundo o anarquista Custódio da Costa, que esteve preso no Tarrafal entre 1936 e 1949, “eram todos muito jovens e a maioria não tinha qualquer formação política”, tendo sido arrastados para o movimento por questões de solidariedade corporativa.

Da parte da tarde, no painel dedicado ao Anarquismo, Paulo Guimarães falou d’”Os anarquistas portugueses nos anos ’40: tempos de esperança e desilusão”, dizendo que os anarquistas, desde sempre, têm sentido preocupação pela falta de memória histórica e procurado, pelos seus meios escassos, colmatar as falhas existentes na historiografia oficial e oficiosa, considerando que “a luta pela memória” tem sido uma constante dos anarquistas ao longo dos anos.

Sobre os anos 40, Paulo Guimarães destacou a desilusão provocada pela repressão violenta do regime salazarista nos últimos anos da década de 30, que levou muitos anarquistas a exilarem-se em Espanha, combatendo na guerra civil, e após a derrota republicana a ir para novo exilio em França, onde muitos foram parar a campos de detenção e, posteriormente, a campos de concentração alemães.

Tal foi o caso do anarquista José Agostinho das Neves e de outros, de que tratou a comunicação de Cristina Clímaco, traçando o seu itinerário biográfico e ideológico, bem como o da sua geração, divididos entre a militância e a conjuntura difícil vivida neste período conturbado, entre guerras, que marcou também o fim do anarquismo histórico, que tinha sido determinante em países como Portugal ou Espanha.

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