O Museu do Aljube continua nas suas malfeitorias à revelia da verdade histórica


A falta de rigor, mentiras e insuficiências de alguns dos materiais do Museu do Aljube (como também do Museu de Peniche) que deveriam abordar a resistência ao fascismo de uma forma séria, isenta e baseada em dados objectivos, continua em força, agora e mais uma vez. Numa referência recente ao marinheiro Cândido Alves Barjas, envolvido no acontecimento da Revolta dos Marinheiros em 1936, os propagandistas do Museu vão contra todo o conhecimento histórico produzido pelos investigadores nos últimos anos e insistem na visão propagandística com que o PCP quis revestir os factos,

Segundo o Museu, a Revolta dos Marinheiros foi um “levantamento realizado a 8 de setembro de 1936, preparado pela Organização Revolucionária da Armada (ORA), estrutura ligada ao Partido Comunista Português (PCP), com o objetivo de derrubar o Estado Novo”, o que vai totalmente ao arrepio da verdade histórica desenvolvida por vários investigadores, para quem esta revolta nunca teve a ver com qualquer tentativa de derrube do Estado Novo ou com uma solidariedade afirmativa com a Republica Espanhola, mas sim com um protesto, que se queria pacífico, visando a reintegração de 17 marinheiros demitidos depois de terem mantido contactos em portos espanhóis com elementos republicanos, o que não estaria autorizado.

É esta a constatação a que chega José Eduardo Casimiro Da Silva Capinha Henriques que na sua tese de mestrado sobre a “A Revolta dos Marinheiros de 1936” escreve, nas páginas 23/24: “O argumento principal apresentado é que se estava a organizar um protesto, não violento, por causa dos camaradas do NRP Afonso de Albuquerque que tinham sido expulsos em virtude da viagem a Málaga, no Sul de Espanha, com o intuito de recolher refugiados nacionais que se encontravam em território espanhol, uma semana antes e que este protesto visava a readmissão dos mesmos, derivado das circunstâncias, tidas como injustas, em que os marinheiros tinham sido expulsos da Marinha”.

E prossegue: “Este protesto iria consistir em tomar conta dos navios e tentar levá-los para fora da barra de Lisboa, de modo a exigir ao governo de Salazar a reinserção dos militares expulsos. Mas, em alguns casos, chega-se a falar em exigir a libertação de presos políticos do forte de Peniche e caso não fossem atendidas as exigências impostas, o plano seria navegar até aos Açores ou Madeira e libertar os presos políticos que lá se encontravam; caso isso falhasse, o último recurso seria ir até Espanha e juntarem-se ao lado Republicano.”

Esta justificação é, de novo, reforçada na página 51 do mesmo trabalho: “O golpe consistiria num protesto, supostamente não violento, em que iriam tomar conta dos navios e tentar levá-los para fora da barra de Lisboa, de modo a pedirem ao governo de Salazar, a readmissão dos 17 camaradas do NRP Afonso de Albuquerque expulsos da Marinha alguns dias antes.”

Também recentemente, numa comunicação apresentada no colóquio “Socialistas, Republicanos, Anarquistas, Radicais, Velhas Resistências, Novos Estudos e Memória”, a historiadora Luísa Tiago de Oliveira apresentou  a exigência de reintegração dos marinheiros expulsos como a razão para a revolta, e não qualquer tentativa de derrube do Estado Novo ou de solidariedade com a República Espanhola, como referem os textos propagandísticos.

A investigadora, baseada na documentação existente, considerou que apesar de uma presença forte do PCP na Marinha, a revolta, falhada e rapidamente controlada pelo regime,  teve a ver com a reivindicação de reintegração de 17 marinheiros afastados depois de terem mantido contactos não autorizados em portos controlados pelos republicanos espanhóis.

Foi este o motivo da revolta e não aquele que, ao arrepio da verdade histórica, vem agora o Museu do Aljube reafirmar, coincidindo com a versão propagandística do PCP, de que o levantamento foi “preparado pela Organização Revolucionária da Armada (ORA), estrutura ligada ao Partido Comunista Português (PCP), com o objetivo de derrubar o Estado Novo.”

Começa a ser demasiado grave a falta de rigor de uma entidade que se deveria pautar pela verdade histórica e não pela visão deturpada e ideologicamente orientada em que, cada vez mais, é useira e vezeira.

One comment

  1. O museu é por definição um centro de comunicação. Teremos de avaliar os aspectos que encontrámos no processo de transformação do museu que evolui na sua concepção como centro de comunicação e de significação, que actua sem cessar e não para de evoluir, ao mesmo tempo, com uma tendência de incluir o público em geral na esfera do seu campo de acção social. Esse facto parece um intento do museu que nos leva a afirmar: o museu hoje “está em toda a parte como uma dimensão da Vida”. Descobre-se no presente texto, relacionado com a questão das relações sociais de poder, particularmente aquele associado ao controle social desempenhado através da educação, assim como a questão eminentemente política da defenição da função do Estado no que respeita à sua acção interventiva na área da cultura. Salienta-se a ideia que o museu move-se na história e na nossa época desempenha uma função com base na vivência com o público, sendo que este serviço supõe hoje uma adequação do museu à sociedade de informação com benefício de um novo humanismo. O museu depois da década de 50 do século XX ocupa um espaço destacado na sociedade actual, de facto, esta centralidade torna-o muito permeável em face da oscilação da natureza dos documentos a apresentar ao público. O que torna um motivo forte para a sua repreciação enquanto fenómeno cultural contemporâneo. Neste contexto, considerámos o desenvolvimento social da cidadania participativa, entendida como um factor horizontal de valor comunitário, substancializado nos processos de interactividade multimédia na rede, como resposta popular ao dirigismo institucional do poder da acção do Estado moderno sobre as relações sociais que permeiam a vida da cultura. É na comunicação que se desenvolve o diálogo, em que se dá a ver um eu precário da alteridade, em face ao outro, ousa-se descobrir e completar-se. Um tempo que por momentos fugazes, quer-se afirmativo rompendo com o mundo tal como é, faz-se em demanda à procura de si próprio, não se esgota numa existência definida em liberdade, em jogo permanente e movimento, uma maneira comprometedora que através do processo científico, tecnológico, atingiu uma posição predominante à escala global, ao ponto de encarar novas interpretações dos costumes, rituais e tradições que são familiares. É a sociedade que muda no seu conjunto com base na acção recíproca da ciência, tecnologia e dinâmica social de mudança, conforme se pode verificar na emenda introduzida ao Artigo 2, do estatuto do Conselho Internacional de Museus, ICOM, em 2001, na 20º Assembleia Geral, onde o ICOM admite como integrando a categoria de museu “centros culturais e outras entidades voltadas à preservação, manutenção e gestão de bens patrimoniais tangíveis e intangíveis património vivo e actividade criadora digital”. O debate em torno das práticas museológicas dos dois centros/museus (Aljube e Peniche) é já o exemplo que antevê um processo necessário à implementação das competências científicas que se consideram inerentes ao desempenho do museu.

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