Month: Outubro 2021

A manifestação anarquista de 3 de março de 1975 em solidariedade com os trabalhadores espanhóis


A 3 de março de 1975, vários grupos (uns anarquistas e outros afirmando-se apenas internacionalistas) de Lisboa organizaram uma manifestação de solidariedade para com os trabalhadores espanhóis ainda sob o jugo de Franco, aproveitando o aniversário do assassinato de Salvador Puig Antich, que tinha sido garrotado um ano antes, a 2 de março de 1974.

Foram várias centenas os manifestantes que desfilaram Avenida da Liberdade acima, provocando alguns estragos nas montras de companhias espanholas que ali tinham as suas delegações.

O comunicado que convocou a manifestação – para além de outro material publicado na altura – traduz o espírito da convocatória e a solidariedade que todo o movimento libertário português sempre prestou, neste período difícil, aos companheiros espanhóis.

Em baixo está a “notícia” do “insuspeito” Diário de Lisboa, então dominado pelo PCP e pela extrema-esquerda (a maioria hoje a militar em partidos de direita) que, num texto não assinado e demonstrativo daquilo que, na altura e agora, se chama “isenção jornalística”, tenta ironizar com a forma como decorreu o desfile de protesto. Quem lá esteve não se reconhece no tom faccioso e mentiroso da prosa! Mas fica como exemplo desses tempos, em que depois de 16 anos de repressão burguesa na 1ª República e de 48 anos de fascismo, o movimento anarquista ainda sofreu todo o tipo de silêncios, perseguições, mentiras e ocultações após o 25 de abril por parte de quem quis ocupar as primeiras filas de uma democracia de opereta.

(memória libertária) A Federação Portuguesa de Solidariedade para com os Presos e Perseguidos por Questões Sociais


Poema de João Black editado pela organização de defesa dos presos sociais, enaltecendo os valores morais dos que são presos.

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A brutal repressão estatal contra o movimento social de oposição em Portugal levou à necessidade dos libertários criarem uma Federação Portuguesa de Solidariedade para com os Presos e Perseguidos por Questões Sociais, um Conselho Jurídico da Confederação Geral do Trabalho (CGT) encarregado sobretudo da defesa jurídica de militantes levados a tribunal e, enfim, um pelouro para a ‘solidariedade’ nas estruturas clandestinas dos anarquistas, para recolher fundos e ajudar os seus militantes presos. Estes, por sua vez, organizavam-se dentro das prisões, para melhor resistir à condições de detenção a que eram sujeitos, estimular a entreajuda e comunicar organizadamente com o exterior. Neste particular, é de destacar a acção da Organização Libertária Prisional no campo de concentração do Tarrafal (Cabo Verde), nos anos 30 e 40.

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O Brado Libertário: Boletim de Informação e Propaganda Interprisional (Ano I, nº 1, Dezembro de 1934): Folha manuscrita que circulou como jornal de prisão.

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Claridade: folha manuscrita de divulgação doutrinária (nº2, 20 de Junho de 1938) Órgão de cariz essencialmente doutrinário escrito na prisão de Coimbra pelos presos sociais.

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A Dor: o Grito das Prisões (Ano I, nº 1, Junho de 1934) Jornal manuscrito que circulou na prisão de Coimbra na sequência das vagas repressivas de Janeiro de 1934.

aqui: Arquivo Histórico-Social / Projecto MOSCA

A greve de 1922 em Aljustrel


Grupo de crianças, filhas dos mineiros de Aljustrel, recolhidas em Lisboa pelas famílias operárias. Foto e legenda publicadas no Almanaque d’ A Batalha para 1926, na rubrica “Revolução e contra-revolução (Resenha dos factos mais importantes ocorridos de Fevereiro de 1919 a Junho de 1925)”, com o seguinte texto – 28 de Outubro de 1922 – Chegam a Lisboa os primeiros filhos de grevistas de Aljustrel que ficam entregues ao carinho e á solidariedade do operariado de Lisboa que lhes fez comovente recepção. Ao passarem por Beja o povo operário toma a seu cuidado vinte e cinco das crianças que vinham para Lisboa.

Paulo Eduardo Guimarães (*)

(…) A greve mineira do Inverno de 1922 insere-se no quadro da difícil recuperação económica do pós-guerra. Do ponto de vista do movimento operário, ela insere-se num período de greves «de resistência», iniciado com o movimento dos ferroviários do Sul e Sueste e o dos operários da C.U.F., no Barreiro, em 1919[i].

A greve foi preparada com antecedência, na fase de maior pujança da C.G.T. Houve visitas de militantes confederais à vila, nomeadamente, a de Manuel Joaquim de Sousa, em finais de Julho e em Agosto. A 3 de Outubro, os mineiros declaram-se em greve por não verem satisfeitos os pedidos de aumentos de salário que atingem os 100%. [ii]

Uma semana depois, os mineiros recebiam a oferta de ajuda dos comerciantes. A moral entre os grevistas era excelente[iii]. Mas depressa surgiram sinais de hostilidade das autoridades. O governador civil recusou-se a receber uma comissão de grevistas. Enquanto isso, o director afirmava esperar ainda uma resposta da Bélgica[iv]. O tempo jogava a seu favor. No fundo, tentava quebrar a resistência pela fome. Ao fim de quinze dias havia já quem se apresentasse ao serviço durante a noite, para não ser visto pelos companheiros.

Então, a 15 de Outubro a associação dos caixeiros de Lisboa inicia um vasto movimento de solidariedade para com os grevistas, logo coordenada pela C.G.T.[v]. Assim, no dia 17 a companhia lança a proposta de aumentar os salários em 1$00, que foi rejeitada pelos trabalhadores na assembleia reunida para o efeito na associação de classe [vi].

Com a visita de Jerónimo de Sousa, delegado da Confederação Geral do Trabalho, a greve recebia o apoio oficial do órgão superior do operariado português, surgindo agora na primeira página d’A Batalha.[vii] O jornal apelava para a defesa dos filhos dos mineiros de Aljustrel «para que os pais não se rendam». As crianças eram descritas como tendo um «aspecto esquálido e nú», sinal do «martírio da fome que atravessam os lares de tão honrados proletários, aspecto só esse comparável ao dos famintos russos, retratados nas gravuras dos jornais de grande informação».[viii] Depressa surgem manifestações de solidariedade a título individual ou em nome de sindicatos, um pouco por todo o país.

Nos fins de Outubro, chegam crianças a Beja, a Lisboa e ao Porto. Nas minas havia já notícias de galerias inundadas que alimentavam a intransigência dos operários. Na primeira página d’A Batalha a greve é dada como invencível, enquanto chegavam á vila mais 160 praças da G.N.R.[ix] De todo o país chega algum dinheiro, em primeiro lugar das minas do Lousal e de São Domingos. Tal como acontecera em 1912, o dinheiro era aplicado na cozinha comunista que funcionava no sindicato. Os filhos dos mineiros de Aljustrel tornaram-se então motivo de atracção na festa realizada para angariar fundos para A Batalha.

Um mês e meio depois, a 19 de Novembro, mantinha-se o impasse, apesar da empresa ameaçar com o lock-out: «é a greve do silêncio», diz A Batalha[x]. Mas os primeiros sinais de desespero faziam-se já sentir com o rebentamento de petardos nas minas e junto da casa do director. Embora aqueles actos fossem condenados pelo sindicato, as autoridades mandaram-no encerrar e fazem prisões. De imediato, os trabalhadores e as mulheres que andavam na apanha da azeitona abandonaram os campos para reclamar a libertação dos seus companheiros. Estes são libertados perante uma multidão compacta que não dispersou apesar das intimidações da G.N.R.

Agora, com a associação encerrada, a assembleia funcionava defronte do edifício construído pelos próprios mineiros. Perante o impasse a que se tinha chegado, o administrador do concelho e o tenente da guarda abandonam os seus cargos na esperança que a autoridade fosse entregue a um militar.

A 1 de Dezembro uma comissão de trabalhadores reúne com a empresa, chegando-se a um acordo no dia seguinte: a S.A.B.M.A.[xi] comprometia-se a proceder a aumentos salariais próximos dos que inicialmente eram exigidos e a aceitar todo o pessoal que anteriormente trabalhava na empresa, sem exercer represálias. Segundo o administrador do concelho que serviu de mediador, tratou-se de uma solução de compromisso: «não houve vencedores nem vencidos».

Porém, depois de reiniciados os trabalhos, Charles Leroy[xii] recusou-se a aplicar o acordo celebrado. Ao mesmo tempo corriam rumores na vila de que o director enviava para Antuérpia folhas de pagamento fraudulentas, ficando ele com a diferença entre o que realmente pagava e o que constava nos livros da empresa. Os operários decidem então reiniciar a greve.

Os estragos existentes na contramina, provocados pela falta de manutenção, levaram o governo a enviar praças da marinha que, com o auxílio dos capatazes, tentaram minimizar os prejuízos. A chegada de mais forças da G.N.R. conduziu a um controlo mais apertado da acção das comissões de trabalhadores. Entretanto, o correspondente d’A Batalha foi barbaramente espancado no posto da G.N.R., o que levou ao protesto imediato dos trabalhadores junto da administração.

O ano de 1923 abria assim num impasse, com a G.N.R. em desfiles vistosos pela vila. A 6 de Janeiro, Charles Leroy publicava a nova tabela salarial, de acordo com as instruções de Antuérpia. Os mineiros mantiveram-se intransigentes. Então, realizou-se no sindicato um comício que contou com a presença de Santos Arranha que viera de Lisboa «para esclarecer o operariado». Assim, os operários decidiram aceitar esta tabela como base de negociação, mas o director das minas recusou-se a fazê-lo. Perante esta situação, o administrador substituto do concelho demitiu-se e o presidente da Câmara, irmão do conhecido político unionista Brito Camacho, recusou-se a aceitar o cargo, forçando a entrega da administração à G.N.R.

Entretanto, Charles Leroy, apoiado no presidente do sindicato agrícola local, um unionista, criou a Associação Comercial e Industrial de Aljustrel que teve por missão pressionar o governo para abandonar o terreno da neutralidade. Ao mesmo tempo, tentava convencer os lavradores e comerciantes a não dar trabalho nem crédito, nem pão aos grevistas. Assim, a 18 de Janeiro, ao fim de 3 meses e meio de greve, os trabalhadores mineiros, cansados e esgotados, capitulavam.

(…) Apesar da derrota, a tensão em Aljustrel mantinha-se elevada ao rubro. Em Março de 1923, quando o administrador procedia ao visto nos livretes de distribuição de farinha foi agredido por vários indivíduos[xiii]. No mês seguinte, a notícia do fim do «pão político» levou os operários a abandonarem o trabalho tendo-se registado desordens e assaltos aos celeiros e à fábrica de moagens da mina. Em Dezembro realizou-se mais um comício no largo da associação sobre o problema do abastecimento dos cereais. Estes acontecimentos levaram a empresa a criar o seu próprio «pão político», fornecendo aos seus operários farinha abaixo dos preços correntes, aliviando de alguma forma a pressão sobre os níveis salariais. A Mason  & Berry[xiv] teria também um comportamento idêntico relativamente a esta matéria- Mas o clima de tensão por causa do problema dos abastecimentos perduraria até meados do ano seguinte.

A partir de meados de 1923 notou-se um endurecimento da atitude das autoridades face à actuação dos operários. O comício comemorativo do 1º de Maio desse ano não foi autorizado e as acções culturais do grupo anarquista Os Vencedores foram sistematicamente proibidas[xv]. O espaço de manobra dos sindicalistas foi progressivamente reduzido. As forças da ordem passaram a actuar preventivamente em colaboração com o patronato. O director das minas fornecia regularmente às autoridades uam relação de trabalhadores, com várias anotações sobre o seu comportamento individual. Tratava-se agora, e pela primeira vez, de eliminar de forma sistemática todo e qualquer indício de «bolchevismo». As acções intimidatórias e as prisões arbitrárias de dirigentes sindicais multiplicaram-se. (…)


[i]  O Avante, 2, 21 de Jun. 1919 e A Batalha, I, 113, 19 Jun. 1919

[ii] A Batalha, IV, 1184, de 5 Out.1922

[iii] A Batalha, IV, 1185 de 7 de Out. 1922 e 1186 de 8 Out. 1922

[iv] Idem, 1187 e 1188, 10 e 11 de Out. 1922. A greve pode também ser acompanhada através das séries de correspondência na adm. do conc. de Aljustrel

[v] Id., 1192, 15 Out.1922

[vi] Id, 1193, 17 Out. 1922

[vii] Id. 1194 e 1195, 18 e 19 Out. 1922

[viii] Id. 1189, 12 de Out. 1922

[ix] Id. Nºs. 1204 a 1209, de 29 de Out. a 5 de Nov.

[x] Id., 1222, 19 Nov. 1922

[xi] [Société Anonyme Belge des Mines d’Aljustrel]

[xii] [O director das minas]

[xiii] A.H.A., Adm. Conc., Copiador da correspondência expedida… of. 121 de 16 Mar 1923 para o delegado do procurador da República na comarca de Beja e of. 198 dirigido ao comandante da G.N.R. de Aljustrel

[xiv] [Empresa concessionária das Minas de São Domingos]

[xv] A.H.A., Adm. Conc, Coresp… of. 528 de 25 Set. 1923

(*) “ Indústria e conflito no meio rural: os mineiros alentejanos (1858-1938)”, Colibri, 2001, pgs. 258 a 262

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(A BATALHA, 1985) RELEMBRANDO AS JORNADAS DE LUTA DOS HERÓIS DE ALJUSTREL

Chegada a Lisboa dos filhos dos operários em greve em Aljustrel, Arquivo do jornal O Século. A data que aparece na folha de arquivo (24/IX/922?) não pode ser a correcta porque, segundo artigo no próprio jornal, datado de 29/10/1922, se refere que o grupo de crianças partiram “Antehontem (…) de Aljustrel para Beja ” (dia 27), “ chegando hontem, no comboio da manhã, (…) a Lisboa“, (dia 28)