Month: Dezembro 2021

Uma visão do Natal na Cidade


Jaime Brasil

“Lacónica, seca, notícia de jornal, a novidade chegou:

– Sabes?… Fulano foi preso!

Eram dez horas da noite de 24 de Dezembro e senti uma dor aguda cá dentro. É que o preso de momentos antes era um querido companheiro de trabalho, ombro com ombro comigo na mesma oficina.

– Preso?!…  Porquê?

Depois o soube. Ia para três anos, em noite de boémia galharda, um desses javalis, a que chamam polícias, vomitara injúrias em nome da ordem para fazer calar a alegria de viver. E ele, o preso de agora, num minuto belo de revolta, embriagado de liberdade – esbofeteou o javardo.

Quase três anos volvidos, outro polícia – ou o mesmo, que todos são incarnação de idêntica, torpíssima, alma – aguardou pacientemente a noite de Natal, esperou na sombra que a vítima fosse despreocupadamente para o trabalho, formou o salto e atirou com ela para um calabouço piolhoso, fétido, alvitante.

E, todavia, o meu companheiro, o que era ombro com ombro comigo na mesma oficina, possuía uma família e um lar, era moço e alegre e até – acaso talvez – tinha no bolso umas cédulas, para comprar prendas e bolos aos sobrinhitos traquinas. E nessa noite era esperado em casa, para consoar, por toda a família, quem sabe se pela noiva também e talvez por uma avó velhinha…

A manápula encardida dum polícia desfazia assim esse castelo de ingénua alegria, punha um vinco de preocupação na fronte encanecida dum pai, enchia de lágrimas de angústia os olhos de irmãs ainda meninas…

E porque senti uma dor aguda cá dentro, amararam-se-me os olhos de lágrimas, como a uma mulher e a minha boca proferiu frases travadas de ódio, como as de um precito.

Queria dizer: Liberdade, Amor… e só me saiam dos lábios palavras desconexas, injuriosas, torpes. A mais suave, recordo-o, era:

– Cães!

Quis ainda evocar a figura doce do Cristo menino, dormindo nas palhinhas; mas a minha imaginação doente de rancor, figurou logo um monstro estranho, caveira com barbas, farda desajeitada e chantalho pingando sangue, a roncar no Presépio, entre os olhares indiferentes da Virgem, os bocejos aborrecidos de S. José e o estercar sem-cerimónia das bestas bíblicas.

Estava alucinado.

***

Foi sob a opressão deste pesadelo que entrei na Cidade.

Um nevoeiro denso, quase sólido, enchia tudo. Não chovia, nem fazia frio; no entanto, o lajedo das ruas era negro-baço, como se fora batido pela água, e uma humidade gélida penetrava a roupa e punha arrepios na epiderme. As luzes das ruas só se distinguiam num perímetro duma dúzia de passos e, amareladas, envoltas num halo frouxamente luminoso, pareciam círios numa câmara-ardente. Ao alto, de lés a lés das ruas, pendiam das frontarias os panos-de-dó da névoa. Larvas negras, curvadas numa submissão fatal, arrastavam-se e eram aqui e ali devoradas pelas bocarras de treva das vielas.

Cheguei a uma praça, onde havia uma igreja iluminada, com cânticos de órgão lá dentro. Entrei. Ó, a fantasmagoria pagã do culto! De tudo quanto impressionou a minha visão, nos escassos minutos que lá me demorei: dalmáticas e casulas fulgindo oiro, altares pingados de luzes, flores queimadas de febre, nuvens de incenso espiralando doidas, multidão negra e compacta, prostrada – só ficou, gargalhando na minha memória, o grupo escultórico da Carne. Ela, formosa; burguesa; veludos, peliças; pernas, embainhadas em seda cor-de-carne, que, na postura forçada a que o arquibanco obrigava, ora se cruzavam. Ora se descruzavam, deixando ver por momentos, acima do joelho, qualquer coisa de lácteo: liga, pele… Ele, elegante; monóculo; Chiado; olhos cravados nesse ponto que ora se mostrava, ora desaparecia, mordendo o lábio inferior ao-de-leve e agitando ligeiramente o corpo num movimento rítmico – o movimento misterioso e eterno…

Passei depois por outra igreja e por uam taberna. Entre portas da primeira, para cá do guarda-vento, um velho alto, hercúleo, tipo de mendigo, com um capote chapeado de remendos, discutia com um ganimedes de opa vermelha de Irmão do Santíssimo, que o empurrava e dizia em falsete:

– Vá-se embora, preciso de fechar a porta, ande!

E o velho, de falas pausadas:

– Ó menino! Deixe-me ficar aqui… Não faço mal nenhum… Até da casa de Deus!…

Da taberna, de portas fechadas, vinha um tinir de copos, uns sons de guitarra, um zumbido de vozes roucas que um riso claro de mulher cortava, dizendo que por ali ia estúrdia grossa. Um fantasma saído dum portal, um polícia de capa de oleado, bateu com os nós dos dedos na porta da taberna e grunhiu:

– Vejam lá se acabam com essa zaragata!

O taberneiro assomou, trazendo já na mão um copo de decilitro de aguardente. O polícia gualdiu sôfrego o veneno – nem ele queria outra coisa – e voltou para o portal, na sombra, pigarreando forte.

***

Engolfei-me na névoa espessa. Respirava a custo. Andei por becos e travessas, sempre sufocado. Subi a um alto. A Cidade, em baixo, era um poço de treva, com laivos sangrentos aqui e ali. Nem uma estrela no alto; no lago sombrio nem uma janela iluminada, dessas que se adivinham ser alcovas de ricos ou mansardas de pobres. Nada. A paisagem do mar largo, em noite sem luar, não é mais soturna.

Voltei ao fundo da cova. Passei por um casarão que foi convento da religião franciscana e hoje é covil de feras. Estava um polícia à porta. Senti gemer. Depois pareceu-me ouvir uma voz conhecida. Era a daquele meu companheiro de trabalho, que fica ombro com ombro comigo na mesma oficina, voz que sempre ouvi vibrar sarcástica, que dizia amarga, revoltada, altiva:

-Liberdade.

Segui. Outro convento, que um guerreiro doido fundou. Debaixo da terra, dos in-paces húmidos, subiam vozes apagadas de monges torturados de jejuns, rezando:

– Liberdade…

Adiante. Um teatro? Não, o Paço dos Estaus. E das masmorras da Santa Inquisição, com o guizalhar de bragas e gargalheiras, vinham vozes oprimidas, protestando, rugindo:

– Liberdade!

Mais uns passos. A boca negra do Pátio do Tronco e entre mulheres vi – não me enganei – o vulto gentil do moço volteiro, barbirruivo e galante, que cantou a Natércia e a Bárbara escrava, murmurando triste…

– Liberdade…

Quis fugir à ronda dos fantasmas. Retrocedi. Trepei para Alfama. Ficou-me à direita o vulto monstruoso da Sé, com a fachada disforme coberta pelos tumores dos andaimes. À esquerda o Aljube e lá de dentro vozes de mulher, chorando:

– Liberdade, Liberdade…

A seguir os Paços do Andeiro. Vi olhos faiscando na treva e ouvi nitidamente um clamor que dizia:

– Liberdade! Liberdade! Liberdade!

Ainda tentei ir abalar as grades daquelas prisões, escancara aquelas portas chapeadas de ferro e gritar aos que estavam lá dentro:

-Vós que tendes família e amigos e que tendes também coração – ide consoar como toda a gente nesta noite consagrada à família e a Jesus menino. Ide em paz. Os vossos crimes – os de quase todos – são tão graves como o daquele meu companheiro de trabalho, que fica ombro com ombro comigo na mesma oficina. Os crimes dos outros – os verdadeiramente graves  – não é aí que se curam, é em sanatórios, em oficinas, em escolas. Ide… sois livres!

Vã tentativa! Eu era só na Cidade imensa e na noite escura. Voltei mais triste ainda para o meu tugúrio.

De toda a parte, do fundo das idades e do seio da terra, nos cárceres lôbregos e nos tronos refulgentes, nas bocas do próceres e na bênção dos pastores, o mesmo símbolo, a mesma palavra, a mesma ideia: Liberdade.

E a Liberdade é ainda um mito, uma aspiração, um sonho…

Isso pensava eu, ao recolher a casa, embrulhado em farrapos de névoa, que, semelhante a um véu de crepe, o meu vulto esgarçava na noite. E porque o nevoeiro era como uma mão de bronze, jugulando-me, é que eu, embora me parecesse gritar, só murmurava baixinho – Liberdade! Liberdade!”

J.B.

(Texto publicado originalmente no Suplemento Semanal Ilustrado de “ A Batalha”, em 29 de Dezembro de 1924. Fizeram-se apenas raras atualizações ortográficas para esta republicação)

A revolta de Beja e a participação anarquista na preparação do movimento


Foi há 60 anos. Na noite de 31 de dezembro de 1961 para 1 de janeiro de 1962, várias dezenas de homens, entre militares e civis, tentaram, a partir da tomada do Quartel de Beja, iniciar um movimento insurreccional, visando o derrube do regime fascista de Oliveira Salazar. Ficou conhecido como a “Revolta de Beja” e dois civis morreram. Com a figura de Humberto Delgado como referencial, o plano passava – após a tomada do Quartel – pelo envio de colunas para vários pontos do país, onde os militares insurrectos teriam dominado os quartéis e grupos de civis ocupado as centrais de telecomunicações, os postos da GNR e cortado os sistemas eléctricos. Seria uma espécie de 25 de Abril de 1974 (com os civis a intervirem no golpe de Estado) mais de uma década antes.

O movimento fracassou devido a vários factores, mas a “semente” ficou e mostrou que era possível um grupo de homens determinados porem em xeque o regime fascista. Na altura, apesar de vários militantes comunistas terem aderido, pessoalmente, ao movimento, sobretudo das zonas operárias do Barreiro e Almada, o PCP manteve-se afastado. Menos conhecida é a participação, embora numa posição recuada, do movimento anarquista no chamado “golpe de Beja”.

Um dos participantes na organização do movimento, embora não tenha estado no ataque ao quartel, foi José Hipólito Santos, irmão de um dos oficiais  (Alexandre Hipólito Santos) que facilitou a entrada dos revoltosos naquela unidade militar.

José Hipólito Santos ((1932-2017), que esteve preso em consequência da acção de Beja durante 18 meses, manteve durante toda a sua vida uma militância anti-fascista, defendendo o cooperativismo  e a acção directa. E, apesar de ter sido militante e dirigente de diversos movimentos como a o MAR, a LUAR ou o PRP, estabeleceu sempre contactos directos e permanentes com sectores libertários, sobretudo com Emidio Santana, Moisés Sousa Ramos ou Germinal de Sousa.

Deve-se a José Hipólito Santos  a revelação de que estes sectores anarquistas estiveram também mobilizados na preparação do “assalto ao quartel de Beja”, estando-lhes determinadas tarefas caso o movimento triunfasse. Uma dessa tarefas seria o corte de energia eléctrica à cidade de Lisboa na noite de 1 para 2 de Janeiro, como o próprio José Hipólito Santos escreve na página 85 do seu livro “ A revolta de Beja”:

(…) “Já antes,  num encontro habitual dentro das minhas actividades cooperativas, tinha conversado com Moisés Silva Ramos e Emídio Santana, ambos anarquistas, sobre o que parecia estar em preparação. Era algo que fazíamos com alguma regularidade e que já permitira uma colaboração activa de anarquistas no Movimento da Sé. Ao saber que se confirmava o desencadeamento revolucionário em Beja e que ele seria na noite de 31 de Dezembro, encontrei-me com esses amigos que já tinham sondado o seu grupo sobre a possibilidade de entrarem em acção, cortando a energia eléctrica à cidade de Lisboa, na noite de 1 para 2 de Janeiro, a fim de paralisar os transportes e o trabalho em fábricas, enquanto Germinal de Sousa e José Correia Pires assegurariam a produção de panfletos informativos e a sua distribuição em Lisboa e na Margem Sul” (1)    

Emídio Santana, no entanto, nas suas “Memórias” não se refere a este facto, embora refira a ligação que manteve aquando da revolta da Sé com o movimento sedicioso (a data indicada, no entanto, está errada. Santana indica Março de 1961 quando o movimento estava marcado para Março de 1959, para a noite de 11 para 12 de março, mas acabou frustrado pela PIDE) :

“Chego ao contacto com o Manuel Serra, pletórico de entusiasmo, exaltado e romântico, inebriado pela acção e cheio de confiança. Conversei com ele e o Capitão Vilhena apercebendo-me do golpe militar planeado. Consegui, a seu pedido, a impressão de uma proclamação revolucionária que não soube depois se chegou a servir.

Então viria  a ser mais uma tentativa romântica que se gerou numa malograda tentativa de assaltos a quartéis; a sedição de Março de 1961 (assim no texto).

Na tarde desse dia indicaram-me uma morada, pedindo a minha comparência ao começo da noite: Rua da Sé, nº 46, se não erro.

À hora marcada subo direito à Sé calculando a altura do local; passo ao Aljube na sua sonolenta digestão de prisioneiros, e encaro o número indicado.

Não era possível. Era a porta de uma dependência da Sé, onde existia uma organização católica de marinheiros, se não estou em erro. Detenho-me e certifico-me do número. Era aquele mesmo. Subo a rua ultrapassando a rua do Barão para confrontar com o número seguinte. Aquele número estava certo. Volto para baixo ainda para verificar já na ideia que teria sido engano e reparo que a sentinela da GNR da porta do Aljube me aponta com o dedo para a porta como a dizer-me que era ali.

Era exactamente o local da reunião. O carácter sagrado do edifício deu à sentinela a segurança de indicar quem chegava ao notar que ali se estava passando alguma coisa de sagrado. Continuava a sua fidelidade ao regime…” (2)

Joaquim Eduardo Pereira (1921-2005)

Nesta acção destaca-se Eduardo Pereira, um operário que, estando em dissidência com o PCP, aderiu ao movimento dos revoltos que planeavam tomar o Quartel de Beja, sendo um dos elementos-chave para a participação de muitos civis da zona operária de Almada-Seixal. Esteve preso durante quatro anos e cinco meses por ter participado no movimento. Posteriormente exilou-se em Paris onde contactou com os meios libertários, mantendo relações de proximidade com o movimento anarquista após o 25 de Abril de 1974, nomeadamente com Gabriel Morato, Júlio Carrapato, António Mota e José Maria Carvalho Ferreira (3).

Segundo Hipólito Santos: “Piteira Santos jogava um papel importante nas movimentações legais e clandestinas da oposição. Preso em 1945, foi expulso do PCP em 1950 (com Ramos da Costa e Mário Soares), manteve-se sempre muito dinâmico, nomeadamente estabelecendo pontes nas difíceis relações entre a oposição democrática e o PCP. Seguia com atenção as transformações na “União Soviética” e juntava à sua volta pessoas como Edmundo Pedro, Gilberto de Oliveira, Adolfo Ayala, e, mais tarde, Eduardo Pereira e Alípio Rocha, gente que se afastara do PCP, ou ainda seus militantes, mas em desacordo com a linha “pacifista”.

O caso de Joaquim Eduardo Pereira era o mais representativo.

Natural de Faro, onde nasceu em 1921 e fez a escola primária, começou a trabalhar como aprendiz de marceneiro, mudando depois de trabalho e profissão de acordo com as circunstâncias da sua vida familiar e militância no PCP, desde 1943. Foi membro do Comité Regional do Algarve,  participou no V Congresso do PCP, clandestino, em S. João do Estoril,logo a seguir, em 1957, tornou-se funcionário com responsabilidades na reorganização do estratégico sector da Margem Sul, na corda Almada/Seixal, como na zona Barreiro/Montijo. Tratava-se de um quadro comunista prestigiado na Margem Sul, radicalizado, muito crítico das posições recuadas da direcção do partido. Entrou em ruptura com a estrutura partidária e deixou de ser funcionário, conseguindo trabalho como operário montador na Companha Portuguesa de Pesca, na zona de Cacilhas – Olho de Boi.

(…) Posto ao corrente do projecto da acção revolucionária a partir de Beja, não só aderiu como iniciou uma intensa actividade na zona de Almada para aliciar companheiros que tão bem conhecia e que, muito embora ainda não tendo cortado com o PCP, foram participantes activos na manifestação de 11 de Novembro em que foi morto o trabalhador Capilé, gritando pelas ruas de Almada: “Queremos armas!”.

Em dois ou três dias, cerca de duas dezenas de elementos aderiram e prontificaram-se a partir para a segunda tentativa de assalto ao quartel. Eram, na sua maioria, operários qualificados do tecido industrial da zona Seixal/Almada, quase todos jovens e casados, mas também outros menos jovens.”(4)

Eduardo Pereira foi um dos últimos a abandonar o quartel, tendo sido preso em Almodôvar pela GNR , que montou um forte dispositivo repressivo em toda a região, algumas horas depois.

(1) A revolta de Beja, José Hipólito Santos, Âncora Editora, Lisboa, 2012, p. 85

(2) Memórias de um Militante Anarco-sindicalista, Emídio Santana, Perspectivas & Realidades, s/data. p.310.

(3) Obituário de “Eduardo Pereira, um homem que lutou pela justiça social”, de José Maria Carvalho Ferreira, revista Utopia, nº 20, 2005. aqui: http://utopia.pt/edicoes/Binder20.pdf

(4) A revolta de Beja, José Hipólito Santos, Âncora Editora, Lisboa, 2012, p. 65/66

De 1935 a 1940 a repressão fascista visou sobretudo o movimento anarquista e anarco-sindicalista.


Este documento recentemente publicado na página do grupo “Fascismo nunca mais!”, por Helena Pato, e divulgado como sendo um documento partilhado por Rodrigo Sousa e Castro, dá bem a ideia do que foi a terrível repressão ao movimento operário, anarquista e anarco-sindicalista fortemente maioritário na década de 30 do século passado.

Ainda que a repressão também tenha atingido sectores do movimento republicano, que se opuseram a Salazar, e a elementos comunistas, francamente minoritários, o grosso da repressão foi devastadora para os sectores libertários e sindicais. Praticamente toda a estrutura organizativa era legal e assentava em sindicatos e associações cujos dirigentes e membros estavam perfeitamente identificados.

De 1935 até ao final da década, segundo este documento, foram presos 11.449 antifascistas, num movimento repressivo que não teve – felizmente – repetição em tão grande número (nem lá perto!) em qualquer das décadas seguintes.

Somando esta sanha destrutiva contra as forças oposicionistas – e os anarquistas e anarco-sindicalistas eram, nesta época, a força dominante – à derrota da revolução espanhola e ao peso que a União Soviética ganhou na cena mundial no após 2ª guerra mundial, fácil será compreender que a resistência anarquista em Portugal a partir de finais dos anos 40 tenha enfraquecido e aberto espaço para outras correntes oposicionistas.

Para além da prisão, do desterro e da morte de militantes, o regime procedeu também à destruição de livros, documentos, organizações, eliminando parte substancial da própria memória colectiva desse período anterior de lutas e de dedicação á causa da transformação do mundo num sentido de maior igualdade e de maior liberdade.

Há quem refira a ausência do anarquismo no combate ao regime de Salazar nos anos 50 e 60, esquecendo a enorme repressão das décadas anteriores que visou essencialmente o movimento anarquista e os seus quadros, enfraquecido também pela derrota na guerra civil espanhola.

Mas nunca claudicaram. Mesmo em tempo de repressão, debilitado, o movimento anarquista, nas décadas de 50, 60 e até ao 25 de Abril de 1974, esteve presente em movimentos unitários, nas lutas dos inquilinos em Lisboa, na Universidade Popular, nalgumas greves e acções directas (uma parte dos activistas que desviaram o Santa Maria em Janeiro de 1961 eram anarco-sindicalistas espanhóis) e através de nomes como os de Emidio Santana, Moisés da Silva Ramos, António Machado, Correia Pires, Adriano Botelho, Francisco Quintal, Lígia Oliveira e muitos outros. Honra lhes seja feita!