DOIS DOCUMENTOS SOBRE O 18 DE JANEIRO DE 1934: (2) ARTIGO NO JORNAL “VOZ ANARQUISTA” DE JANEIRO DE 1975 – “A VERDADE SEMPRE AO DE CIMA: 18 DE JANEIRO DE 1934″, POR ADRIANO BOTELHO


“A VERDADE SEMPRE AO DE CIMA: 18 DE JANEIRO DE 1934″

Adriano Botelho (1)

Quando foi preparado este movimento, fazia eu parte do Comité Confederal, com Alberto Dias, José Francisco, Manuel Henriques Rijo e Mário Castelhano.

A ideia inicial de se realizar uma acção de protesto contra o regime salazarista partiu do Sindicato dos Manipuladores do Pão, que por intermédio da Câmara Sindical do Trabalho de Lisboa, se dirigiu à C.G.T., propondo a organização dum movimento nacional a favor dos presos e perseguidos Essa proposta foi aceite unanimemente, mas, como já se falava então na introdução entre nós do regime corporativo copiado do fascismo italiano, resolveu-se conjuga-la com a necessária acção de resistência a este propósito sinistro do ditador Salazar.

Além disso, achou-se conveniente que esse movimento fosse lançado simultaneamente com um outro que os políticos e militares da oposição planeavam, o que evidentemente facilitaria a uns e outros a luta contra o inimigo comum.

*

Convém acentuar que a C.G.T. esteve sempre pronta a cooperar com todas as forças antifascistas, mas dentro dos seus métodos específicos, sem abdicação dos seus princípios nem da sua independência.

*

Como o trabalho preparatório a executar para essa acção revolucionária era excessivo, o Comité Confederal resolveu encarregar um dos seus membros, Manuel Henriques Rijo, de organizar um outro Comité, que se encarregasse unicamente desta tarefa.

Quanto aos convidados para esse Comité, ignorei propositadamente os seus nomes, visto que «quem não sabe», não diz, «nem mesmo que queira». Mas suponho que entre os seus componentes se contavam além de Mário Castelhano, o Custódio da Costa, dos padeiros; Jorge Mateus e Tomás Aquino, da construção civil; e Serafim Rodrigues, dos mobiliários.

*

Já depois dos trabalhos iniciados, numa reunião do Conselho Confederal, um dos delegados popôs, que também se convidasse a colaborar connosco o pequeno número de sindicatos sob a influência dos marxistas: comunistas  e socialistas.

Foi um gesto de camaradagem, aceite por todos os presentes, mas que depois a experiência demonstrou ter sido um grande erro.

*

Em face da resolução do Conselho deu-se andamento a essa política generosa da mão estendida, e para se iniciar combinou-se um encontro entre um representante nosso e um do movimento comunista.

Estes foram Mário Castelhano e José de Sousa. Encontraram-se na rua e deambularam pela cidade cerca de duas horas, em amistosa conversa, ficando combinada a maneira de se relacionarem de futuro. Mas passado algum tempo apareceu inesperadamente um manifesto do partido comunista, atacando a C.G.T., dizendo, entre outras coisas, que esta andava a reboque dos partidos políticos – isto, por estar disposta a acompanhar qualquer outro movimento de ataque ao fascismo.

Perante esta provocação, Mário Castelhano pediu explicações a José de Sousa, que justificou o caso, declarando que se tratava apenas de uma manifestação de temperamento dum certo camarada, (era, em geral, desta maneira, que explicavam ataques despropositados dos seus correligionários), e que assim as nossas relações poderiam continuar no mesmo pé.

*

É de admitir que o autor desse manifesto fosse o Bento Gonçalves, porque foi ele quem classificou o 18 de Janeiro de 1934 de «anarqueirada» ridícula e impotente, e foi ele, também, que substituiu José de Sousa no secretariado do partido.

*

Mário Castelhano, na sua tarefa de organizador, dirigiu-se à província, ali estabelecendo relações em várias localidades, que nalgumas destas ficaram interrompidas aquando da sua prisão. Por isso, a C.G.T. pediu um adiamento da eclosão do movimento em perspectiva.

E os marxistas, que tinham levantado antes alguns entraves dilatórios, nesta altura afirmaram que lhes era impossível alterar a data já fixada, e que, portanto, iriam atacar, mesmo que a C.G.T. não os acompanhasse.

Táctica de politicantes, jogando com os acontecimentos.

Se o movimento triunfasse, colheriam eles os troféus da vitória, por terem sido os seus iniciadores; se fracassasse, o que infelizmente aconteceu, era a C.G.T. a responsável pela «anarqueirada», rídicula e impotente.

Contudo, a anarqueirada não foi tão ridícula e impotente como a classificou Bento Gonçalves, e houve até o levantamento da Marinha Grande, com activa colaboração dos seus correligionários, que, pelo menos, por esse facto lhe devia merecer mais um pouco de consideração.

Segundo as declarações feitas ao «Diário de Lisboa» de 18-1-1975, por Manuel de Sousa Baridó, então dirigente do Sindicato Nacional dos Vidreiros, militante comunista, que participou activamente na insurreição, esse movimento foi um «acto heróico de resistência e de coragem».

«Na Marinha Grande a iniciativa local partiu do P.C., por estar mais bem organizado. Todavia, nas reuniões preparatórias que se realizaram desde Setembro de 33, tomaram parte activa núcleos anarquistas».

«Os anarquistas dominavam a direcção dos bombeiros a quem pertencia o teatro. Então, reuníamo-nos muitas vezes nos camarins do teatro. Todos os dias se faziam reuniões».

*

Desta linguagem se conclui, claramente, que seria muito fácil o entendimento entre todos os trabalhadores, para qualquer acção defensiva se não se introduzissem no seu seio chefes verrinosos, odientos, despóticos, somente ávidos de poder ditatorial.

*

Mas apesar dos prejuízos causados com a prisão de Mário Castelhano, o movimento teria tido extraordinária importância, se não fosse ainda e sempre a nefasta atitude dos bolchevistas.

*

Contudo, antes de prosseguirmos, achamos conveniente recordarmos as circunstâncias em que se efectuou essa prisão.

Mário Castelhano, embora corajoso e desassombrado, como o demonstrou sobretudo no Tribunal de Sta. Clara, era dotado duma grande prudência. Por isso, à cautela, deixou neste período a sua casa na Travessa das Mónicas, à Graça – desconhecida da polícia, que sempre o procurou na morada de seus pais, na Rua da Senhora da Glória, – e alugou um quarto em Chelas, em casa de pessoa da família dos contínuos do Pessoal da Câmara, onde era funcionário.

Uma noite, logo após o regresso da província, ao tomar um táxi, para se dirigir a Chelas, uma policia da rua já o não deixou entrar, dizendo-lhe que o acompanhasse até à próxima esquadra. Surpreendido, perguntou-lhe porquê, ao que lhe foi respondido «que fora a pedido daquele senhor», que os ia acompanhar à esquadra de Arroios (salvo erro), onde tudo seria esclarecido.

Mas, quando Mário Castelhano foi olhar para o tal senhor, já não o viu, nem tão pouco ele apareceu na esquadra. Assim, passados alguns momentos, fingindo-se inocente, Castelhano perguntou ao chefe, se poderia retirar-se, visto não ter aparecido ninguém. Mas, precisamente, nessa ocasião, começou a retinir o telefone, e ele viu logo que estava perdido e, na verdade, não mais o largaram, até que o assassinaram no Campo do Tarrafal.

Disse-se que o delator fora um ferroviário, seu antigo colega, mas este certamente não seria um simples transeunte de acaso. É de admitir que fosse acto premeditado, pois que Castelhano viera para Lisboa clandestinamente após a revolta da Madeira, estando portanto aqui já havia cerca de dois anos, sem que a policia o incomodasse; e logo foi detido, em circunstâncias estranhas, precisamente no momento em que mais falta fazia aos acontecimentos que se iam desenrolar. Seria demasiada coincidência para ser obra do acaso!

Essa prisão criou, como atrás dissemos, sérias dificuldades à C.G.T., que pediu aos marxistas o adiamento do movimento, a fim de restabelecer as relações interrompidas.

A resposta foi negativa, sob a alegação de que já havia compromissos tomados, que era impossível alterar a tempo.

Em face disso a organização confederal resolveu actuar com as forças de que na ocasião dispunha, mas essa mesma acção foi inutilizada pelo lançamento duma bomba na véspera da eclosão do movimento.

O autor desta leviandade – não se querendo chamar-lhe outro nome – foi o comunista Ernesto José Ribeiro, que o fez na estrada de Chelas, contra um polícia que se dirigia para o serviço.

Durante seis meses fora o movimento organizado sem que a policia o descobrisse, mas alertada deste modo, no primeiro momento apavorou-se, reagindo depois com a ferocidade resultante do seu terror.

Colocou-se em pontos estratégicos de Lisboa e impediu toda aquela acção que cuidadosamente estava preparada, e que Custódio da Costa relatou, em pormenor, na entrevista dada ao «Diário de Lisboa» de 18 de Janeiro de 1975.

Como se vê por esse relato, se a máquina portentosa montada pela C.G.T. tem conseguido actuar, teria inegavelmente vibrado profundo golpe no sistema fascista, que, pelo menos, seria forçado a encolher um tanto as garras.

Somente – por não terem sido avisados em devido tempo – agiram sobretudo os trabalhadores da Marinha Grande, sobre os quais recaiu, imediatamente, o peso da máquina repressiva.

Mas, em toda a aparte, se iniciaram as perseguições e a quase totalidade dos militantes activos da C.G.T. foram presos, maltratados e deportados primeiro para Angra do Heroísmo e depois para o Campo do Tarrafal.

A este Campo foram primeiro parar Mário Castelhano, Manuel Henriques Rijo, Arnaldo Simões Januário, Custódio da Costa, Acácio Tomás Aquino, e mais tarde José Correia Pires, José Rodrigues Reboredo e muitos outros. E ali morreram Mário Castelhano e Arnaldo Simões Januário, entre os nomes mais conhecidos.

Mas os comunistas também não escaparam à repressão, que alguns deles, aliás, facilitaram com a sua actuação.

Ao Campo do Tarrafal foram também parar duas das de então figuras máximas do comunismo: José de Sousa e Bento Gonçalves. Este foi um dos que ali faleceu, assim como Ernesto José Ribeiro, o que lançou a bomba na estrada de Chelas contra o polícia.

Evidentemente, que com esta derrota da classe operária organizada, o fascismo recobrou novas forças, pois que o seu verdadeiro adversário eram os organismos da Confederação Geral do Trabalho, o que tem sido reconhecido pelos próprios dirigentes dos partidos políticos, que mais duma vez têm afirmado serem as massas populares organizadas o mais importante baluarte de defesa contra a reacção.

Estas, porém, ficaram extremamente enfraquecidas, após a vitória do regime corporativista, cópia do sistema instaurado por Mussolini.

E a propósito desse enfraquecimento, citamos a seguinte passagem do livro de Mário Castelhano «Quatro Anos de Deportação”:

«Embarcámos em Ponta Delgada em 13 de Outubro (1930). Ainda não tínhamos atingido a escada do portaló e já de bordo criaturas amigas nos saudavam. Novas vítimas da ditadura, elementos da organização operária de Lisboa e Porto que, pelo facto de serem avançados, eram postos fora do continente. Nós estávamos já há três anos. Eles haviam partido há dias, cheios de fé e de esperança num regresso breve.

«Era o Júlio Luís, dos Arsenalistas do Exército, camarada e amigo dedicado, o Bento Gonçalves, dos Arsenalistas da Marinha, Fernando Barros, Anastácio Ramos, Aníbal Dantas, José da Silva, António Carvalho, Manuel João, António Nunes, da organização do Porto e mais outros, todos companheiros de luta, das várias tendências estabelecidas no meio operário e que são causa, em parte, do seu actual enfraquecimento».

Fizemos esta transcrição, precisamente, por causa destas palavars finais.

É que Mário Castelhano, já nessa altura, reconhecia que a organização se encontrava em estado de enfraquecimento, em parte, devido à existência de várias tendências, e de que eram grandes responsáveis, embora ele não o dissesse, os dois arsenalistas Júlio Luís e Bento Gonçalves.

Mas esse enfraquecimento já notado em 1930 em vez de diminuir, acentuou-se gravemente após o 18 de Janeiro de 1934.

Por um lado, a C.G.T. perdeu os seus verdadeiros alicerces: os sindicatos, pois, foram, depois de saqueados, encerrados, perdendo assim as massas trabalhadoras os seus locais de reunião.

É certo que os grupos mais persistentes mantiveram-se indefectivelmente nos seus postos, mas com muitas dificuldades para se reunirem, trocarem impressões, fazerem as cotizações, etc..

E a prova dessa persistência foi a publicação contínua de A Batalha, clandestina, as perseguições, sobretudo durante a guerra de Espanha, que determinaram novas deportações para o Tarrafal.

Mas, na verdade, esse enfraquecimento foi prejudicialíssimo, repetimos, para a luta anti-fascista.

Salazar pôde depois atacar mais facilmente todos os partidos oposicionistas e perseguir ferozmente os intelectuais rebeldes.

Estas lições, porém, têm sido esquecidas por muitos.

*

Após a derrota de 18 de Janeiro de 1934, redigi um relatório, de colaboração com Manuel Henriques Rijo, para ser enviado a Germinal de Sousa, então nosso correspondente em Madrid.

A cópia ficou em poder do Rijo, mas hoje lamento não ter guardado, também, uma para mim, porque era o documento mais exacto e completo desse acontecimento, não só por ter sido feito na ocasião, mas também porque o Rijo tinha sido um dos seus principais organizadores.

*

As despesas feitas com a preparação desse movimento foram bastante elevadas, mas só à custa da cotização voluntária dos trabalhadores.

Fui, com uma pequena interrupção, o tesoureiro da C.G.T. desde 1928 até ao final, e posso afirmar, sem risco de desmentido, que ela nunca recebeu subsídios de partidos políticos ou de governos nacionais ou estrangeiros, e que todos os seus fundos foram sempre provenientes de trabalhadores nacionais ou estrangeiros que os arrancaram com sacrifício dos seus parcos salários.

*

Talvez que se tenha horrorizado alguém ao ter conhecimento do material explosivo de que a C.G.T. dispunha nas vésperas do 18 de Janeiro de 1934. Mas esqueceu-se certamente que há sempre fábricas de armamento em laboração por todo o mundo produzindo armas potentíssimas, destinadas sobretudo a populações indefesas, constituídas na sua maioria por velhos, inválidos, mulheres e crianças. E tudo isto, para que as castas privilegiadas mantenham ou aumentem as suas fabulosas riquezas.

Mas, ao contrário, o armamento confederal destinava-se unicamente à defesa dos trabalhadores, cujas cadeias de escravo o fascismo pretendia ainda mais apertar – o que infelizmente conseguiu, para mal, não só dos trabalhadores cegetistas, mas para a população de todo o país, porque assim foi diminuída a resistência do principal reduto contra o fascismo.”

In jornal  “Voz Anarquista”, nº 11, Janeiro de 1976

*

(1) Anarquista, pertenceu ao Comité Confederal da CGT e esteve na organização do 18 de janeiro de 1934. Activo durante a ditadura de Salazar, esteve ligado ao reaparecimento de A Batalha e do jornal Voz Anarquista após o 25 de Abril de 1974. Apesar da longa militância nunca foi preso.

Conf. https://pt.wikipedia.org/wiki/Adriano_In%C3%A1cio_Botelho

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s