A invasão da Ucrânia: as intervenções anarquistas e as mudanças geopolíticas


Peter Gelderloos

15/3/2022

A atual guerra na Ucrânia é difícil de abordar e não apenas para aqueles de nós que têm lá amigos e companheiros, a lutar ou a tentar sobreviver, ou que já fugiram e agora se encontram sem casa, muitos deles pela segunda vez, como é o caso dos muitos refugiados que ali tinham procurado abrigo ao longo destes últimos anos.

Também é difícil saber como nos devemos posicionar, dado que este parece ser sobretudo um conflito com apenas dois lados, e ambos os lados – a NATO e a Rússia – têm estado sistematicamente envolvidas em casos de tortura, assassinato, repressão, exploração, racismo e ecocídio, seja internamente, seja por todo o mundo.

Contudo, como anarquistas, quando olhamos para o mundo ao nosso redor temos que estar conscientes das campanhas levadas a cabo pelos estados e pelas estruturas do capitalismo, mas também temos que criar sempre espaço nas nossas análises para as necessidades e para os actos de outras pessoas que estão à margem e contra essas forças.

Intervenções Anarquistas

Como costuma acontecer, muitos anarquistas na Ucrânia e nos países vizinhos estão centrados no fornecimento de  apoio – acumulando recursos e partilhando-os de forma empenhada – com pessoas que foram feridas e que ficaram sem abrigo, bem como ao milhão de refugiados que já resultaram da guerra.

Muitos anarquistas optaram também por lutar contra a invasão russa, embora isso exija algum nível de colaboração com as forças do governo ucraniano. É significativo, porém, que muitos daqueles que estão a combater são russos que já tinham fugido do seu país quando o regime de Putin se tornou mais totalitário.

As experiências revolucionárias da Makhnovschina e da revolução mexicana de há cem anos até ao Curdistão de hoje mostraram-nos que os Estados não nos deixam qualquer margem de manobra nos seus conflitos. É do interesse deles que os seus antagonismos decorram sempre entre versões estatistas apenas ligeiramente diferentes. Já que há muito tempo não existe um grande território para defender sem a presença de um Estado, a postura anarquista tem que ser a de criar o nosso próprio espaço sempre que lutemos ao lado de forças estatais que nos proporcionam uma aliança contra outras forças estatais que nos aniquilariam num instante caso estivéssemos sozinhos. A lição histórica parece ser que, nessas situações, será preciso manter o máximo de autonomia possível, pensar continuamente num horizonte revolucionário e transformador e não depositar nenhuma confiança ingénua na decência dos nossos aliados estatais. Também aprendemos que as revoluções, subordinadas às necessidades da guerra pura, murcham e morrem, mas às vezes, por mera sobrevivência, as pessoas precisam-se envolver na guerra e dar um passo atrás. Na Guerra Civil Espanhola, mesmo alguns individualistas assumidos aceitaram pactuar com as imperfeições da realidade em vez de fugirem para manterem as suas bolhas de pureza.

Essa pode ser uma decisão difícil de tomar já que, em todos os outros momentos, a nossa posição de não fazer alianças com partidos políticos ou outras estruturas governamentais mostrou-se correta. Até onde sei, o falso pragmatismo que justificaria tais alianças – com uma nova lei em vigor, com um novo governo no poder os nossos movimentos revolucionários ficarão mais fortes – nunca se confirma.

Mas também vimos que quando um grande conflito social irrompe, precisamos encontrar uma posição radical no seu seio, mesmo e especialmente quando o enquadramento dominante desse conflito não deixa espaço para posicionamentos anarquistas. Tomar a decisão de ficar parado, como a solução anarquista adequada, facilita quase sempre os centristas ou a extrema direita a assumirem esses tais conflitos.

A guerra proporciona saúde ao estado e a guerra é onde as revoluções morrem, mas ignorá-las não é uma opção, pois ameaçam a nossa sobrevivência individual e coletiva, destroem movimentos sociais e esmagam infraestruturas comunitárias. Em situações de guerra, os anarquistas não têm respostas fáceis: devemos equilibrar as necessidades conflituantes de sobrevivência de curto prazo e um horizonte revolucionário; considerar as lições dos antagonismos de sempre, possibilitando abrir espaços para perspetivas anarquistas; nunca confiar no Estado e ter presente a impossibilidade de agir a partir de posicionamentos de pureza e isolamento.

Sugiro outra lição. Não fizemos um trabalho adequado de análise das falhas dos movimentos anarquistas ao longo do século XX. É vital lembrar os nossos mortos, mas muitas vezes isso traduziu-se na romantização de um desejo coletivo de morte. Precisamos reconhecer como a morte dos nossos coletivos provocou uma grave interrupção na continuidade de nossa luta. Essa perda de memória e a resultante entre gerações fez-nos retroceder. A lição é que precisamos na realidade de dar mais valor à sobrevivência.

Vencedores e perdedores

Quem mais perde em qualquer guerra são as pessoas e o território e todos aqueles que são oprimidos de uma forma ou de outra são os mais vulneráveis à violência desencadeada. Não importa quem ganhe ou perca, a bravura de lutar para defender o coletivo deve ser celebrada, mas a guerra em si não o deve ser.

Pelo contrário, devemos condenar a guerra e os seus instigadores, ao mesmo que tentamos compreender as particularidades de cada guerra. Como o resultado deste conflito afetará a geopolítica em curso, moldando as guerras que aí vêm, quais os ângulos?

Considero que, quer um governo democrático e virado para o Ocidente na Ucrânia sobreviva ou não a esta guerra, já podemos dizer com um grau razoável de certeza que, entre os Estados, perdedores, estarão os Estados Unidos e a Rússia, e os vencedores serão a China, a Índia, a Arábia Saudita e outros estados intermédios. E entre as empresas capitalistas, além da observação óbvia de que as empresas de armas farão um morticínio, podemos destacar as empresas de energia – tanto de combustível fóssil quanto renovável – como as grandes vencedoras.

A Rússia perderá qualquer prestígio que ainda tenha enquanto superpotência, e quase toda a sua influência regional, se não derrubar o governo ucraniano, mas se conseguir tomar Odessa e com ela toda a costa ucraniana, terá adquirido um significativo prémio de consolação. Mas mesmo que a Rússia vença na Ucrânia, terá acelerado a expansão da NATO ao longo das suas fronteiras e isolando-se da maioria dos outros estados e organismos internacionais. Também acelerará o declínio da sua principal alavanca econômica no cenário mundial, a sua produção de combustíveis fósseis, perdendo apenas para a dos EUA, mas constituindo uma parcela muito maior de seu PIB (mais de 50%, na verdade, o que significa que a Rússia não tem economia sem exportação de combustível).

As sanções económicas impostas pelas instituições ocidentais não deixarão o governo russo de joelhos. Conforme detalhado aqui, eles não atingiram esse objetivo no Irão, e a Rússia está muito melhor isolada contra tais sanções. Mas elas servem para limitar as possíveis alianças globais e o crescimento da Rússia, e podem até encorajar alguns oligarcas russos a imaginarem um governo sem Putin.

O cancelamento do gasoduto Nord Stream 2, que deveria trazer mais gás russo para a Alemanha e o mercado europeu, é uma perda muito maior do aquela que um governo amigo na Ucrânia poderia compensar. O meu único palpite é que Putin cometeu esse erro de cálculo porque ficou assustado com a recente revolta no Cazaquistão, outro país que Moscovo vê como um seu quintal. Como homem de Estado e, além disso, com a experiência adquirida em serviços de inteligência, Putin é propenso à visão paranóica e irreal dos líderes governamentais em todo o mundo, de que as pessoas não são suficientemente inteligentes para se revoltarem por conta própria e só o fazem como marionetes. Provavelmente interpretou mal a revolta no Cazaquistão como uma interferência ocidental, um último passo para o desmantelamento do Império Russo, criado pelos czares em séculos de guerra sangrenta contra centenas de povos autóctones, expandido pelo capitalismo de estado da URSS e herdado em forma reduzida. por Putin, que é um tradicionalista explícito.

A razão pela qual o governo dos EUA estará entre os perdedores é mais subtil, mas extremamente importante. Porém, primeiro, devemos ver o que os EUA ganharam. Os EUA posicionaram-se neste conflito com um risco direto relativamente pequeno, no qual está quase garantido que desempenha o papel de “bonzinho”. Por outro lado, este é um conflito que aumenta drasticamente a unidade europeia, revivendo o euro-nacionalismo e afastando a Alemanha e a França da sua amizade com a Rússia. Do ponto de vista da NATO, isso só pode ser uma coisa boa. Além disso, os EUA aumentaram a sua credibilidade, muito prejudicada após os anos de Bush e Trump.

Uma semana antes da invasão, eu estava seguro de que a Rússia não atacaria a Ucrânia, quase apenas porque o governo dos EUA afirmavam que isso ia acontecer. Os relatórios diários citando funcionários dos serviços secretos anónimos pareciam copiados da cartilha usada para ser preparada a invasão do Iraque em 2003. Aconteceu, porém, que o governo dos EUA têm várias cartilhas, e desta vez eles estavam a dizer a verdade. Fazendo um uso menos típico da guerra de informação, o governo dos EUA parece ter estado a facultar informações precisas provenientes das comunicações dos escalões mais elevados do governo russo para assustar Moscovo relativamente à quantidade de dados que possuíam

Essa previsão defeituosa foi um grande erro de minha parte, porque constituiu um retrocesso para um posição crítica liberal ao governo. Como anarquistas, não nos opomos aos governos porque eles mentem, opomo-nos a eles porque a sua própria existência é um ataque a todos nós, e se eles mentem ou dizem a verdade, é apenas baseado num cálculo dos seus interesses para manter o poder sobre todos os outros.

Por isso, por enquanto, os EUA podem ser o rapazinho do poster da honestidade, da decência e da paz; uma grande mudança da sua imagem nos media que não acontecia desde o fim dos dias de Clinton.

No entanto, a nova imagem da marca tão manchada do governo dos EUA, em termos geopolíticos, não pode fazer nada para reverter o resultado mais importante desta guerra. Ou seja, a aceleração da emergência de um mundo multipolar em que nenhum estado tem hegemonia. Por causa da sua necessidade de ainda utilizarem a energia russa e pagarem  por essas transações, e conscientes da sua própria vulnerabilidade potencial a sanções, países como a China e a Índia estão a desenvolver rapidamente alternativas ao sistema SWIFT europeu para transações bancárias e aos mercados de ações e commodities que usam o dólar como moeda comum.

Mesmo que a Rússia perca esta guerra ou se torne um pária total, os EUA estão a perder rapidamente a sua posição como superpotência mundial. Isso acontece em grande parte porque a hegemonia dos EUA nunca se baseou unicamente no seu poder militar, embora esse fosse um ingrediente necessário. Mas o poder militar bruto dos EUA só foi suficiente para manter governos aliados/ocupados na Europa Ocidental e na América Latina. A projeção da força de Washington fracassou em todos os outros lugares do mundo, como ficou demonstrado na China, Coreia, Vietname, Zimbabwe, Afeganistão…

É verdade que quase toda a atividade econômica mundial, mesmo nos chamados países socialistas, depende direta ou indiretamente da sua moeda e das suas instituições financeiras, o que fez dos EUA o país mais poderoso do mundo. E essa realidade está a chegar ao fim. Já estava a acabar, como apontei em Diagnostic of the Future, mas todas as sanções em torno da guerra que está em marcha estão a acelerar as coisas em vez de retardá-las. Os EUA estão a usar as suas armas económicas mais potentes em num momento em que vivem uma situação de tensão diplomática com muitas das potências de nível intermediário, à escala mundial, levando esses governos a criarem defesas eficazes, mesmo quando a maior parte da atividade econômica mundial sai dos países do NAFTA e da UE.

Quanto aos vencedores do lado dos capitalistas, esta guerra veio-nos lembrar tragicamente que a energia renovável e a energia de origem fóssil não se opõem de forma alguma; pelo contrário, elas sempre cresceram juntas e o que é bom para uma tende a ser bom para a outra.

Neste caso, a Europa está a ser forçada a perceber o quão perigosa é a sua forte dependência do gás russo. Metade do gás da Europa vem da Rússia, e entre um quinto e um quarto da geração total de eletricidade da Europa vem do gás, havendo muitas casas também a aquecerem-se e a usarem fogões a gás.

A resposta dos governos europeus tem sido acelerar simultaneamente a mudança para as energias renováveis, com uma redução de 40% no uso de combustíveis fósseis até 2030, ao mesmo tempo que aumenta a importação de gás a ser armazenado antes do próximo inverno e pressiona para que haja novos gasodutos para trazerem gás não russo para a Europa. Esses novos oleodutos provavelmente transportariam gás do norte da África através de Espanha. Aliás, os militares russos, através do Grupo Wagner, estão envolvidos em várias guerras sangrentas no norte da África, assim como a França, um dos antigos países colonizadores da região.

E embora os EUA continuem a ser o produtor de petróleo número um do mundo e não dependam da produção russa, dependem de uma economia mundial que está dependente de combustíveis baratos e pode entrar em parafuso com um aumento repentino nos preços. Ainda temos que ver se a guerra na Ucrânia terá algum efeito no aumento do impulso pró energias renováveis, dado o atraso dos EUA em políticas e em infraestrutura para este efeito, mas já vimos como Washington está a pressionar a OPEP para aumentar a produção de petróleo.

Fronteiras e refugiados

Uma das áreas mais importantes para a ação anarquista – e um local de muita organização desde o início – é em torno do problema das fronteiras e dos refugiados. A invasão russa produziu um milhão de refugiados apenas numa semana (hoje. 21/3. já são mais de 3 milhões. NdT.) e esse número continua a crescer. São pessoas que precisam de ter onde morar, cuidados de saúde, recursos ou empregos, carinho e apoio. Esse apoio os anarquistas não perderam tempo em ajudar a organizar, desde a Polônia a Espanha.

Também juntamos as nossas vozes à raiva sobre a hipocrisia da supremacia branca que discrimina como os refugiados ucranianos brancos são recebidos comparativamente com os refugiados da Síria, Iraque, Afeganistão e norte da África, bem como a forma como as pessoas racializadas que fogem da Ucrânia são tratadas.

Podemos, talvez, direcionar essa raiva de uma maneira mais eficaz. Podemos mostrar como a grande mídia e os partidos políticos que se vendem como progressistas também são responsáveis por reforçar a dinâmica colonial no coração do capitalismo, e podemos pressionar as ONGs e outras instituições que se consideram parte da esquerda para acabar com o seu duplo padrão racista e dedicar mais recursos às crises de refugiados que estão a acontecer noutras partes do mundo. Projetos anarquistas que criam segurança, autonomia e moradia para e por migrantes continuarão a ser postos em prática da Grécia à Holanda. Mas se pudermos intervir para levar alguns esquerdistas com acesso a muito mais recursos a partilhá-los uniformemente, e não apenas com refugiados brancos, isso fará em muitas vidas uma enorme diferença e limitará a maneira como a direita e o centro estão a incentivar o nacionalismo neste conflito e a utilizar a xenofobia como resposta aos refugiados racializados.

Outra coisa que podemos fazer na situação atual é perceber novamente como as relações diretas são importantes para a solidariedade internacional entre os anarquistas. Na altura, os anarquistas, pelo menos nalgumas zonas ,mobilizaram-se fortemente pelo Curdistão, Hong Kong, Chile, Chiapas ou Oaxaca como pela Ucrânia, embora a mídia tenha ficado em grande parte silenciosa em relação a muitas das guerras anteriores e a situações de repressão. A força  da nossa mobilização felizmente não assenta em padrões racistas, mas em relações globais que se estabelecem devido, sobretudo, a padrões globais de migração e de viagens solidárias que levam a relações pessoais que se alargam além das fronteiras.

Precisamos ser mais estratégicos na construção e partilha das relações internacionais para aumentar o fluxo de informações e apoio com outras áreas do globo que estão a enfrentar guerras ou situações repressivas. Por exemplo, a solidariedade e até mesmo informações credíveis sobre as guerras em curso no Sudão e na Etiópia são muito menos difundidas.

Para saber mais sobre solidariedade internacional, confira:

Tankies Gonna Tank (Os Tankies* estão com os tanques)

Infelizmente, temos que dedicar algum tempo às terríveis tomadas de posição dos esquerdistas autoritários, que mais uma vez acharam por bem aplaudir os tanques enviados por Moscovo, como fizeram em 1956 e novamente em 1968. A única razão pela qual ainda são relevantes é porque fornecem uma estrutura simplista e maniqueísta que é totalmente compatível com a política estatista. Compatível no sentido de nada subversivo.

Comecemos, então,  com alguns factos que devemos ser capazes de discutir sem cair numa visão de mundo dualista e entorpecedora. Do ponto de vista do governo de Moscovo a invasão da Ucrânia é um acto de autodefesa. Desde os anos 90, a Rússia tem sido cada vez mais cercada por bases da NATO, sendo a NATO uma aliança militar fundada especificamente para se opor ao poder russo. Em 2014, um governo pró-Rússia foi tirado do poder por um movimento popular na Ucrânia e substituído por um governo pró-Ocidente, e apenas há alguns meses outro levantamento popular quase fez o mesmo no Cazaquistão, um dos poucos países ainda mais ou menos na órbita da Rússia.

Quando se é governo, não se acredita na legitimidade dos movimentos populares. Ou são coisas sem graça para fins eleitorais ou formas de expressão irrelevantes e irritantes que ficam fora dos canais do governo. Se isto se passa numa democracia, serve apenas para provar que os cidadãos são livres, desde que não tentem fazer alguma coisa, e se não é uma democracia, são formas pequenas de traição. Quando os protestos cruzam a linha da ação direta, tornam-se casos de índole criminosa que precisam ser reprimidos. Nesses casos, provavelmente são atos de guerra híbrida orquestrados pelos seus inimigos, porque ,se se trata dum governo, a sua existência baseia-se na crença de que as pessoas são incapazes de se organizarem.

Deste modo, algumas das informações sobre as quais a Rússia está a basear-se são factos (as bases da NATO) e outras são paranóia (países estrangeiros são os arquitetos de todos os movimentos de protesto desde 2011), mas mesmo assim, o governo russo diz estar a agir para se defender.

Contudo, o que os militaristas e os estalinistas não entendem é que se obtém exatamente os mesmos resultados se olhar na perspectiva de qualquer outro estado. Todos os estados estão a agir de acordo com os seus próprios interesses. O governo ucraniano também está claramente a agir em autodefesa quando tenta aproximar-se do Ocidente porque, inegavelmente, do Afeganistão à Chechênia, o poder russo representa uma ameaça para os seus vizinhos. Pelas mesmas razões, a Polónia e a Lituânia e todos os outros países estavam a agir em legítima defesa quando pediram para ingressar na NATO. Até os EUA estão a agir em legítima defesa quando tentam livrar-se de Putin porque Putin é hostil aos EUA e possui um arsenal nuclear capaz de varrer os EUA do mapa.

Esse é um dos problemas dos estados. Inevitavelmente provocam guerras e conflitos porque os seus interesses próprios são mutuamente exclusivos com os de outros estados. Pensam que se estão a defender quando, na realidade, estão todos presos a uma dinâmica que os obriga a tentar conquistar o mundo, subordinar-se a outro estado com mais chances de conquistar o mundo ou entrar em colapso. É por isso que não damos nenhuma importância ao interesse próprio de cada Estado e, em vez disso, procuramos destrui-los todos eles. As instituições não devem ter um direito à existência que supere (e atropele) as necessidades de sobrevivência das pessoas e do planeta.

Deste modo,  os estalinistas agitam a bandeira dos interesses legítimos da Rússia enquanto ignoram os interesses de outros estados. Eles falam sobre o imperialismo dos EUA, mas ignoram o imperialismo russo. Na verdade, os estalinistas e a extrema-direita muitas vezes chegam a uma análise semelhante, porque o estalinismo é uma ideologia de direita. Stalin explicitamente vinculou a expansão da URSS ao império russo. Os discursos sobre “a Pátria” era tão prevalecentes na Rússia após a Segunda Guerra Mundial (e prevalece novamente hoje) quanto na Alemanha durante os anos 30. Sob os czares, sob a União Soviética e sob Putin, a Rússia tem sido um império racista assente no genocídio e nos territórios de centenas de povos não-brancos e indígenas massacrados. (Confira este artigo: https://thenewinquiry.com/blog/a-very-long-winter/). Em grande parte do seu território, a Rússia pode ser descrita com rigor como um estado colonial. Tirando os barcos, os brancos vivem em Irkutsk e Vladivostok da mesma forma que os brancos vivem em Des Moines e São Francisco.

Dizem-nos que a Rússia não é imperialista porque ainda não atingiu esse nível de acumulação de capital; os EUA são o maior país imperialista e, portanto, o único imperialista , logo devemos ficar ao lado da Rússia contra os EUA (aqui a Ucrânia e os seus habitantes desaparecem da análise como meros fantoches). Essa análise, tão simplista que chega a ser um insulto, é uma simplificação grosseira do marxismo-leninismo, ele próprio uma simplificação grosseira de Marx, e mais ainda, baseada numa das partes do marxismo que é uma falsificação e, em retrospectiva, falsa: as previsões sobre o avanço progressivo da acumulação de capital levaria ao socialismo mundial.

É um referencial teórico sem validade. Servem apenas como uma espécie de sistema de cartões de memória para dizer às pessoas, que não querem pensar sobre o mundo em que vivem, qual o lado que devem apoiar no caso de conflitos complexos demais para se envolverem. (As pessoas sabem o que são cartões flash? É uma ferramenta de estudo com as perguntas de um lado e as respostas do outro. Cartões não virtuais que existem em três dimensões. Não importa, esqueça.)

Talvez o melhor argumento contra essa análise dos tankies seja que eles próprios não a usam em situações em que o poderiam fazer. Quando a URSS tentou dominar o Partido Comunista Chinês durante a revolução naquele país, Mao rejeitou o imperialismo soviético e aliou-se aos Estados Unidos. Ops! Ao combater a ocupação francesa e norte-americana do Vietname, no meio da intensa violência imperialista que matou milhões, Ho Chi Minh disse que o imperialismo chinês era, a longo prazo, um perigo maior para a região do que o imperialismo norte-americano. Da mesma forma, os comunistas vietnamitas agiram de maneira colonial ou imperialista quando suprimiram os hmong ou apoiaram a monarquia cambojana contra os comunistas cambojanos.

Então, honestamente, que diabo esses tankies estão a tentar enganar?

Posso pensar num argumento ainda melhor contra esses autoritários que afirmam ser socialistas, comunistas ou anti-imperialistas, mas que na prática são apenas gente de direita apoiar a velha dinâmica colonial de sempre. Autores e académicos famosos que constroem as suas carreiras em movimentos indígenas que combatem a violência nos EUA e Canadá ajudam a silenciar as centenas de povos indígenas e racializados continuamente brutalizados pelo estado russo. Autoritários que afirmam que se preocupam com as vítimas das guerras dos EUA no Iraque ou no Afeganistão não se importam com as pessoas que sofrem agora sob as bombas russas. De facto, a questão do “que devem fazer agora as pessoas da Ucrânia que foram apanhadas pela guerra?” não aparece sequer nas suas análises. Só porque a Rússia é um país imperialista de nível um pouco mais baixo do que os EUA, as vítimas de guerra ucranianas devem desaparecer da nossa vista.

As pessoas que usam esse tipo de análise violam mais mínimos padrões de solidariedade e decência, e dirão qualquer coisa para justificar os seus preconceitos.

Em oposição, tanto aos que justificam o imperialismo russo como aos que o condenam vigorosamente, mas nada dizem sobre as guerras da NATO, eu tiraria o pó ao velho slogan, não à guerra, mas sim à guerra de classes,  e modificava-o para: não à guerra, mas sim à guerra contra o Estado, entendendo o Estado em todas as suas dimensões: capitalista, colonial, supremacista branco, patriarcal e ecocida.

(*) Saudosistas da antiga União Soviética; diz-se de membros de partidos marxistas-leninistas (NdT).

Publicado originalmente aqui: https://itsgoingdown.org/the-invasion-of-ukraine-anarchist-interventions-and-geopolitical-changes/

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