Month: Abril 2022

Convocatória da União Libertária para o 1º de Maio em Lisboa e no Porto


A União Libertária apela à criação de um Bloco Libertário nas manifestações do 1º de maio em Lisboa e no Porto convocadas pela CGTP.

“Queremos convidar-vos para se juntarem a nós na manifestação do dia 1 DE MAIO, dia do trabalhador. Esta manifestação é, tal como a do 25 de Abril, normalmente comandada pela CGTP e, portanto, enquanto União Libertária pretendemos marcar presença, quebrando a hegemonia partidária que se faz sentir, em conjunto com todos/as ativistas e coletivos libertários e anarquistas que se queiram juntar a nós.

Queremos criar um bloco libertário/anarquista, tendo em conta as conquistas laborais, mas também a derrota que representa a dependência desta ferramenta estatal e capital que é o trabalho.

Em LISBOA, estaremos às 14h30 na manifestação do Martim Moniz até a Alameda e no PORTO estaremos na Avenida dos Aliados às 15H.

Esperemos poder contar com vocês.

Saudações Libertárias,

União Libertária”

DOSSIER DE TEXTOS PUBLICADOS NO PORTAL ANARQUISTA SOBRE A INVASÃO DA UCRÂNIA PELA RÚSSIA ENTRE 21/3 E 23/4


(DONETSK) A VIDA NA REPÚBLICA QUASE-MONÁRQUICA: UMA ENTREVISTA COM UM ANARQUISTA DE GORLOVKA https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2022/03/23/donetsk-a-vida-na-republica-quase-monarquica-uma-entrevista-com-um-anarquista-de-gorlovka/

(CRIFA) CONTRA A GUERRA, PELA SOLIDARIEDADE MUNDIAL https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2022/03/25/crifa-contra-a-guerra-pela-solidariedade-mundial/

(RÚSSIA) ESTUDANTES CONTRA A GUERRA: REITORES, RETIREM A VOSSA ASSINATURA! https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2022/03/26/russia-estudantes-contra-a-guerra-reitores-retirem-a-vossa-assinatura/

TEXTO DE UM ANARQUISTA BIELORRUSSO NA FRENTE DE COMBATE https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2022/03/27/texto-de-um-anarquista-bielorrusso-na-frente-de-combate%ef%bf%bc/

UM ARTIGO PARA COMPREENDER A IDEOLOGIA IMPERIALISTA DAS ELITES RUSSAS – “O QUE A RÚSSIA DEVE FAZER COM A UCRÂNIA” https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2022/04/06/um-artigo-para-compreender-a-ideologia-imperialista-das-elites-russas-o-que-a-russia-deve-fazer-com-a-ucrania/

A UCRÂNIA COMO CENÁRIO DE FORMAÇÃO, CONFRONTO E REARMAMENTO DA EXTREMA-DIREITA https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2022/04/06/a-ucrania-como-cenario-de-formacao-confronto-e-rearmamento-da-extrema-direita/

(RÚSSIA) A VIOLÊNCIA É A NORMA https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2022/04/07/russia-a-violencia-e-a-norma/

[UCRÂNIA] ANARQUISTAS UCRANIANOS PARTICIPAM NO SOCORRO À POPULAÇÃO MASSACRADA DOS SUBÚRBIOS DE KIEV https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2022/04/13/ucrania-anarquistas-ucranianos-participam-no-socorro-a-populacao-massacrada-dos-suburbios-de-kiev/

A GUERRA, O CINISMO E A COBARDIA https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2022/04/13/a-guerra-o-cinismo-e-a-cobardia/

SOBRE AS RESPOSTAS LIBERTÁRIAS À GUERRA https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2022/04/14/sobre-as-respostas-libertarias-a-guerra/

(RÚSSIA) PROFESSORA UNIVERSITÁRIA E ANARQUISTA MARIA RACHMANINOVA DENUNCIADA POR FALAR DA GUERRA CONTRA A UCRÂNIA https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2022/04/16/russia-professora-universitaria-e-anarquista-maria-rachmaninova-denunciada-por-falar-da-guerra-contra-a-ucrania/

(CARLOS TAIBO) NO FUNDO https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2022/04/19/carlos-taibo-no-fundo/

(SOFIA) ANARQUISTAS BÚLGAROS ORGANIZAM CONFERÊNCIA PELA PAZ NO 1º DE MAIO https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2022/04/19/anarquistas-bulgaros-organizam-conferencia-pela-paz-no-1o-de-maio/

À MARGEM DE UMA DECLARAÇÃO: FEDERAÇÃO ANARQUISTA CHECA SOBRE A GUERRA NA UCRÂNIA https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2022/04/21/a-margem-de-uma-declaracao-federacao-anarquista-tcheca-sobre-a-guerra-na-ucrania/

[UCRÂNIA] PERGUNTAS FREQUENTES SOBRE AS UNIDADES DE DEFESA ANTIAUTORITÁRIAS https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2022/04/22/ucrania-perguntas-frequentes-sobre-as-unidades-de-defesa-antiautoritarias/

FRENTE ANARQUISTA CONTRA PUTIN NA RÚSSIA E NA UCRÂNIA https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2022/04/23/frente-anarquista-contra-putin-na-russia-e-na-ucrania/

(DOSSIER DE TEXTOS PUBLICADOS NO PORTAL ANARQUISTA SOBRE A INVASÃO RUSSA DA UCRÂNIA ENTRE 20/2 E 21/3 https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2022/03/21/dossier-de-textos-publicados-no-portal-anarquista-sobre-a-invasao-russa-da-ucrania-entre-20-2-e-21-3/

Frente anarquista contra Putin na Rússia e na Ucrânia


A milícia de combate do Black Headquarter, que luta na Ucrânia desde 2014 / Arquivo

Nacho Ibanez *

A formação de milícias anarquistas que combatem na Ucrânia contra a invasão russa continua a surpreender os libertários em todo mundo. Organizados em pequenos grupos autónomos, realizam recolhas de materiais e de alimentos e campanhas de apoio aos refugiados, mas também ações diretas de combate. Grupos como Black Headquarters, Rev Día ou Black Flag estão envolvidos no conflito desde 2014, seja sob o guarda-chuva das Unidades de Defesa Territorial compostas pela população civil, seja incorporados sob o comando único do exército ucraniano.

Muitos dos que participam nestas milícias  são russos que vivem na Ucrânia há vários anos, fugindo da repressão na Rússia, ou outros recém-chegados que acreditam na necessidade de parar o imperialismo de Putin. A propaganda russa durante anos justificou a guerra no Donbass como uma luta antifascista contra um governo apoiado por neonazis, mas se sim isso é assim, porque que é que a grande maioria do movimento anarquista se posiciona contra esta guerra?

Acusações de terrorismo

A primeira razão tem a ver com a própria Rússia que, nos últimos anos, país se tornou um pesadelo para os movimentos sociais. B. Traven, membro da rede internacional de informação CrimethInc , com quem pudemos falar, garante que “a repressão estatal praticamente eliminou todas as formas de organização que não sigam a linha de Putin, e embora ainda existam organizações comunistas e fascistas, elas tacitamente acordaram em não criticar o governo”.

No contexto repressivo da Rússia, os anarquistas têm estado no centro da repressão. Em 2017, o governo russo alegou ter desmantelado uma suposta organização conhecida como “A Rede”, que, segundo o Serviço Federal Russo, planeava organizar ataques durante as eleições de 2018 e a Taça do Mundo de futebol, com o objetivo de “provocar uma insurreição armada e despertar as massas para uma maior desestabilização política do país”. Sete jovens ativistas antifascistas foram considerados culpados de terrorismo pelos tribunais russos com penas até dezoito anos de prisão, num caso que despertou a solidariedade internacional quando se soube que o acusado havia sido torturado com práticas como as da eletrificação dos órgãos genitais . Segundo o Ministério Público, os acusados utilizavam jogos de airsoft como forma de treino, sem dar quaisquer detalhes concretos sobre os ataques que supostamente planeavam.

Para Dmitry, ativista russo do site Antijob.net que se dedica a elaborar uma “lista negra de patrões exploradores”, este caso foi um ponto de viragem para o movimento. Segundo este ativista, o movimento anarquista era até então “uma série de projetos separados, e na maioria dos casos não ligados uns aos outros”, limitados a alguns meios de comunicação e a grupos locais. “Não havia coordenação, e agora eles estão a procurar-nos por todos os lados.”

Enquanto isso, a ofensiva russa contra o movimento aumentou em todo o país e, todos os anos,  dezenas de anarquistas foram presos sob acusações infundadas de planear ataques. Além disso, em muitos dos casos, os réus alegam ter sido torturados. Num dos casos mais paradigmáticos, três adolescentes siberianos foram presos por planearem um ataque a um prédio federal no videogame Minecraft. Eles são acusados ​​de terrorismo, quando, na época dos factos, tinham apenas 14 anos.

O quadro repressivo delineado pelas forças de segurança russas dificultou muito o trabalho dos grupos antiautoritários e conseguiu “a paralisia de sua atividade pública, já que todas as tentativas de coordenação eram conhecidas antecipadamente” pelos serviços secretos. “Há muito medo”, diz Dmitry, porque as acusações por qualquer denúncia relacionada com a atividade anarquista faz com que enfrentem “penas potencialmente muito longas”.

Nesse contexto, são muitos os anarquistas que decidem fugir do país. A Ucrânia é apresentada como o único país na região que não é governado por regimes ditatoriais próximos de  Putin, e onde sua nacionalidade permite que se estabeleçam. “Não poder contar com a possibilidade de residência na UE, coloca-os entre a espada e a parde. É por isso que alguns decidiram lutar com os anarquistas ucranianos contra o militarismo russo. Eles sentem que não têm escolha e sabem por experiência própria que a extensão da influência de Putin e a sua vitória na guerra acabarão com a existência dos movimentos sociais”, afirma B. Traven.

A falácia antifascista

“Ficar à margem significa ser cúmplice dos massacres.” A outra razão partilhada por aqueles que lutam na Ucrânia é que em nenhum caso se trata de defender um Estado, mas sim de defender a sua população. Os anarquistas sabem, com toda a certeza, que uma ocupação russa da Ucrânia levará ao estabelecimento de um regime ditatorial e fortemente repressivo, num país que é governado desde a sua independência por governos populistas e oligárquicos, mas onde ainda são preservadas certas liberdades que não existem na Rússia. Nesse sentido, muitos anarquistas apelam para as palavras de Bakunin, que considerava que “a República mais imperfeita vale mil vezes mais que a Monarquia mais esclarecida”.

Para os anarquistas russos, o argumento de “desnazificar” a Ucrânia é apenas um pretexto para a política imperialista de Putin, pois embora o Estado ucraniano tenha utilizado milícias abertamente neonazis, os partidos fascistas só conseguiram 1,62% dos votos nas últimas eleições. De acordo com a sua análise, pode-se considerar que, apesar da ideologia nacional-socialista estar muito presente na política e no exército ucraniano, em nenhum caso podemos identificar a sua população como tal. A Revolução Maidan, ofuscada e capitalizada por setores de extrema direita, pode ser considerada uma genuína revolta popular contra o “establishment”, na qual participaram dezenas de anarquistas. Além disso, na guerra no Donbass, milícias fascistas como o Movimento Imperial Russo ou a Unidade Nacional Russa combateram ao lado das repúblicas, convertendo a retórica da luta “antifascista” numa falácia .

Um jovem anarquista durante a revolta de Maidan em 2014 | Arquivo

Mesmo assim, a participação de grupos neonazis dentro do exército ucraniano ainda é algo que continua a preocupar o movimento anarquista. Mas, precisamente por isso, não consideram razoável manterem-se à margem da guerra considerando-a um conflito entre Estados ou um confronto entre dois lados igualmente fascistas. O facto de estarem presentes é apresentado como uma oportunidade para contrariar a exaltação nacionalista e tornarem-se uma alternativa visível para a população. Além disso, como aponta Dmitry, “criar uma milícia pode-nos dar uma experiência de ação decisiva diante de situações críticas futuras e capacidade de luta”, pois é possível que a vitória russa nos leve “para uma guerra de guerrilhas como o que vimos na Chechênia.”

Para os anarquistas, uma ocupação russa causará uma perda de liberdade generalizada, bem como um ponto sem retorno para as políticas expansionistas russas. Traban acredita que “a invasão criou um ambiente fértil para o nacionalismo e o militarismo não apenas na Rússia e na Ucrânia, mas também na Europa Ocidental, China ou Estados Unidos”. O patriotismo inerente à guerra só pode aumentar no caso de uma vitória russa, e a má situação económica será facilmente justificada como agressão “ocidental” por meio de sanções.

Protestos generalizados na Rússia

Por sua vez, uma vitória ucraniana não gera grande otimismo entre os anarquistas entrevistados, mas gera um certo sentimento de oportunidade. Dmitry acredita que inevitavelmente “colocará Zelensky num pedestal e levará a reformas que eram anteriormente impopulares, como a liberalização das leis laborais”. Além disso, considera que “a assistência prestada pelo Ocidente não será gratuita, e o mais provável é que inclua requisitos como a abertura do mercado ou uma maior liberalização da economia, como vimos noutros casos .”

Em vez disso, é importante notar que uma vitória ucraniana só é possível graças à auto-organização popular e à ajuda mútua, abrindo uma oportunidade para a construção da democracia de base. Ao mesmo tempo, a derrota russa, a nivel interno, tornará mais difícil justificar as dificuldades da população e as mortes de soldados. Nesse cenário, é possível pensar que iremos ver um aumento dos protestos de rua, apesar de um levantamento popular generalizado ser visto como improvável. Muito provavelmente, levarão a um “golpe palaciano”, acredita Traven, enquanto Dmitry expressa as  suas dúvidas “de que os anarquistas sejam capazes de promover esse processo, mas é possível que setores de esquerda assumam a agenda estatal”.

Os protestos em massa são, para Traven, a melhor esperança “de que a guerra na Ucrânia não leve a uma grande erupção do nacionalismo, militarização e repressão estatal”. Ainda assim, aconteça o que acontecer, “os anarquistas estão perante um esforço muito grande para manterem em aberto uma visão de mudança social positiva baseada na solidariedade entre as pessoas de ambos os lados da fronteira”.

*https://directa.cat/front-anarquista-contra-putin-a-russia-i-ucraina/

[Ucrânia] Perguntas frequentes sobre as Unidades de Defesa Antiautoritárias


O Comité de Meios de Comunicação do Pelotão . 20 de abril de 2022

Olá! Preparámos algumas perguntas frequentes sobre quem são as pessoas do nosso pelotão: se somos anarquistas e o que fazemos. Está tudo aqui. Manteremos informados aqueles que acompanham as nossas atividades e que nos apoiam.

Vocês são anarquistas?

Aproximadamente metade identifica-se como anarquista. São pessoas de diferentes origens: alguns vêm de grupos revolucionários, outros de projetos culturais, educativos e sociais. Mas é errado dizer que todo o grupo é anarquista. É mais correto dizer que todos aderimos a visões antiautoritárias, que todos lutamos em conjunto contra o imperialismo russo e que todos valorizamos a democracia direta. Por isso, introduzimos um sistema de eleição de líderes usado pelos rebeldes curdos, as reuniões são realizadas em igualdade de condições, todos são livres para expressar as suas críticas, inclusive sobre o trabalho dos chefes. Também realizámos eleições democráticas para o comité dos meios de comunicação.

Quem está no pelotão e por que estão a lutar?

Inicialmente, juntaram-se ao pelotão pessoas de convicções antiautoritárias, anarquistas, vários socialistas, antifascistas e membros das claques de futebol.. De vez em quando recebemos novos recrutas. Na área onde estamos agora, habitantes locais juntaram-se a nós, e podemos dizer que não têm nenhuma orientação política declarada. Apenas partilham o desejo de lutar contra a agressão russa, são pessoas que querem estar na linha de frente. Contamos também com a participação de vários especialistas, com os quais aprendemos a experiência de combate.

Não há racistas ou homofóbicos entre nós. Também há várias raparigas no grupo, o que, na prática, apoia a nossa agenda feminista.

O desejo de resistir à agressão imperialista russa levou-nos a todos à guerra. Estamos aqui para derrotar os invasores e defender o povo ucraniano, a sua liberdade e a sua independência.

O que estão a fazer agora?

Estamos agora num período de treino, e também mantemos uma vigilância permanente. Antes, realizávamos tarefas operacionais na região, por exemplo: combatendo sabotadores, pára-quedistas, vigiávamos os pontos de acesso, montámos bloqueios de estradas, auxiliámos as unidades das Forças Armadas da Ucrânia em reconhecimento com quadricópteros e retirávamos pessoas que estavam debaixo de fogo.

Como é possível chegar até vocês?

Agora não estamos a recrutar porque neste momento a nossa região está calma Mas estamos prontos para participar em operações noutras regiões num futuro próximo: Nessa altura, muito provavelmente, haverá oportunidade de mais pessoas participarem.

Como posso contactar o Comité de Resistência?

O Comitê de Resistência é um canal do Telegram que se relaciona com uma pequena parte do nosso grupo, apesar das primeiras mensagens o identificarem com todo o pelotão. No entanto, o comité de meios de comunicação da nossa unidade teve acesso a ele recentemente, e podemos partilhar informações de tempos em tempos através dele.

Como posso apoiar-vos?

Num futuro próximo, devido a algumas dificuldades burocráticas, poderemos ter problemas com o abastecimento de alimentos e combustível. Para isso vamos precisar de mais fundos.

Também precisamos de dispositivos para visão noturna para nosso pelotão e alguns camaradas precisam de coletes de protecção.

Para angariar fundos, os nossos parceiros estão a realizar a campanha “Boa noite, orgulho imperial”. Você pode contatá-los nas redes sociais:

t.me/gnimperialpride

e pelo email : gnimperialpride_info@riseup.net.

aqui: https://telegra.ph/A-little-bit-about-our-platoon-04-20

À margem de uma declaração: Federação Anarquista Checa sobre a guerra na Ucrânia


A Internacional das Federações Anarquistas emitiu um comunicado sobre a guerra na Ucrânia, mas consideramo-lo insuficiente. O Comité de Relações da Internacional das Federações Anarquistas ( IFA ), que se reuniu de 19 a 20 de março, discutiu, entre outras coisas, questões relacionadas com a guerra em curso na Ucrânia. Apesar de em algumas questões as opiniões das federações diferirem, elas concordaram em continuar a discussão. Como resultado dos debates, foram encontradas posições comuns, que foram resumidas numa declaração de compromisso intitulada “Contra a guerra, pela solidariedade global”.

A Federação Anarquista Checa (AF) concordou com a declaração, pois expressa alguns princípios gerais que também são nossos, mas, no entanto, internamente está insatisfeita com ela e, portanto, junta-se a uma discussão mais aprofundada. Participamos numa discussão conjunta, fazendo uma exposição das nossas posições, uma referência às nossas atividades e pontos que consideramos essenciais. Mas este não é apenas um debate interno dentro da Internacional das Federações Anarquistas (IFA): as nossas considerações são dirigidas ao movimento antiautoritário mais amplo, em particular na Europa.

Aqui, sucintamente, estão os pontos a serem discutidos do ponto de vista da AF :

1 – Entendemos a declaração conjunta da IFA como um compromisso, mas que não reflete totalmente as nossas posições.

2 – Em primeiro lugar, somos a favor de ouvir a opinião de antiautoritários e anarquistas na Ucrânia, Rússia e Bielorrússia.

3 – Consideramos arrogante e demonstrativo da falta de empatia qualquer desrespeito pelas suas posições e decisões, e também uma expressão de uma superioridade ideológica, o que é inaceitável para nós. O bloco ocidental de países há muito que trata a Europa Oriental desta maneira. No movimento anarquista internacional não podemos tolerar nada semelhante.

4 – Apoiamos totalmente as atividades de combate e não combate de antiautoritários e anarquistas na Ucrânia. Conhecemos as suas posições e os seus dilemas. Respeitamos as suas decisões difíceis. Recusamo-nos a julgá-los ideologicamente, enquanto estamos em locais  seguros onde não há guerra.

5 – Reconhecemos que é do interesse da classe trabalhadora na Ucrânia, assim como na Rússia e na Bielorrússia, repelir a invasão russa da Ucrânia o mais rapidamente possível. A única maneira de parar esta guerra é uma derrota militar do exército russo. Atualmente, não há um movimento antimilitarista suficientemente forte na Rússia e na Bielorrússia para sabotar efetivamente a ofensiva e isso não vai mudar no futuro próximo.

6 – Consideramos vergonhosa a afirmação de que os dois lados da guerra na Ucrânia valem o mesmo. O regime de Putin é incomparavelmente mais brutal do que qualquer democracia capitalista, onde há pelo menos algumas possibilidades para o desenvolvimento de redes e relações antiautoritárias. Além disso, o exército russo não respeita absolutamente nenhuma convenção internacional de direitos humanos; pelo contrário, massacra sistematicamente a população civil para minar o moral dos defensores. Por isso, apoiar a luta armada contra os ocupantes é um dever de todos que não se querem desacreditar totalmente aos olhos dos trabalhadores ucranianos.

7- Não concordamos com a afirmação de que esta é uma guerra entre a Rússia e a NATO. Alguns países da NATO são pró-Rússia (Hungria) e a maioria dos países da NATO mantém algum distanciamento ou aderem a declarações e sanções limitadas para não prejudicarem as suas economias. O apoio real da NATO à Ucrânia é absolutamente miserável, indeciso e com álibis. Com esta abordagem, a NATO sacrificou na prática a Ucrânia, colocando todo o peso da invasão russa sobre a Ucrânia e o seu povo.

8 – Apoiamos ativamente os anarquistas vítimas da repressão na Rússia e na Bielorrússia.

9 – Lamentamos que a nível internacional antiautoritários e anarquistas não tenham uma posição mais clara e em conjunto possam desenvolver formas de apoio mais concretas aos anarquistas dos países afetados. Tememos que as declarações derrotistas desacreditem muitas organizações e coletivos aos olhos dos nossos amigos da Europa Oriental. É lamentável que qualquer falha de comunicação, menos flexível e empática, leve as organizações do Leste Europeu a trabalhar menos estreitamente com a IFA, e que isso, por sua vez, crie um círculo vicioso da crescente influência [na IFA] de federações não diretamente afetadas pelo conflito atual.

Claro que poderíamos continuar, mas consideramos que não é necessário. Queremos ouvir os outros com atenção e mostrar uma solidariedade efetiva em vez de slogans que, diante da realidade, parecem desprovidos de conteúdo. Queremos mostrar que as posições de antiautoritários e anarquistas fora dos centros imperiais da civilização ocidental têm peso e merecem respeito. Entendemos o anarquismo como um conjunto de princípios capazes de responder dinamicamente ao que está a acontecer ao nosso redor, e não como uma ideologia congelada que não tem ligação com a realidade. Defendemos, em primeiro lugar, pessoas e comunidades e não os nossos próprios egos presos em fronteiras ideológicas e culturais.

AF: Contra a invasão, mas sem hipocrisia (Declaração da Federação Anarquista Checa de 25 de fevereiro de 2022 sobre a invasão do exército russo na Ucrânia)

Federação Anarquista Checa

Também aqui: https://avtonom.org/news/na-polyah-odnogo-zayavleniya-cheshskaya-anarhistskaya-federaciya-o-voyne-v-ukraine

(Sofia) Anarquistas búlgaros organizam conferência pela paz no 1º de maio


Convite para participar

À medida que o mundo enfrenta uma nova guerra fria, ameaçando a qualquer momento tornar-se uma guerra “quente”, potencialmente nuclear, todos nós já vivemos com as suas consequências – económicas e políticas. A guerra na Ucrânia mudou o mundo de um dia para o outro. Para milhões de pessoas trouxe a morte, mutilação, desalojamento e migração forçada. Para centenas de milhões, trouxe inflação, pobreza e insegurança. Enquanto os trabalhadores de ambos os lados são forçados a pagar o preço do choque das forças imperialistas na Ucrânia, muitos trabalhadores estão divididos entre elogios ao nacionalismo ucraniano e aplausos pela invasão de Putin.

A tarefa diante de todos nós é compreender a natureza desta guerra, definir as suas dimensões económicas e políticas e tentar definir uma posição antimilitarista firme e consistente. Uma posição que nos permita colocar as nossas análises e as nossas lutas no caminho da oposição intransigente à guerra e da luta pela liberdade e pela igualdade dos povos de ambos os lados e da classe trabalhadora como um todo.

Para dar um passo nessa direção, convidamo-lo para uma conferência antimilitarista em Sofia no dia 1º de maio .

O programa

  1. Breve apresentação das organizações participantes na conferência
  2. Painel de discussão:
    1. Derrotismo revolucionário (quais são os seus fundamentos teóricos e a sua expressão prática no passado? É possível assumir uma posição semelhante hoje e como seria no contexto atual?)
    2. Que impacto tem a guerra sobre os trabalhadores? (inflação, mobilização, migração em massa, sanções, militarização da UE)
    3. Movimento anti-guerra (movimentos anti-guerra bem-sucedidos na história. Ações anti-guerra atuais contra a guerra na Ucrânia em todo o mundo. É possível na Bulgária organizar um movimento anti-guerra real e que medidas práticas podemos tomar nessa direção )
  3. Resumo dos resultados dos grupos de trabalho e discussão geral de cada um dos tópicos

O local da conferência não será anunciado publicamente. Para se inscrever você deve entrar em contato connosco pelo e-mail FAB fab@a-bg.org ou por mensagem pessoal no Facebook .

Paz entre os povos, guerra contra o poder!

aqui

(Carlos Taibo) No fundo


Carlos Taibo, professor, anarquista e autor de vários livros sobre a Rússia – e que esteve recentemente em Portugal, tendo participado em Braga num debate, na Universidade do Minho,  sobre este tema – tem sido um crítico da invasão russa da Ucrânia, embora estabelecendo também fortes responsabilidades nos países da NATO e da União Europeia, mobilizados sobretudo por interesses económicos. Para Carlos Taibo, “Putin é, entre outras coisas, mas não numa proporção insignificante, produto da arrogância e da ignomínia dos países ocidentais e das suas maravilhosas alianças militares”, manifestando-se de um e de outro lado os apetites imperialistas. Não branqueia a Rússia e escreve, num texto recentemente publicado no seu blogue e partilhado nas redes sociais, “repugna-me e rejeito esta intervenção, assim como me repugna e rejeito as protagonizadas pelas potências ocidentais com o objetivo de preservarem os seus interesses e privilégios.”

*

Carlos Taibo

Durante os últimos dois meses, os da guerra ucraniana, tentei ficar longe do ruído dos media. Se os meus cálculos estiverem corretos, concedi algumas entrevistas e evitei talvez uma centena, coloquei na minha página da web – que ninguém lê – uma dúzia de artigos e, finalmente, há um livro modesto por aí de que sou, dizem eles, um autor. Não consegui evitar, porém, dois obstáculos. Se o primeira é a manipulação, em geral bem intencionada, dos meus textos, ou das minhas intervenções orais, a segunda é a catalogação que tanto agrada aos que se entregam a jogos maniqueístas e ao presentismo mais hilariante. Quem não está comigo, quem não bajula essa organização filantrópica que é a NATO, está inevitavelmente – como se sabe- com Putin e os seus tanques.

A mais recente manifestação deste último, do maniqueísmo que me vou permitir classificar de desinformado, é, a meu ver, um artigo de David Sarias intitulado “Putin, o Ocidente e os debates necessários”, publicado em El Independiente. Cito-o , não porque tenha especial importância o que nele é dito ou sugerido sobre mim, mas porque ilustra o vigor de um fenômeno que, embora conhecido, atinge nestas horas dimensões perturbadoras .

Sarias, que me coloca numa lista que inclui Noam Chomsky, Tariq Ali, Hasel-París Álvarez e Beatriz Talegón, atribui-me judiciosamente a condição de antisistema – evitarei as disputas semânticas, embora ricas, que este delicioso adjetivo arrasta -, inclinado a rejeitar o que significa “o Ocidente”. No seu esforço de categorização das aberrações, esquece, porém, que as razões que justificam a minha raiva contra o Ocidente – não sei quais são as dos outros mencionados – são, na maioria dos casos, as mesmas que me fazem rejeitar a Rússia de Putin. A saber, e por exemplo, a hierarquia, a exploração dos seres humanos, a desigualdade, a repressão, a militarização e os desejos imperiais. É assim que sou estranho.

Nestas condições, o mais confortável é, claro, que os anarquistas, e neste caso Chomsky e eu, passemos por apoiantes constrangidos e bastante tolos do camarada Putin. Sarias afirma que os antisistema, à esquerda e à direita, olhamos para o presidente russo como uma vítima e ousa prever, ainda mais, que aos nossos olhos Putin seria, “no fundo”, um saudável “elemento de mudança” para o Ocidente”. Caramba! Há 22 anos que critico fortemente Putin para descobrir que – no fundo, isso sim – não sou mais do que um admirador do criticado. Como me escondi, há duas décadas atrás, quando tentei fingir que estava a opor-me à barbárie de Putin na Chechénia enquanto os nossos governos e os nossos empresários faziam negócios com a Federação Russa. E como me dissimulo agora quando, numa engenhosa finta, afirmo que Putin é, entre outras coisas, mas não numa proporção insignificante, produto da arrogância e da ignomínia dos países ocidentais e das suas maravilhosas alianças militares . Que falta de vergonha a minha, em resumo, quando pareço interessar-me por quem, na Rússia e na Ucrânia, enfrenta os poderosos de ambos os lados da fronteira.

Suponho, de resto, que Sarias, pelo que percebo, vê em mim um tudólogo opinativo – três décadas de trabalho na universidade e uma quinzena de livros densos e dispensáveis, não me servem de nada -, dá por garantido que apoio, ainda que a contragosto, a intervenção militar russa na Ucrânia. Pois que o diga, mas não é assim. Repugna-me e rejeito esta intervenção, assim como me repugna e rejeito as protagonizadas pelas potências ocidentais com o objetivo de preservarem os seus interesses e privilégios. Admito, mesmo assim, que nunca é tarde para, no fundo, se perceber o que cada um defende.

16/04/2022

Relacionado: https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2022/02/26/nao-a-guerra-nao-aos-imperios/

Cronologia do Anarquismo em Portugal (1974-2021)


Durante vários meses coligimos a informação de base para esta cronologia do anarquismo em Portugal entre 1974 e 2021. A maioria das referências está associada a fontes. Tentámos ser o mais abrangentes possíveis, mas um trabalho deste tipo está sempre incompleto. Depois de finalizada a 1º versão fizemo-lo circular entre um grupo de companheiros que nos deram valiosas informações e que foram integradas nesta 2ª versão. Outras existirão, conforme nos chegarem novas atualizações. Procurámos não só iniciativas e momentos importantes para o movimento libertário em Portugal, mas também pequenas iniciativas do dia a dia que marcaram os espaços libertários. Assinalámos também alguns acontecimentos que embora não tivessem sido protagonizados por anarquistas (por exemplo, a morte em bairros) motivaram atos de solidariedade e tomadas de posições por parte dos vários coletivos. Em termos de fontes de informação foram para nós relevantes o antigo blog da rede libertária, a página da já desaparecida AIT/SP, da BOESG e, no Porto, da casaviva. Ficamos à espera de novas entradas que nos sejam remetidas (agradecíamos que todas tivessem uma fonte – ou na internet ou em papel).

(Rússia) Professora universitária e anarquista Maria Rachmaninova denunciada por falar da guerra contra a Ucrânia


A professora universitária Maria Rachmaninova, doutorada em Filosofia, fundadora da Akrateia, uma revista dedicada ao estudo do pensamento anarquista, lecionava há dois anos no Departamento de Filosofia e Estudos Culturais da Universidade dos Sindicatos de São Petersburgo (SPbGUP). Agora já não dá aulas. Foi obrigada a demitir-se no seguimento duma denúncia por ter abordado com os alunos o tema da guerra na Ucrânia.

O site Glasnaya publicou recentemente  um artigo de Maria Rachmaninova sobre a sua demissão e a censura no sistema de ensino russo, intitulado “Era um canto de cisne”.

(mais…)