Depois da guerra. Declaração de Maio de anarquistas na Ucrânia


Militantes do grupo ucraniano Bandeira Negra junto da nova carrinha obtida graças ao apoio popular. Traduzimos as suas conclusões preliminares dos últimos dois meses e meio de massacre. A atividade anterior do grupo é abordada neste e neste material. Todas as fotos são tiradas de seu canal Telegram. Junte-se também à nossa campanha de arrecadação de fundos para trabalhar na restauração do tecido social da cidade e ajudar os moradores civis da destruída Kharkiv.

autor: https://libcom.org/tags/assemblyorgua

Pelo terceiro mês consecutivo, o povo ucraniano está a lutar contra o invasor russo. O equilíbrio de forças antes de 24 de fevereiro lembrava uma luta de David e Golias: o sistema militar ucraniano, mais pobre, mas mais preparado, enfrentava a enorme máquina militar russa, que tem uma vantagem incrível em bombas, munições, equipamentos e tecnologia. No entanto, com o início de uma invasão em grande escala, David começou a derrotar Golias, afetado pela miopia de que teria uma grande superioridade sobre o inimigo e pela falta de motivação entre os recrutas. Mas uma das principais forças motrizes que atrapalhou os planos dos novos vlasovistas – e quase a principal – foi e é o povo ucraniano, principalmente os trabalhadores.

Durante estes dois meses assistimos a uma incrível mobilização das melhores virtudes do povo trabalhador ucraniano: de facto, sem meios suficientes de subsistência, o povo deu o seu último dinheiro ao exército; muitas pessoas aderiram a movimentos voluntários que alimentaram refugiados e pobres, encontraram e organizaram abrigos para eles; encontraram equipamentos para os militares, entregando-os com risco de suas próprias vidas na frente; o mesmo aconteceu com a ajuda humanitária para os habitantes das cidades e vilas ocupadas.

E houve casos de glutonice – como queiram! Os refugiados protestaram contra os preços altos das novas casas para onde foram, mesmo que temporárias; os preços dos alimentos aumentaram, mas não os salários nem as opções de trabalho decente. O Estado foi forçado a desviar-se de seu rumo neoliberal em direção ao keynesianismo, mas isso não foi suficiente para salvar a economia. Além disso, houve tentativas de aprovar leis anti-laborais destinadas a desregulamentar as relações laborais: o famoso projeto de lei № 5388, que não obteve votos suficientes no parlamento.

Agora, quando algumas zonas da frente conseguiram aproximar-se, pelo menos, de uma aparência de vida pacífica (apenas algumas, porque a luta ainda é intensa noutras áreas, e nalguns lugares, em plena luz do dia, chega o “amor fraterno”  em forma de foguetes e minas, destruindo cidades pacíficas), vale a pena analisar o que esta dolorosa experiência da guerra realmente nos deu. Conjuntamente com o medo, as feridas, o empobrecimento, o atraso, o martírio em massa, organizado pelos ocupantes no espírito do “ratissage” colonial francês, temos a unidade sem precedentes do povo, a auto-organização, o desejo de entre-ajuda. É claro que a descoberta destas capacidades existe, ao mesmo tempo, do que as enormes ameaças que colocam ao futuro de cada um e que são conhecidas. Mas esse sentimento (solidário) não desaparecerá durante muito tempo – por enquanto, a guerra não acabou, e depois dela haverá um período de reconstrução – e é importante não apenas preservá-lo, mas também concretizá-lo. Perceber, entender: para onde vamos agora? Precisamos, de facto,  de sermos orientados, a partir de cima, para organizar um trabalho socialmente útil? Podemos ajudar-nos uns aos outros sem esperar nada em troca? A palavra do vocabulário político ucraniano que se banalizou, a “descentralização”, tem agora um significado diferente e mais humanista? Estamos a lutar por um estado oligárquico de capitalismo periférico ou por uma verdadeira democratização da sociedade, pela solidariedade entre os trabalhadores, pelos direitos e liberdades? Os ucranianos serão capazes de criar uma célula de resistência a essas inevitáveis ​​mudanças tectônicas que empurram o mundo inteiro para o abismo da guerra e do sofrimento?

O que antes apenas líamos nos livros de história, e que ganhou poeira ao longo dos anos, confronta agora os ucranianos em toda a sua amplitude: o sentimento de unidade e ajuda mútua. Por isso é importante salvaguardar os princípios da solidariedade e da ajuda mútua para os tempos de paz, que inevitavelmente acontecerão, e sermos guiados por eles para construirmos uma sociedade mais humana.

Da guerra de libertação nacional à revolução social!

aqui: https://libcom.org/article/after-war-may-declaration-anarchists-ukraine

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