(Ucrânia) Manifesto do Comité de Resistência


Contexto

O que é que o regime de Putin e o imperialismo trazem consigo? Vimo-lo no exemplo sombrio de Donbass e da Crimeia. Vimo-lo na repressão sangrenta dos povos da Bielorrússia e do Cazaquistão, na destruição dos movimentos de protesto na Rússia, no bombardeamento das cidades sírias. Mas tudo isto parecia não ser suficiente para Putin. Em 24 de Fevereiro de 2022, iniciou uma guerra em grande escala contra a Ucrânia. Hoje, o epicentro da resistência contra a escravatura está aqui. A luta dos ucranianos dá esperança de libertação a todos os oprimidos pelo Putinismo.

Durante séculos, o território da Ucrânia moderna permaneceu na fronteira dos interesses da ambição imperial e da agressão. Povos de espírito livre afluíram aqui para longe do despotismo. Entre esses povos encontravam-se cossacos e insurgentes Opryshki (de Opryshky, uma cidade do sul da Ucrânia). Os heróis makhnovistas lutaram aqui pela liberdade do povo contra todos os governos.

A guerra de hoje na Ucrânia é a continuação da luta pela liberdade do povo contra o autoritarismo. Ucranianos, tal como pessoas de muitos outros países, lutam juntos pelas liberdades e direitos que foram conquistados por décadas de luta popular e pelo esforço dos revolucionários. E ainda que hoje o Estado ucraniano tenha visibilidade, a resistência contra a invasão está a ser travada pelo movimento popular de massas.

Quem somos

O Comité de Resistência é o espaço de diálogo e coordenação de iniciativas anarquistas, libertárias e anti-autoritárias.

Acreditamos que a Ucrânia e toda a Europa de Leste devem estar livres de qualquer ditadura. A liberdade, a solidariedade e a igualdade devem tornar-se os princípios fundamentais da organização social na região.

A nossa tarefa: unir esforços de combatentes contra o autoritarismo em prol de uma luta eficaz pelos nossos ideais e valores. Aspiramos a influenciar o futuro da Ucrânia e de toda a região, a proteger as liberdades que já existem e a contribuir para a sua extensão.

Os nossos princípios

“Pela nossa liberdade e pela vossa”! – somos os inimigos do domínio imperial, presente neste momento na Ucrânia pelo brutal exército de Putin. Lutamos pelo bem da sociedade ucraniana, contra a destruição e a morte que os ocupantes russos estão  a levar à prática. Se o Estado ucraniano participa hoje nesta luta, isso não significa que nos tornemos seus apoiantes.

Não consideramos os povos da Rússia e da Bielorrússia como nossos inimigos. Apelamos a todos os russos e bielorussos de espírito livre a lutarem connosco contra a ditadura.

Compreendemos: até que o ninho da tirania em Moscovo seja removido, toda a região sofrerá constantemente de agressões contra a sua liberdade. Cada tirano local, eliminando o seu povo rebelde, será apoiado pelo “czar de Moscovo”. Queremos ser, a nós próprios, e os nossos vizinhos livres. Isto significa que devemos pôr fim ao regime de Putin.

Justiça – somos contra todas as formas de opressão entre os seres humanos, contra as relações entre dominantes e dominados e contra a  desigualdade social. Todos os opressores devem ser derrotados. A tirania deve ser substituída por uma cooperação livre e igualitária de todos na sociedade. É neste princípio, que se baseia hoje o nosso ativismo

Não pode haver justiça enquanto os desequilíbrios de poder e de riqueza na sociedade não forem superados.

A justiça é inimaginável para nós sem que exista a igualdade de género, as preocupações com o ambiente e a superação de todos os tipos de discriminação.

Solidariedade – damos prioridade à cooperação e não à concorrência. Proximidade e colaboração e não o egoísmo e a atomização. No entanto, não rejeitamos a identidade e singularidade de cada indivíduo. A liberdade de cada ser humano existe na liberdade dos outros. Ninguém é livre até que todos sejamos livres.

O que fazemos

Hoje, na Ucrânia, os anti-autoritários participam activamente nas principais esferas de resistência contra a agressão:

1. No teatro de guerra;

2. Na esfera do voluntariado civil;

3. Nas actividades dos meios de comunicação social.

A missão do Comité de Resistência é assegurar a comunicação e coordenação de diferentes grupos e indivíduos activamente envolvidos nestes processos.

O que pode ser feito agora para além de combater os ocupantes?

A forma que a sociedade ucraniana irá ter, no futuro,  é muito importante para nós. Delineámos as mudanças que pretendemos implementar:

1. Cancelar a injusta dívida externa da Ucrânia: este é o garrote  à volta do pescoço do país, detido por instituições financeiras internacionais e Estados ricos. Os habitantes de outros países também beneficiam da luta dos ucranianos contra o regime de Putin. O cancelamento da dívida externa  tornar-se-ia um dos exemplos de solidariedade.

2. Aplicação da amnistia de crédito aos cidadãos ucranianos com rendimentos baixos e médios. A carga da dívida da população é o resultado de deficiências do sistema económico. Os habitantes do país resistente devem ser libertados deste fardo.

3. Estabelecer o sistema de assembleias – instituições da autogestão de base. Devem tornar-se uma prática comum. As assembleias devem ser formadas tanto numa base local como profissional (sindicatos). O desenvolvimento dos sindicatos significa que os trabalhadores criam instrumentos para a protecção colectiva relativamente aos seus interesses económicos.

4. Dar mais instrumentos e recursos às comunidades locais (hromada’s). Em particular – alargar a prática de organização da autodefesa local que já demonstrou a sua relevância em tempo de guerra.

5. Conceder a cidadania ucraniana, ou uma autorização de residência permanente, bem como serviços sociais completos, seguro médico e alojamento a todos os estrangeiros que combatam os ocupantes.

6. Tornar o alojamento acessível: criar um sistema adequado de arrendamento social/municipal, crédito barato acessível para a compra de imóveis, oportunidade para as famílias jovens e outros grupos vulneráveis para obterem um apartamento gratuitamente.

7. Cuidados de saúde gratuitos, minimização da burocracia, garantia de salários adequados para todos os níveis de trabalhadores médicos.

8. Transportes públicos gratuitos.

9. Apoio/subsídios sociais para as pessoas com baixos rendimentos: grande desconto ou acesso gratuito a bens e necessidades básicas.

10. Desenvolver formas eficazes para a proteção da liberdade das mulheres, principalmente no contexto de violência. Acreditamos ser necessário criar estruturas femininas autónomas em todos os órgãos municipais do país, independentemente das instituições estatais. É igualmente necessário formar forças de defesa femininas, reprimindo a violência contra as mulheres. A autonomia das mulheres e as unidades femininas devem ser constituídas também no seio do exército regular. A violência motivada pelo género, tanto do lado dos ocupantes como do lado de todos os outros criminosos, deve ser travada!

11. Desenvolvimento da consciência ecológica e da responsabilidade. A implementação de tecnologias ecológicas humano-proporcionais, configuradas para as necessidades das comunidades locais.

12. O acesso comum aos meios de autodefesa como condição de liberdade e oportunidade para a proteção  face aos agressores. A simplificação do acesso às armas, integração da aprendizagem e do desenvolvimento da indústria militar com base nas tecnologias mais recentes. O desenvolvimento de programas educativos capazes de formar especialistas que reforçarão a capacidade de defesa do país. Oportunidade de adquirir competências militares nas fileiras da Defesa Territorial, minimização da burocracia, extensão dos princípios da tomada de decisões horizontais e transição para a semana normal de trabalho. Implementação do sistema de alimentos nutritivos para veganos no serviço militar.

Este manifesto não é, de forma alguma, definitivo. Estamos prontos a complementá-lo e a corrigi-lo ao longo da nossa prática.

aqui: https://medium.com/@blackheadquarterinua/manifesto-of-resistance-committee-261e01769dac

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