Equívocos sobre o imperialismo e traumas coletivos anarquistas


Antti Rautiainen

Desde o início da invasão russa à Ucrânia, temos visto declarações de anarquistas, comunistas e esquerdistas não ucranianos, sobre o modo como os anarquistas, comunistas e esquerdistas ucranianos não deviam defender do ataque de Putin, mas depor as armas e fugir…

Qualquer tipo de diálogo com essas pessoas provavelmente seria inútil. Mas poderíamos discutir os porquês da teoria anarquista e de esquerda ter acabado num estado tão lamentável. Não tenho uma resposta pronta, mas suspeito que existam duas razões principais. Em primeiro lugar, a existência de uma teoria esquerdista insuficiente sobre o imperialismo, que também se espalhou entre os anarquistas, assim como os traumas coletivos por parte dos anarquistas devido às derrotas históricas que tiveram. Em segundo lugar, muitos anarquistas e esquerdistas analisam qualquer situação a partir da perspetiva do seu próprio contexto e sua história, e não compreendem a realidade que se vive noutros espaços.

Antes das derrotas anarquistas nas décadas de 20, 30 e 40, os anarquistas nunca produziram afirmações tão sem sentido como as que hoje se ouvem. Por exemplo, na Finlândia e na Coreia, os anarquistas uniram-se às lutas pela independência nacional, e os anarquistas dos países imperialistas, por exemplo, como nos Estados Unidos, Grã-Bretanha, Holanda e Japão lutaram contra o colonialismo e o imperialismo dos seus próprios países e governos. Naquela altura, nenhum anarquista alguma vez pediu aos movimentos de libertação nacional para que largassem as armas e abandonassem a luta.

O que há de errado com as abordagens teóricas do imperialismo?

A insuficiência da teoria da esquerda sobre o imperialismo deve-se, pelo menos em parte, a  Lenin. De acordo com Lenin, o imperialismo era a fase final do capitalismo, em que o capitalismo está destinado a expandir-se, a conquistar as periferias e, eventualmente, a destruir numa escala global a livre concorrência, que estava na base do capitalismo. A definição leninista de imperialismo foi útil para o próprio Lenin, uma vez que contexto dessa definição, os ataques contra a Polónia, Ucrânia, Azerbeijão, Arménia e Geórgia liderados pela Rússia Soviética sob Lenin, não constituíam atos imperialistas.

A definição leninista impende-nos também de compreender muitas facetas históricas de imperialismo. Muitas vezes a conquista territorial pode não ser motivada pelo lucro, mas por motivos de segurança na criação de zonas-tampão. Este foi especialmente o caso do imperialismo do Império Russo e da União Soviética. Quando o czar Alexandre I conquistou a Finlândia em 1809, a Finlândia era o país mais pobre da Europa e, portanto, apenas representou despesa para a Rússia. A única razão para a conquista da Finlândia era criar uma zona tampão de segurança em torno de São Petersburgo.

Embora hoje a Rússia seja um pais completamente diferente do império russo, uma das principais razões para o ataque de Putin à Ucrânia é a mesma que levou Alexandre a conquistar a Finlândia – criar uma zona tampão de segurança. Mesmo que Putin ganhasse a guerra, mesmo no espaço temporal de cem anos, a ocupação da Ucrânia traria mais despesas do que vantagens económicas. Não foram os oligarcas e o capital russos que iniciaram a guerra. Segmentos de topo do capital russo, como a liderança da petrolífera Lukoil, chegaram a protestar abertamente contra a guerra.

De um modo muito esquemático, pode-se dizer que o capitalismo está por detrás de todas as guerras modernas, porque o capitalismo incentiva a competição em vez da cooperação. Mas o mecanismo pelo qual o capitalismo cria guerras é mais complexo do que a esquerda pensa. As tentativas da esquerda para reduzir todas as guerras a manobras do capital são muitas vezes fracas, especialmente quando não há petróleo nas áreas visadas pela conquista.

Em 1999, a esquerda argumentou que a NATO e os EUA estavam a conspirar para construir um oleoduto através do Kosovo, e esta terá sido a razão por detrás do bombardeamento da Iugoslávia. 23 anos depois, o gasoduto ainda não foi construído. Em 2001, a esquerda argumentou que o plano era construir um oleoduto através do Afeganistão, e essa era a razão que estava pro detrás da invasão dos Estados Unidos. O gasoduto ainda não está lá. As razões por detrás dessas invasões não tinham a ver com o petróleo, mas também não eram nobres ou humanitárias. As razões eram totalmente ideológicas: estabelecer uma determinada ordem jurídica internacional e vingar humilhações recentes.

A invasão da Ucrânia por Putin é motivada por razões semelhantes. Além de estabelecer uma zona de segurança, Putin quer vingar as humilhações ocorridas durante o colapso da União Soviética,  do ponto de vista de um antigo agente da KGB. Com uma visão ultranacionalista, pretende, ao mesmo tempo,  transformar todos os territórios de língua russa num único estado. A brutalidade dos ataques através da artilharia e dos mísseis não é um objetivo em si, mas deve-se ao facto da Rússia não ter a tecnologia militar avançada para poder realizar ataques de supremacia aérea ou de elevada precisão.

É claro que conquistas territoriais bem-sucedidas beneficiam o capital. Alguns capitalistas beneficiam qualquer que seja o desfecho, desde que não seja uma guerra nuclear. Mas isso não significa que o capitalismo esteja de alguma forma ligado a apenas, ou sobretudo, a uma única superpotência. Os EUA ainda são o principal estado capitalista, mas o capitalismo não melhorará nem piorará, mesmo que os EUA sejam substituídos por outro estado. Um mundo multipolar não é necessariamente menos ou mais capitalista do que a ordem atualmente existente. Portanto, tem pouca exatidão afirmar que o imperialismo americano é mais perigoso do que outros imperialismos apenas porque os EUA são o principal país capitalista do mundo.

A esquerda na Grécia, nos países balcânicos e na América Latina teve experiências muito amargas com os Estados Unidos e a NATO. Nessas zonas, há pouca disponibilidade para confiar no campo ocidental quando este se posiciona contra outros inimigos. Mas não há situações universais, ou hierarquias universais de opressão, em que no centro de todas as formas de opressão esteja o capitalismo e o inimigo, em todos os casos, sejam os Estados Unidos.

Se alguém for gay na Chechênia e for identificado como tal, será assassinado sem que o capitalismo tenha nada a ver com isso. Nesta situação particular, a homofobia patriarcal é um problema mais agudo do que o capitalismo. A Guerra na Ucrânia não é uma consequência inevitável do capitalismo, mas nela pesa, como principal motivo, a compreensão distorcida da realidade por parte de uma única pessoa. O capitalismo teria tido o mesmo sucesso, provavelmente ainda mais, sem a guerra na Ucrânia. Seja a opressão mais violenta, ou  o relacionamento existente entre os piores inimigos e os melhores aliados, tudo pode variar dependendo do tempo e do espaço.

Para além da análise insuficiente do imperialismo por parte de Lenin, as abordagens de esquerda também foram definidas pelo medo da guerra nuclear. Por exemplo, segundo Chomsky, a melhor maneira de lidar com o ódio de Putin ao Ocidente seria oferecer-lhe alguns países como zona tampão (1), caso contrário poderia levar a uma guerra nuclear. Mas esse tipo de solução tem problemas e , por exemplo, o mais óbvio é que Chomsky não perguntou às pessoas que vivem nessas zonas se elas estão de acordo com essa solução.  Além disso, as vitórias fáceis e a submissão, em geral,  não fazem diminuir o apetite dos que detêm o poder, mas, pelo contrário, aumentam-no. Eu não queria estar numa situação em que tivesse que escolher entre a submissão a Hitler ou a guerra nuclear. Esta é mais uma razão pela qual devemos tentar derrubar Putin, em vez de tentar acalmá-lo.

Qual seria uma definição adequada de imperialismo?

Imperialismo é quando um estado procura conquistar outros territórios e alcançar o status de superpotência.

Esta definição é semelhante à que se pode encontrar em vários dicionários, mas decidi descartar o alargamento da definição para a hegemonia económica e cultural. Por exemplo, a popularidade dos filmes americanos em relação aos nacionais não é comparável à destruição dos centros urbanos pela artilharia para os conquistar.

Depois da dominação imperialista ter falhado continuamente (como no caso das invasões dos EUA ao Iraque e ao Afeganistão), ou ter-se tornado totalmente desadequada (como no caso colonial  da Bélgica, Holanda e Portugal), a esquerda decidiu deslocar a discussão para o mal-estar causado pelo imperialismo económico e cultural. Mas chamar a atenção para a hegemonia cultural de imperialismo é uma extrapolação do conceito de base, o que levou a uma análise errada da esquerda ao querer equiparar a expansão da NATO ao ataque russo à Ucrânia.

De facto, há uma tendência no discurso pós-colonial, desenvolvido nos Estados Unidos, de assumir que as guerras de conquista já não são um problema e, por isso, as experiências e ameaças que existem na Europa de Leste são irrelevantes ou, quanto muito, um problema tão relevante como a hegemonia cultural dos Estados Unidos. De certa forma, a própria teoria pós-colonial tem um reverso colonial. Os europeus do Leste, que tentam usar os conceitos da teoria pós-colonial nas suas análises, têm o mesmo problema, porque a violência interétnica na Europa Oriental raramente é devidamente explicada devido à estrutura colonial destas teorias ditas pós-coloniais. Na Europa de Leste, o alvo da violência é o inimigo, mas não o exótico, o “outro”,  sem valores humanos, mas sim um ser humano semelhante, embora com uma identidade diferente. Nem todo o imperialismo é colonial.

A aliança entre um país pequeno e um maior é totalmente diferente de um ataque de um país grande a um país pequeno, obrigando-o, posteriormente, a submeter-se à sua própria esfera de influência. Devido às intervenções ultrajantes e unilaterais dos EUA em lugares como a América Latina ou o Médio Oriente, e também no território da ex-Jugoslávia, poder-se-iam utilizar argumentos moralistas contra o facto dos países do Leste Europeu quererem aderir à NATO. Mas o propósito dos estónios ao apoiarem a adesão à NATO não é o de se oporem a palestinianos, curdos, iraquianos ou sérvios do Kosovo, mas o desejo de não serem conquistados pela Rússia. Não apoio a adesão à NATO da Finlândia ou de qualquer outro país, mas também não me oponho ao “imperialismo estoniano”, porque isso não existe.

(Na década de 30), a república espanhola tentou obter o apoio da Grã-Bretanha e da França. Quando a derrota da insurreição de Kronstadt estava iminente, os rebeldes tentaram apelar aos países da Entente para obterem alguma ajuda. Por outro lado, a maior parte dos movimentos anticoloniais dos anos 50, 60 e 70 pediram e receberam apoio da União Soviética. Não condeno nenhum deles. O amigo do meu amigo não precisa necessariamente de ser meu amigo.

Centenas de milhares de pessoas estão todos os anos a abandonar os países pobres com destino aos países ricos. Serão agentes do imperialismo? Talvez um revolucionário consistente prefira participar nas lutas sociais no local onde tenha nascido, por mais pobre que seja esse local. Mas o desejo de elevar o padrão de vida é um desejo natural, e contrariar esse desejo não levaria sequer os anarquistas a um passo em frente. Na Europa de Leste, a vontade em aderir à UE e à NATO foi generalizada, e teve como objetivo aumentar os padrões de vida e a segurança das populações, e não para saquear o continente africano conjuntamente com os franceses.

Também não existe imperialismo ucraniano, embora não tenha encontrado esse tipo de argumentação entre a esquerda. A política ucraniana durante o movimento para a independência foi moldada por conflitos (ultra)nacionalistas, sendo o estatuto da língua russa apenas um deles. Por exemplo, ativistas rutenos tiveram sérios problemas com nacionalistas ucranianos e com funcionários do governo (2) . No Donbass, houve tiroteios semanais e geralmente diários desde o cessar-fogo de 2014-2015, e ambos os lados bombardeiam constantemente edifícios civis, um crime de guerra. Mas todos esses conflitos ocorreram dentro das fronteiras traçadas em 1992, por isso não se pode defini-las como imperialistas. Crimes de guerra ocasionais ainda não se podem qualificar como genocídio, quaisquer que sejam as alegações de Putin.

É possível que a guerra pudesse ter sido evitada se as políticas ucranianas em torno da língua e nacionalidade tivessem sido menos nacionalistas. Mas esta não é uma questão simples. Qualquer grupo minoritário deve ter direito à autodeterminação nacional, mesmo os seguidores de Putin? Os alemães dos sudetas (boémios) tinham o direito de autodeterminação, num contexto em que 88% deles votavam e 40,6% eram membros de um partido pró-nazista? Após o início da guerra, essas questões difíceis foram deixadas de lado, pois a escala de destruição levada a cabo por Putin está num nível completamente diferente em comparação com os problemas do nacionalismo ucraniano. Mas depois da guerra, essas questões podem voltar à agenda, e até mesmo durante a guerra, se a Ucrânia tiver possibilidades de tomar, nalgum momento, a ofensiva militar.

É claro que mesmo o nacionalismo de tipo “pequeno” e local pode ser brutal. Existem inúmeros exemplos disso, como foram os massacres contra os russos durante os momentos finais da guerra civil finlandesa. Milhares morreram de fome nos campos de concentração construídos para a população civil russa na Carélia Oriental durante a Guerra da Continuação (Segunda Guerra Soviético-Finlandesa, 1941-1944). Embora, mesmo neste caso, nacionalismo e imperialismo não devam ser confundidos, porque os movimentos nacionalistas não estão apenas a construir impérios, mas também a destruí-los.

Um “opositor a qualquer tipo de nacionalismo” é também opositor a muitos movimentos anticoloniais e acaba no lado errado da história. Uma análise desse tipo pode encontrar apoio no centro do império, mas nunca num país onde a experiência do colonialismo e do imperialismo ainda são memórias vivas. A fraqueza do anarquismo após a segunda guerra mundial talvez não se deva a “erros” cometidos na Rússia ou em Espanha, mas um dos fatores pare esse declínio pode ter sido ser o fracasso anarquista na intervenção e no apoio aos movimentos anticoloniais. A União Soviética fez o que os anarquistas não fizeram, da maneira que lhe era própria, brutal, e que causou muita destruição desnecessária (mas, alguma,  também necessária) no sul global. Todos os contributos dos anarquistas em desfavor dos movimentos de libertação fizeram o movimento anarquista regredir nos territórios que sofreram com o imperialismo e com o colonialismo.

Traumas anarquistas

A história do movimento anarquista está cheia de histórias de traição e de oportunidades perdidas: os leninistas traíram a revolução russa, esmagaram o território livre da Maknovitschina e a insurreição de Kronstadt. O governo republicano da Espanha, num primeiro momento, pôs termo à revolução social e depois foi esmagado pelos Falangistas. A vitória dos aliados na Segunda Guerra Mundial não resultou numa onda de revoluções como se esperava e o apoio aos movimentos anticoloniais não resultou no surgimento de sociedades anticapitalistas. A partir desses exemplos, alguns anarquistas chegaram à conclusão de que mão era prioritário lutarem contra o fascismo, o imperialismo ou o colonialismo.

A teoria e uma boa análise da situação podem ganhar revoluções, mas não podem ganhar guerras. As guerras são vencidas ,em primeiro lugar, com superioridade material, e, às vezes,  também com motivação e uma estratégia inteligente. As cartas onde se ganha e onde se perde, em geral, são distribuídas no início da guerra e, no seu decurso, apenas se podem jogar as cartas que se têm na mão. Os anarquistas não perderam na Rússia ou em Espanha devido a quaisquer debilidades teóricas, mas sim porque não tinham armas e combatentes suficientes.

Estas derrotas foram tão traumáticas para os meios anarquistas que estes fizeram algumas alterações teóricas, na suposição de que, com elas, poderiam ter vencido essas guerras. Por exemplo, muitos anarquistas acreditam que Makhno nunca deveria ter feito qualquer aliança com os leninistas, que depois o traíram. Segundo alguns, o leninismo é  uma doença altamente contagiosa que, em caso de contato, infetará o anarquismo.

Muitos anarquistas também acreditam que a aliança com o governo da Frente Popular, em Espanha, contra o fascismo,  foi um erro. Será que os anarquistas podiam ter vencido se declarassem simultaneamente uma guerra contra a Frente Popular e contra Franco?

Essas teorias são obviamente idiotas, uma vez que as alianças militares não têm nada a ver com as ideias de cada um. Quaisquer aliados podem trair as alianças. Leninismo e anarquismo não são compatíveis, mais cedo ou mais tarde o conflito é inevitável. Mas a aliança com os leninistas não acelerou, antes adiou, a derrota dos anarquistas em Espanha e na Rússia. A derrota foi predefinida, pois os anarquistas não tinham os recursos necessários para vencer, nem as ligações para terem acesso a esses recursos. No início da guerra, devem-se ter recursos suficientes, ou aliados que forneçam esses recursos que permitam vencer a guerra. Os anarquistas não perderam porque tinham aliados, os anarquistas perderam porque o inimigo tinha ainda mais aliados.

Obviamente, a questão das alianças tem implicações éticas. Não se deve forjar uma aliança com um parceiro cuja vitória poderia criar um cenário ainda pior do que uma vitória do inimigo. Não se deve abrir mão da autonomia, da possibilidade de criticar os aliados ou de branquear o aliado. Não se devem tolerar perseguições políticas organizadas por aliados, e muito menos participar nelas, como fizeram alguns anarquistas durante a revolução russa. Mas hoje em dia tudo isto é bastante óbvio, e seria subestimar os nossos companheiros poder imaginar que nem todos os anarquistas compreendem isto.

A análise da derrota anarquista na guerra civil espanhola foi influenciada pelo grupo Amigos de Durruti, que atuou em 1937-1938 e posteriormente na emigração, bem como pelo comunismo de conselhos antiautoritário, uma tendência que se desenvolveu na Holanda e Alemanha em nos anos 30. Tanto os Amigos de Durruti, como os conselhistas, compartilham uma crítica ao governo de frente popular espanhol, incluindo a liderança da anarco-sindicalista CNT-FAI que se juntou ao governo. E, de fato, é bastante óbvio que fazer parte dum governo é um difícil de aceitar para os anarquistas.

Mas as alternativas apresentadas pelos Amigos de Durruti e comunistas de conselho eram diametralmente opostas. No folheto “Rumo à nova revolução”, os Amigos de Durruti defendiam uma rebelião contra o governo de frente popular(3) . Mas eles não estavam dispostos a desistir da luta contra a Falange e, por isso, comprometeram-se a continuar a guerra e a colocar o exército da Frente Popular “sob o controle dos trabalhadores”.

Mas a Frente Holandesa Marx Lenin Luxemburgo, que começou como uma tendência trotskista na década de 1930, e depois se desenvolveu na direção do comunismo de conselhos, apelou (na II Guerra Mundial) a que todos os soldados dos exércitos aliados desertassem da frente (4) pois, segundo eles, o capitalismo era igualmente um mal na Grã-Bretanha, na União Soviética e na Alemanha nazi. De acordo com os adeptos modernos dessa tendência, Franco também seria tão nefasto como a Frente Popular em Espanha, tornando o antifascismo e o fascismo igualmente nefastos; desse modo,  os anarquistas deveriam ter rejeitado a luta antifascista em Espanha e em todos os lugares em que estiveram na linha da frente.

Desde então, o comunismo de conselhos influenciou o grupo francês Socialisme ou Barbarie (1948-1967) e, através dele, os situacionistas. Um dos problemas da teoria revolucionária é que ela aumenta quantitativamente em cada ano que passa, enquanto o contrário pode ser dito quanto à sua qualidade. Nalgum momento, as teorias mais estúpidas devem ser jogadas fora, se não para o lixo, pelo menos para o fim da estante de livros, independentemente de terem sido escritas por anarquistas, leninistas, comunistas ou esquerdistas. De tempos a tempos, alguém poderia ir busca-las e perguntar-se a si próprio, como é que foi possível os princípios teóricos terem degenerado tanto até agora. Também se podia fazer mais com menos teoria, como o prova a práxis das gerações anteriores. Antes da Segunda Guerra Mundial, nenhum anarquista, seja onde quer que fosse,  fez qualquer apelo para baixar as armas diante de um ataque imperialista.

1) Noam Chomsky: uma zona de exclusão aérea sobre a Ucrânia pode desencadear uma violência incalculável https://truthout.org/articles/noam-chomsky-a-no-fly-zone-over-ukraine-could-unleash-untold-violence

2 ) Notícias do ano de 2018: https://crimea.ria.ru/20180806/1114977195.html (Você pode precisar de VPN para acessar o link da área da UE)

3) Amigos de Durruti: Rumo a uma nova revolução https://theanarchistlibrary.org /library/friends-of-durruti-towards-a-fresh-revolution

4) Corrente Comunista Internacional: A Esquerda Comunista Holandesa e Alemã. Londres, 1990.

Originalmente publicado em finlandês em Kapinatyöläinen #56, 22/1.

Publicado também aqui: https://avtonom.org/en/author_columns/misconceptions-about-imperialism-and-anarchist-collective-traumas

8 comments

  1. O autor manipula informações, afirmando p.ex. que nunca até à Segunda Guerra os anarquistas tinham boicotado lutas como as da Ucrânia, apenas por terem um viés nacionalista, o que não procede, pois durante a própria Segunda Guerra a orientação majoritária dos anarquistas foi conclamar a classe trabalhadora a desertar dos quartéis e lutar pela Revolução; o autor afirma também que a aliança de anarquistas e Bolcheviques na Revolução Espanhola ajudou mais do que prejudicou a Revolução (“adiou a sua derrota”), quando relatos dos próprios revolucionários anarquistas do período atestam que foi exatamente quando a então URSS entrou em cena que o campo revolucionário começou a sofrer os maiores reveses (a esse respeito é bastante esclarecedor o fato de Stalin ter se aliado formalmente a Hitler logo em seguida, no início da Grande Guerra); afirma ainda que a motivação russa para a invasão da Ucrânia é apenas de ordem militar (para ampliar sua zona de segurança) e não econômica, pois pelo fato da Ucrânia ser menos desenvolvida que a Rússia uma anexação significará mais despesas do que receitas para esta, o que não é verdade porque, entre outros atrativos econômicos, a Ucrânia é um celeiro internacional de grãos, p.ex.

    Uma das poucas coisas de que gostei neste texto foi a crítica à ideia dominante na esquerda de que os EUA são o maior vilão do sistema globalizado atualmente, quando na verdade o maior vilão é o próprio sistema.

    Me parece ser mais um texto de um marxista “pragmático” do que de um anarquista com princípios sólidos.

  2. O texto pode ser interessante em alguns pontos, mas no geral defende uma certa lógica “pragmática”, coisa que vai completamente em contrário do princípio basilar anarquista de coerência entre meios e fins : p.ex., segundo a lógica dele é justificável q anarquistas lutem aliados a nacionalistas apenas porque estes estão tentando barrar o avanço de forças colonizadores.. Mas, se esses nacionalistas querem implantar um Estado nacional “forte” (como inclusive foi o caso, p. ex., do processo da dita revolução em Cuba), qual o “ganho” para o avanço do projeto libertario de emancipação humana que isso poderia trazer..?

  3. Veja aí agora o que deu a aliança dos curdos com os EUA: se por um lado poder ter “adiado a derrota dos anti autoritarios”, como defende o autor com relação às alianças históricas de anarquistas com certas forças autoritarias, por outro lado agora está levando a mais uma esmagadora traição histórica, pois Erdogan acabou de negociar com os EUA a entrega de bandeja de muitas lideranças curadas (em troca do apoio ao Ocidente na Guerra da Ucrânia).

  4. Parafraseando o ditado popular que diz que “quem não aprende com a sabedoria dos mais velhos aprende com a vida”, em escala coletiva, “quem não aprende com a história, aprende com a própria pele'”.

    O padrão se repete em todos os casos históricos de alianças de forças anti autoritárias com forças autoritarias: no final, as primeiras são sempre traídas pelas segundas.

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